Boteco: Três cervejas da Stift Engelszell

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por Marcelo Costa

Fundada em 1293, a Stift Engelszell (Abadia Engelszell) é o único mosteiro trapista localizado na Áustria, mais propriamente em Engelhartszell, na parte superior do Rio Danúbio (a quase 3 horas de Viena e a 2 horas e meia de Munique). Foi o 8º monastério do mundo a receber o selo de “Autêntico Produto Trapista” para produção de suas cervejas – agora já são 12: Achel, Chimay, La Trappe, Orval, Rochefort, Westmalle, Westvleteren, Engelszell, Spencer, Zundert, Mont de Cats e Tre Fontane – e de 2012 para cá lançou uma receita por ano (todas com nomes de abades que foram importantes para o mosteiro): Gregorius, a primeira, é uma Belgian Dark Strong Ale que recebe adição de mel e utiliza levedura de vinho da Alsácia; Benno (2013), a segunda, é uma Belgian Pale Ale que destaca o uso do lúpulo Strissel Spalter, da Alsácia; mais recente cerveja dos monges, a Nivard é uma Belgian Ale de intensa percepção frutada. Falo sobre as três abaixo.

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De trás para frente na linhagem do monastério, a Stift Engelszell Nivard foi a terceira cerveja austríaca a receber o selo de autêntico produto trapista, e chegou ao mercado em 2014. Uma Belgian Ale de coloração âmbar amarelada com creme levemente bege de boa formação e eterna permanência (com direito a rendas nas laterais da taça), a Stift Engelszell Nivard exibe um aroma de intensa percepção frutada (laranja, pera, banana e maçã) e condimentação assertiva. Há ainda sugestão de frutas cristalizadas e notas derivadas da levedura que trazem algo de witbier e cidra. Na boca, a textura é levemente frisante. O primeiro toque traz doçura frutada com leve efervescência que sugere tangerina. O amargor é cítrico e suave abrindo o caminho para um conjunto que mais parece um delicioso… bolo de frutas: há trigo, frutado apaixonante (tangerina, maçã e abacaxi), condimentação e leve acidez. O final é cítrico e seco enquanto o retrogosto traz mais cítrico, leve adstringência e vontade de beber outra e outra e outra…

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A Stift Engelszell Benno foi a segunda cerveja do monastério a receber o selo trapista (em 2013), uma Belgian Pale Ale cuja receita destaca o lúpulo Strissel Spalter, da Alsácia. De coloração âmbar caramelada com bastante turbidez, creme bege de ótima formação e média alta permanência, a Benno apresenta um aroma com bastante doçura caramelada, presença de especiarias (derivadas da levedura) e interessantes notas frutadas (tanto ameixa quanto laranja). Na boca, a textura é picante. Ao contrário da grande maioria das trapistas, a Benno não apresenta doçura no primeiro toque, mas amargor cítrico que acrescenta peso ao amargor subsequente, deixando rastros de acidez pelo caminho. No conjunto, uma provocante junção do lado caramelado do malte (que tanto traz mel quanto ameixa) com o cítrico da lupulagem (laranja e tangerina) rendendo uma trapista diferenciada. O final é seco com leve adstringência. No retrogosto, maltado e cítrico mais leve acidez. Bem interessante.

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Primeira cerveja lançada pela Stift Engelszell em 2012, a Gregorius é uma Belgian Dark Strong Ale que recebe utiliza mel orgânico da região do mosteiro e levedura de vinho da Alsácia. De coloração marrom avermelhada com creme bege de ótima formação e permanência, a Gregorius exibe um aroma que une uma forte tendência frutada (ameixa, aroma, framboesa, nozes e maçã) com doçura caramelada que remete a chocolate a baunilha. A levedura de vinho acrescenta uma interessante sugestão de Sangria no conjunto. Na boca, a textura é melada, quase licorosa. O primeiro toque traz suave doçura frutada e caramelada logo coberta por acidez frutada e amargor alcoólico comportado abrindo as portas para um conjunto muito caprichado, com destaque para o frutado (ameixa, amora e maçã) e a sugestão de vinho, que funciona de modo perfeito. O final é suavemente ácido, remetendo a maçã e vinho. No retrogosto, caramelo, baunilha, frutado e leve álcool. Perfeita.

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Balanço
A Nivard, lançamento mais recente da Stift Engelszell, é uma Belgian Pale Ale arisca e frutada, com muita ação da levedura tornando-a mais agressiva e cativante do que uma Pale Ale tradicional. Há, inclusive, percepção de witbier tanto quanto das cidras bretãs francesas (acidez em destaque). Gostei muito! A Benno me surpreendeu pela alta carga de lúpulo, que acrescenta cítrico onde antes só havia caramelo, mel e frutas escuras. Bem gostosa mesmo. Fechando o trio, a Gregorius é um compota de frutas alcoólica, e é simplesmente deliciosa. O álcool está muito bem inserido em um conjunto harmonioso, cujo destaque é a levedura de vinho, que acrescenta uma percepção de Sangria ao conjunto que é maravilhosa.

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Stift Engelszell Nivard
– Produto: Belgian Ale
– Nacionalidade: Áustria
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,93/5

Stift Engelszell Benno
– Produto: Belgian Pale Ale
– Nacionalidade: Áustria
– Graduação alcoólica: 6,8%
– Nota: 3,85/5

Stift Engelszell Gregorius
– Estilo: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Áustria
– Graduação alcoólica: 9,7%
– Nota: 4,11/5

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