Beto Vizzotto fala do Paraíso do Rock

Texto por Leonardo Vinhas
Fotos por Andye Iore

“Você sabe o que é ser um fã de (insira o nome de banda ou gênero musical não muito popular aqui) numa cidade do interior como a que eu moro?” Não foram poucas as vezes que essa “pergunta-desabafo” apareceu em comunicações com o Scream & Yell na era pré-Facebook. Não é segredo para ninguém (exceto, talvez, para quem nunca saiu de uma capital) que o interior do Brasil é farto em cidades que oferecem pouquíssimas opções – não só de trabalho e diversão, mas também de espaço para conhecer e vivenciar algo novo ou diferente da monocultura que grassa por ali.

E é (também) por isso que é surpreendente que Paraíso do Norte, município de cerca de 13 mil habitantes do interior do Paraná, esteja prestes a oferecer a oitava edição do festival Paraíso do Rock (www.facebook.com/paraisodorockpr). Wander Wildner, Los Porongas, Bidê ou Balde, Nevilton, Walverdes, Matanza, Daniel Beleza e Motormama, entre muitos outros, já passaram pelo festival, e a edição 2015 promete ser a mais concorrida de todas. Surpreende mais ainda que o organizador e curador do evento seja o prefeito da cidade, Beto Vizzotto.

Com realização prevista para os dias 10 e 11 de julho no CTG São Jorge (sim, um festival de rock em um centro de tradições gaúchas), o lineup desse ano conta com os uruguaios Molina y Los Cósmicos, o pernambucano Maciel Salú (filho do Mestre Salustiano), os cariocas do Autoramas mais Frank Jorge & Tenente Cascavel (que tem em sua formação Marcio Petracco, Luciano Albo e outros ex-integrantes de bandas gaúchas), Cavernoso Viñon, The Mullet Monster Mafia, Elemento Principal e Sollado Brazilian Groove.

É também digno de nota que o Festival oferecerá sua própria cerveja, a Cerveja do Paraíso, produzida pela maringaense Araucária exclusivamente para o evento. “Não tem cabimento o cara vir curtir boa música e ter que tomar cerveja ruim”, justifica, por telefone, um bem-humorado Vizzotto. O Scream & Yell conversou com o prefeito para entender as motivações e os objetivos do festival. A paixão de Vizzotto pela música (não só rock) é evidente, assim como sua intenção de manter o festival com preços acessíveis (R$ 30 reais para ambos os dias na compra antecipada). Então, que seja a hora de conhecer uma festa musical verdadeiramente “fora do eixo”.

O Paraíso do Rock parece estar integrado com a proposta de outros festivais, como Rec Beat, El Mapa de Todos e Festival Brasileiro de Música de Rua, que trazem artistas latino-americanos. Já tocaram aí os argentinos Valle de Muñecas, normA e Los Cocineros. Qual é a importância da integração?
Essa questão da integração é uma coisa fantástica! Temos uma raiz em comum com os países vizinhos, e o que me deixa triste é que o futebol acaba nos afastando. O futebol criou uma rivalidade burra. Conheço muito da Argentina, rodei bastante de carro por lá, e convidava amigos para ir junto, e a reação sempre era: “ah, Argentina, você tá louco? Tem é que explodir Itaipu e afundar tudo”. Isso me chateava, me chateia até hoje. A música não cria essa rivalidade. E acompanhando outros festivais, como o El Mapa que você citou, pensei que essa podia ser uma vertente do Paraíso do Rock. Antes o Pablo [Hierro], da Scatter Records, era nosso “caixeiro-viajante”, apresentando e trazendo artistas. Agora o [Nicolás] Molina tá fazendo esse papel. E o resultado disso tudo é muito bom. O cara que vem pro festival conhece a música de fora, conversa com o argentino, com o uruguaio, e muda essa concepção. Nós temos tudo a ver com argentinos, com uruguaios, e é necessário dar esse primeiro passo [para aproximar os países].

Por falar nisso, a curadoria do festival é de responsabilidade exclusivamente sua, ou você conta com uma equipe ajudando nisso?
Eu rodo bastante o país, por causa da política e por mim mesmo. Aonde vou, procuro ver as bandas locais. Grande parte do que entra no festival tem meu dedo na escolha, mas tenho um grupo de sobrinhos, amigos, filhos, para quem vou apresentando as coisas novas que vou conhecendo, e eles vão me dando um feedback. Eu já estou na casa dos 50 [anos], então é importante ter outras referências Não dá para imprimir só seu gosto musical. E minha mulher participa comigo, ela tem um gosto musical um pouco diferente do meu, assim como algumas pessoas desse grupo que te falei. Mas é isso que é massa, a gente vai conversando e se acertando.

A cada edição, o público do festival aumenta. O que espera para esta edição?
A gente tem a expectativa de o festival ter o maior público pagante da sua história. Temos três artistas de estatura, com certo apelo, que são Autoramas, Tenente Cascavel e Maciel Salú. As pessoas já esperam pelo festival, e a divulgação neste ano está maior. Sempre temos o receio do clima: quando está frio e chuvoso, há uma inércia, as pessoas ficam mais em casa. Mas pelo lineup e pela divulgação, acredito que podemos ter um recorde de público.

Houve alguma resistência quanto ao festival? Imagino que agora, sendo a oitava edição, não haja nada do tipo, mas quem conhece o interior do país, especialmente das cidades do Sul, sabe do conservadorismo geral…
Ah, nos primeiros festivais a resistência foi muito grande! Quando fiz o primeiro, ainda não era prefeito, mas já enfrentava cobranças. O rock sempre foi associado a maconheiro, esse tipo de coisa… Mais que isso, tem a questão do preconceito. É festival de rock? O Ministério Público vai lá e fica na porta. Não vejo isso acontecer em outros tipos de evento. Aqui na região impera o sertanejo. Em qualquer boate, em qualquer boteco, em exposição, sempre tem artistas de sertanejo. É só isso. Logo, esse mercado não precisa de nada do poder público. Já tem seu espaço. Então a gente tem que dar para nossa juventude outra opção de conhecer coisas boas. Com os anos, o bom clima do festival e o público que vem de fora, a aceitação foi acontecendo. E tem outra coisa que colabora muito para essa aceitação é que o lucro do festival vai para a APMI (Associação de Proteção à Maternidade e à Infância), que realiza atividades educacionais no contraturno da escola pública. Não é um lucro grande, mas é um valor que permite um retorno significativo para essa entidade e a ajuda a seguir com seu trabalho. Isso já é uma marca do festival. E é um evento com bandas de qualidade, a gente prima pela segurança, então virou uma questão de respeito. Mesmo quem não gosta respeita. Já é, sem dúvida, um festival aguardado pela cidade, como podemos ver pelas mensagens que recebemos por e-mail e pelo Facebook. Chegam até a pedir mais, dizendo que tem que ter um no inverno, outro no verão…

Um nome que chama muita atenção na programação deste ano é o do Maciel Salu. Me faz pensar um pouco na definição de “rock” nos países vizinhos, que é mais referente a uma atitude do que a uma estética musical. Aqui no Brasil ainda existe muito forte essa coisa do “rock é rock mesmo”, o roqueiro caricato, de jaqueta de couro, que escuta só rock de riff e batida 4×4. E o Paraíso do Rock parece não estar muito a fim de enfatizar esse cânone.
Justo. Eu também encaro essa questão como uma questão importante. Trazer maracatu, embolada, ritmos genuinamente brasileiros, mas que não são de acesso fácil para a juventude daqui. É engraçado, porque o Maciel Salu já rodou metade da Europa e não é conhecido no sul do Brasil. Sair do formato mais “certinho” do rock e apresentar coisas diferentes, é isso que queremos. Tem Maciel Salu, tem a surf music do The Mullet Monster Mafia, tem a mistura de rap e rock do Elemento Principal, o Molina y Los Cósmicos com o folk… Está bem balanceado, e é isso que queremos.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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