Três perguntas: Jonathan Tadeu

por Bruno Lisboa

Jonathan Tadeu é mais um membro do prolífico coletivo Geração Perdida de Minas Gerais. Com carreira iniciada em 2009, Jonathan foi líder da Quase Coadjuvante, uma banda que, literalmente, fez muito barulho na cena indie brasileira. Após três EPs, a banda encerrou as atividades ano passado, época em que o compositor já produzia o seu primeiro solo, o recém-lançado “Casa Vazia” (2015).

Disponível no Bandcamp (http://jonathantadeu.bandcamp.com) tanto para audição quanto download, “Casa Vazia” traz Vitor Brauer (Lupe de Lupe) na produção e aposta num olhar lírico e agridoce para com o cotidiano, embebido em guitarras estridentes e melódicas. Jonathan gravou todas as vozes, guitarras e baixos, e ainda sampleou áudios da internet e gravou duas canções diretamente no celular, em um único take – Vitor assumiu as baquetas nas faixas “Whitney Houston” e “Estorvo”.

Em entrevista concedida por e-mail, Jonathan fala sobre a experiência de gravar solitário (“Eu queria gravar as músicas exatamente do jeito que vieram para que soassem mais íntimas ainda”), sua carreira como videomaker e os desejos futuros do movimento Geração Perdida: “Continuar criando da maneira mais livre possível. A gente nunca vai parar de arriscar”, afirma. Com você, Jonathan Tadeu.

De que maneira “Casa Vazia” difere do seu trabalho na Quase Coadjuvante?
Quando terminei de compor as três primeiras músicas do disco já estava bem claro de que seria uma experiência solitária. O último disco da Quase Coadjuvante foi lançado em dezembro (de 2014) e na metade de janeiro o “Casa Vazia” já estava pronto. Foi um processo muito rápido. As músicas surgiram de uma vez só, num momento em que eu precisava muito cantar sobre esses temas. Uma necessidade quase física mesmo. Na Quase, eu compunha o esqueleto da música e mandava uma demo para a banda ouvir, e aí a gente criava o resto coletivamente. No “Casa Vazia” eu queria gravar as músicas exatamente do jeito que vieram, para que soassem mais íntimas ainda, como se quem ouve estivesse presenciando as gravações que faço no meu quarto. As músicas “Estômago” e “Martini” são um exemplo disso. Elas só foram gravadas uma única vez. A versão do disco é exatamente a que eu gravei no celular pela primeira vez. Quando fui para Valadares gravar com o Vítor, a gente já sabia que seria impossível repetir a descarga emocional dessas versões.

Você é figura fácil em eventos independentes por BH, sempre tendo a câmera como companhia. De que maneira este olhar paralelo colabora para com o seu trabalho?
Ah, cara, é uma experiência e tanto. Acho que eu tô nessa desde 2008/2009. Sinto que fui crescendo junto com as bandas da cidade. Fiz amizades incríveis e com muita insistência consegui encontrar o meu espaço dentro da cidade. Sempre tive uma relação meio arredia com BH. Sempre presente, mas sempre desconfiado demais do que a cidade realmente poderia me dar de volta. Hoje as coisas estão mais leves, acho que tanto eu quanto a Geração Perdida conseguimos conquistar a nossa fatia do bolo.

Atualmente, bandas como a Lupe de Lupe tem alcançado gradualmente um público fiel e parte da crítica. Quando o movimento fora criado quais eram seus objetivos e que mais vocês esperam alcançar?
Não sei se posso responder isso pelo coletivo inteiro, acho que cada um de nós tem uma visão um tanto diferente sobre isso. Mas acho que o coletivo passou a existir principalmente por que todos nos compartilhávamos uma sensação meio amarga de não pertencimento. Não nos reconhecíamos em praticamente nenhum grupinho alternativo da época. Tem algumas lembranças que me soam bem absurdas hoje em dia. O povo era muito conservador. A Quase e a Lupe se destacavam negativamente/positivamente pelo simples fato das guitarras serem mais altas, ou de alguém desafinar. Eu ficava puto toda vez que ia num festival dito alternativo e ouvia do público ou de alguém da produção que a Lupe de Lupe era ruim por que as vozes eram desafinadas. Pra mim não fazia o menor sentido esse argumento. Era um ambiente alternativo com regras do programa do Raul Gil. Amador era a palavra mais comum. Os meus primeiros videoclipes, as primeiras gravações da Lupe, eram tudo jogado nesse cesto. O coletivo serviu para criar uma separação mesmo. Mostrar que a gente estava indo na contramão, enquanto os outros se “profissionalizavam”. É muito gratificante pra gente ter a Lupe fechando uma turnê nacional depois de tudo isso, sabe. Tem que acreditar, tem que insistir. E as pretensões continuam as mesmas: continuar criando da maneira mais livre possível. A gente nunca vai parar de arriscar.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

Leia também:
– Lupe de Lupe: “Remar contra a maré faz parte da nossa natureza arredia”  (aqui)

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