Coluna: Rock independente argentino

por Marcelo Costa

Se nomes respeitados e de sucesso do rock argentino (Soda Stereo, Charly Garcia, Fito Páez, Luis Alberto Spinetta, Babasonicos, a lista é longa) nunca conseguiram emplacar uma carreira marcante no Brasil, o que dizer do cenário underground, que produz material de qualidade, ainda que muitas vezes invisível para o grande público – que se não enxerga nem o underground de seu próprio jardim, quiça o dos vizinhos.

Não deixa de ser curioso que o público brasileiro use como desculpa uma pretensa dificuldade de entender a língua espanhola sendo que músicas cantadas em inglês ecoam em FMs tupiniquins, e artistas como Ed Sheeran, Katy Perry e Pearl Jam promovam shows concorridos para fãs fiéis e desesperados, como se a língua inglesa fosse “mais fácil” e “mais comum” para o nosso povo. Alguma coisa não se encaixa nessa história, mas sigamos em frente.

O selo Scatter Records existe desde 2003 em Buenos Aires e vem construindo um trabalho admirável que pode ser explicado em uma frase carta de intenções: “editamos música que nos gusta escuchar”. Em 12 anos, o selo já lançou mais de 60 discos num mapeamento imperdível não só do underground argentino, com direito a ecos brasileiros (discos de Autoramas, MQN, Macaco Bong, Black Drawing Chalks e Superguidis já foram lançados pela Scatter).

A melhor maneira de conhecer o catálogo da Scatter Records é baixar gratuitamente as duas coletâneas liberadas gratuitamente pelo selo no Bandcamp: “Scatter Gold Records – Vol.1” foi lançada em janeiro de 2014 e “Scatter Gold Records – Vol.2” foi liberada em abril deste ano. As duas coletâneas reúnem 37 faixas e é absolutamente impossível um ouvinte não se apaixonar por alguma música (uma que seja!) contida nos álbuns.

No primeiro disco, quem faz as honras de abertura são os The DT’s, uma banda de hard & soul de Seattle, nos Estados Unidos, que teve seus discos lançados na Argentina pela Scatter. Na sequencia, normA, ótimo quarteto de La Plata que se define como “rock expressionista”, surge com a quente “Freezer” enquanto Valle de Muñecas, de Buenos Aires, marca presença com “La Soledad No Es Una Herida”, uma canção de refrão para gritar alto.

Ainda há espaço para o pop psicodélico dos Thes Siniestros (“Colina” é uma faixa meio folk, meio caipira, com bateria rockabilly), para o cabaré libertário do septeto El Violinista del Amor y Los Pibes que Miraban e para o suingue catalão do The Pepper Pots (é dar o play em “Wanna Blindy Trust In You” e sair dançando pela sala). A surf music marca presença com o The Vulcanos (na versão instrumental “Sheena is a Surf Rocke”) enquanto o rockabily (com toques soul) é representado pelos The Broken Toys (“El Demonio Esta Dentro de Mi”).

Duas bandas merecem destaque especial: Satan Dealers com “Nada Tiene Por Que”, faixa que abre o álbum “El Ardor de los Perfumes Prohibidos” (2007) e mostra a força deste quinteto que se inspira em MC5 e Stooges; e “Mi Próximo Movimiento”, um dos hinos do El Mató a Um Policia Motorizado, talvez o grupo independente argentino mais conhecido (e amado) deste lado de cá da fronteira.

O recém-lançado volume dois da coletânea “Scatter Gold Records” mantém o alto nível do primeiro volume seja na grudenta “Sigo Sigo”, do quarteto Pelea de Gallos, no power pop contagiante do Bôas Teitas (presente com a faixa “Desmoronar”), o punk rock anos 50 caipira delicioso do Los Barreiros (“El Camino de la Dicha”) fechando com o ‘britpop de subúrbio’ do Crema del Cielo (“Um Exito”), outra banda de La Plata.

“Scatter Gold Records – Vol.1” e “Scatter Gold Records – Vol.2” podem ser ouvidos online ou baixados de forma gratuita em scatterrecords.bandcamp.com/. Talvez seja o primeiro passo para se descobrir uma porção de bandas bacanas no jardim do vizinho. Bora se arriscar?

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