Boteco: de Poços de Caldas, cinco Monjas

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por Marcelo Costa

Em março de 2014, um casal querido de amigos se casou em Poços de Caldas. Quando cheguei à cidade, descobri que havia um cervejeiro caseiro elogiado batalhando pelo bordão “beba menos, beba melhor”. Mandei um email, não conseguimos nos falar, mas uns 10 meses depois ele me mandou cinco garrafas da cerveja artesanal Monja (http://cervejamonja.com), que me impressionaram por manter uma característica bem próxima sem fugir do estilo proposto. “Costumo dizer que o cervejeiro caseiro deve sempre deixar sua assinatura nas cervejas que faz”, explica Ronan Carvalho, por email. “E, por mais que faça diferentes estilos (mais de 30 estilos feitos, graças à flexibilidade permitida ao cervejeiro caseiro artesanal), sempre deixo determinada característica em todas elas que, para os que tomam as Monjas, sabem de sua origem mesmo em testes cegos. A assinatura vem de forma natural, da mão do cervejeiro, não há como fugir”.

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Ronan adentrou o universo das cervejas diferentes em setembro de 2009, presenteado por uma amiga, Emília. “Foram uma Dubbel e uma Quadrupel da La Trappe e, logo a seguir, algumas da canadense Unibroue, em especial a Maudite, a Trois Pistoles e a Unibroue 15. Fiquei alucinado com tais cervejas e pensei comigo: Se isso existe, preciso pensar em como fazer algo ao menos parecido”. A paixão pelas cervejas foi tão forte que três meses depois ele já estava produzindo suas próprias cervejas. “Como primeiro cervejeiro caseiro de Poços de Caldas, fiz as duas primeira levas de 35 litros (de tão horríveis, foram ao ralo da pia) e depois mais de duas centenas de levas vindas de muitos e muitos estudos individuais sobre tudo relacionado ao tema cervejeiro. Lotes agora de 80 litros e tudo de forma bem artesanal, de fundo de garagem”, ele conta.

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Seis anos depois, Ronan Carvalho segue produzindo grandes receitas da Monja e organizando a Confraria Cervejeira de Poços de Caldas, que, no dia 22/05/2015, chega a sua 16ª edição, com uma média de 80 participantes. “Eles se reúnem em diferentes locais para degustar e avaliar de sete a oito cervejas artesanais por encontro. Também, desde janeiro passado, temos o Clube do Cervejeiro Caseiro, quando, a cada três semanas, reunimo-nos para troca de conhecimentos e experiências técnicas de processos cervejeiros objetivando termos uma cerveja de padrão COQ – Caseira de Ótima Qualidade”, ele explica. Para Ronan, as cervejas Monja “são cervejas artesanais em que o gosto do cervejeiro é levado às suas produções, não se atendo às específicas peculiaridades dos estilos, geralmente extremas, de alto teor alcoólico, encorpadas”. Abaixo, as cinco Monjas que experimentei.

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A primeira das cervejas Monja que abri foi a Ana Dubbel 27, uma Belgian Dubbel de coloração âmbar caramelada e creme bege de ótima formação e média alta permanência. No nariz, bastante doçura (baunilha e caramelo), leve frutado (banana caramelizada), moderada picância e elegante sugestão de álcool, próxima de conhaque, mas sem ser agressiva (são 7%). Na boca, a textura é sedosa e picante aquecendo a língua com o álcool. O primeiro toque traz rápida doçura frutada (banana caramelizada), logo depois encoberta por álcool e acidez (a segunda não tão comum no estilo) remetendo novamente a conhaque, mas deixando pelo caminho traços de baunilha, caramelo, ameixa e banana, que compõe um conjunto bastante agradável. O final é caramelado, frutado e alcoólico. No retrogosto, caramelo, álcool e rubor na face. Uma ótima Dubbel caseira!

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A Monja Captain Blood é uma Weizenbock de 8% de graduação alcoólica (seguindo o padrão da nacional Eisenbahn Weizenbock e da alemã Erdinger Pikantus). De coloração âmbar escura (próxima do amarronzado) e creme bege de boa formação e permanência, a Captain Blood apresenta um aroma frutado (banana caramelizada, castanhas e ameixa) e adocicado (caramelo, mel e baunilha) além de leve sugestão de própolis (puxando para o herbal). Na boca, a textura é melada e deliciosamente sedosa. No primeiro toque, há uma robusta doçura frutada (ameixa e banana caramelizada) se sobrepondo ao álcool, que está muito bem inserido num conjunto encorpado que se baseia em frutado (ameixa e banana), doçura (chocolate e caramelo) e algo de própolis. O final é frutado e caramelado enquanto o retrogosto se apoia em caramelo, banana e chocolate, com leve toque de própolis. Gostei mais.

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A terceira é a Monja Gab Bad Boy, uma English Barley Wine de 9.2% de graduação alcoólica. De coloração âmbar bastante escura com creme bege de boa formação e permanência, a Gab Bad Boy apresenta um aroma que exibe bastante doçura caramelada (com sugestão, ainda, de baunilha e chocolate), frutas escuras (ameixas e nozes) e leve percepção de álcool, que aumenta conforme a cerveja aquece na taça. Há algo láctico (o que faz sugerir que talvez exista aveia na receita) e uma leve e benvinda sugestão de Jerez, típica do estilo. Na boca, a textura é um mix das duas anteriores: há um toque sedoso (quase licoroso) e calor picante de álcool, que, muito bem inserido, não aparece tanto nem no aroma, nem no paladar, que se inicia com doçura bastante frutada (caramelo e ameixa) e finaliza suavemente alcoólico, caramelado e frutado. No retrogosto, ameixa (bastante), caramelo e leve álcool. Muito boa!

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A próxima é a Monja Hell’s Old Rotten Gate, uma Baltic Porter, estilo que surgiu da recriação do estilo britânico Porter pelos países bálticos (Letónia, Finlândia, Estónia, Lituânia, Polónia e Rússia) no século 18. A rigor, assim como a Russian Imperial Stout, é uma versão mais robusta e alcoólica das cervejas britânicas. De coloração preta intensa e creme bege de boa formação e média alta permanência (a melhor até agora!), a Monja Hell’s Old Rotten Gate apresenta um aroma cativante, com bastante doçura achocolatada (mais caramelo), sugestão de frutas escuras (ameixa) e aveia além de café (e nada dos 9.5% de álcool, muito bem inseridos). Na boca, textura sedosa e picante. O primeiro toque, excelente, junta café, ameixa, leve toque achocolatado e suave percepção de álcool, num conjunto bastante equilibrado e agradável. O final traz chocolate, café, ameixa e aveia. No retrogosto, leve cappuccino mais frutado. A preferida!

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Fechando o quinteto com a Monja Causa Mortis, uma Strong Scoth Ale de 9.5% praticamente imperceptíveis. De coloração âmbar amarronzada com creme bege de baixa formação e rápida dispersão (típico do estilo), a Monja Causa Mortis apresenta um aroma bastante caramelado, com doçura aparente (açúcar mascavo), toffee e também leve toque frutado (ameixa e uva passa). Na boca, textura sedosa, e basta segurar o líquido sobre a língua para sentir a pancada de álcool, muito bem inserida no conjunto (a tal ponto de passar imperceptível no aroma e no paladar). O primeiro toque traz doçura caramelada para, na sequencia, se abrir em sugestão frutada com suave percepção de álcool (sensação que aumenta conforme a cerveja aquece) e uma leve sugestão de torra, que também pode ser defumado (algo bem-vindo no estilo). O final é caramelado e frutado. No retrogosto, caramelo, ameixa e leve defumado picante. Surpreende.

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Balanço
Na conversa por email, o mestre cervejeiro Ronan contou que prefere “os estilos extremos, de alto teor, encorpados, licorosos, maltados, mais voltados à escola belga e britânica e alguns da alemã, que são os que mais produzo”. Comecei pela Ana Dubbel 27, uma bela Dubbel que parece ter mais álcool do que os 7% que o rótulo avisa. O perfil aromático é bem interessante (doçura, frutado e um elegante toque de álcool) enquanto o paladar soa um pouco mais agressivo, mas ainda bem saboroso. A Monja Captain Blood, por sua vez, traz impressões próximas da Ana Dubbel 27, mas sem o condimentado arisco proposto pela levedura belga. Em comparação com a benchmarking do estilo, Erdinger Pikantus, falta um pouco de picante, mas o conjunto, saboroso, se garante por si só, com bastante doçura e frutado (e 8% de álcool imperceptíveis) numa excelente recriação. Terceira da fila, a Monja Gab Bad Boy é uma English Barley Wine que cresce bastante na taça. No começo, a minha sensação foi de que faltava profundidade ao conjunto, mas no decorrer do esvaziar da garrafa, o perfil evoluiu bastante, afinal é uma cerveja que se aprofunda conforme a cerveja aquece. A Monja Hell’s Old Rotten Gate impressionou desde o começo: da excelente formação de creme passando pela ótima distribuição aromática ao paladar equilibrado, esta Monja é um grande acerto, em todos os quesitos. Fechando o quinteto da casa, a Causa Mortis é uma Strong Scoth Ale marota, que chega de forma suave e vai liberando aromas e sabores excelentes conforme a garrafa alcança o tempo correto de serviço. A sensação pessoal é de que essas cinco cervejas são bastante próximas, e um bebedor incauto poderia até confundi-las, mas o destaque mora nos detalhes, e é lá que Ronan surpreende, executando muito bem suas receitas, sem o exagero que muitas vezes demarca cada estilo. Outro detalhe importante é que suas cervejas se abrem como uma flor quando servidas acima da temperatura tradicional de serviço: no começo, ainda resfriadas, elas soam muito próximas, parecidas, mas conforme se aquecem e se aproximam da temperatura ideal, tomam o rumo adequado do estilo e se transformam em ótimas cervejas. Que venham mais!

Monja Ana Dubbel 27
– Estilo: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,13/5

Monja Captain Blood
– Estilo: Weizenbock
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,21/5

Monja Gab Bad Boy
– Estilo: English Barley Wine
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9,2%
– Nota: 3,17/5

Monja Hell’s Old Rotten Gate
– Estilo: Baltic Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 3,30/5

Monja Causa Mortis
– Estilo: Strong Scoth Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 3,26/5

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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