Sharon Van Etten ao vivo em São Paulo

Texto e vídeos por Marcelo Costa

Fotos por Liliane Callegari (veja galeria)

Não poderia ter sido mais perfeito: a musa da “sofrência” no mundo pop atual tinha que fazer a sua estreia ao vivo em São Paulo numa bela noite de Dia dos Namorados, uma pegadinha do destino que, irônico, ainda colocou um show dos Backstreet Boys para “concorrer” com ela, como se quisesse definir, através da canção, maneiras de lidar com o amor: “I’ll Never Break Your Heart” prometiam tolamente os “meninos”; “Your Love Is Killing Me”, responde a garota.

Para uma artista ainda cult como Sharon, um bom público se predispôs a sair de casa para encontrar os mesmos amigos que sempre escolhem o melhor show da noite. Na portaria, maçãs do amor foram providenciadas pela produção da Popload Gig aos que toparam tirar uma com a cara do Cupido. Não parou por ai: durante a noite, uma garota distribuía paçoquinhas Amor e doces de abóbora em formato de coração num clima romântico de quermesse indie.

Logo após uma sequencia de tangos e baladas latinas sofridas, Sharon Van Etten subiu ao palco, aplaudidíssima, com uma taça de vinho e sua banda. De blusa florida e jeans, pegou o violão e abriu a noite com uma versão de “Afraid of Nothing” – canção que também abre seu quarto álbum, o bonito “Are We There” (2014) – incomodada por uma insistente microfonia, que a deixou nervosa e insegura nos primeiros momentos.

Não à toa, logo no primeiro intervalo, antes da segunda canção da noite, para quebrar o gelo do começo difícil, ela abriu seu coração (partido) apressadamente: “Que belo lugar para um show (o Cine Joia), que bela cidade. Vamos voltar!”. Como resposta, gritos de “casa comigo” ecoaram no velho cinema: “Você não quer casar comigo. Eu sou problema”, devolveu. Na sequencia, “Taking Chances” foi recebida com histeria por uma plateia devota.

Ao vivo, Sharon Van Etten se porta como um encontro de Cat Power com Damon Krukowski (do duo Damon & Naomi). De Chan Marshall ela traz a inadequação do popstar, alguém que está no palco não por ser melhor que quem está na plateia, mas por uma necessidade artística, que, muitas vezes, não sabe lidar com elogios, e arrefece timidamente. De Damon vem o alivio cômico entre as canções, tiradas que mostram bom humor e fazem o público rir antes de mergulhar na profunda melancolia das canções.

Esse joguinho (deliciosamente divertido) será compartilhado por artista e público durante toda a noite com cumplicidade. Em certo momento, um rapaz grita pausadamente: “’Are We There’ foi o melhor disco do ano passado!”. Sharon devolve: “Como assim? E o disco do Bon Jovi?”. O público ri, e alguém balbucia: “Bon who?”. E ela completa: “Bon who? Adorei”. Seguem-se “Save Yourself”, “Give Out” e “Tarifa”, repetindo o set que ela vem executando toda noite.

No meio da apresentação, ela não se aguenta: “Por que vocês estão aqui sofrendo no Dia dos Namorados? Vocês pagaram por isso!”. O público ri e aplaude “Break Me”, que preenche o ambiente com elegância trazendo consigo as novas “Tell Me” e “I Don’t Want to Let You Down” (presentes no EP recém-lançado), gravadas nas sessões de “Are We There”, mas que ficaram de fora do disco por serem muito “felizes” (apesar da mãe da cantora querer a última no disco).

Sozinha no palco, ela interpreta “I Wish I Knew”, voz e guitarra, e a canção ganha mais força. A banda retorna e se solta no trecho final da noite improvisando o início das canções enquanto Sharon tenta encontrar (nervosamente) a afinação correta da guitarra, sendo (mais de uma vez) traída pelo capotraste. Seguem-se a inédita “All Over Again” (tocada pela primeira vez em fevereiro), a poderosa “Your Love Is Killing Me” (uma das melhores faixas de “Are We There” também é uma das melhores do show) e “Serpents”, que encerra a primeira parte da noite.

Ela volta para o bis e parte para o piano, pesca notas desajeitadas, erra e brinca: “Eu não sou uma pianista”. Como presente para a data especial, toca uma pungente versão de “I Love You But I’m Lost” (ausente do set list oficial) no melhor momento da noite. Antes da última música, avisa: “Sintam-se a vontade para cantar comigo”. E surge “Every Time The Sun Comes Up”, inferior a versão do álbum, mas ainda assim bonita, com a pianista e backing Heather Broderick ao seu lado, amparando-a (ela é um porto seguro para Sharon durante todo o show).

Com o público nas mãos, Sharon Van Etten entregou aos paulistanos uma apresentação comovente, desajeitada e sincera, sintomas de uma artista que tenta soar verdadeira no palco – e consegue. Ela dribla a timidez, arranca risos da audiência e, nos momentos certos, ainda leva alguns presentes às lágrimas. Em certo momento da noite, diante do clima aconchegante do público no Cine Joia, confessa animadamente: “Esse é o melhor Dia dos Namorados ever!”. Difícil discordar (ainda que tenha sido também um dos belamente mais melancólicos).

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é fotógrafa e arquiteta. Veja galeria de fotos do show aqui

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