Um livro sobre Daydream Nation

por Bruno Lisboa

Desde 2003 a editora britânica Bloomsburry, sob a coordenação de David Barker e edição por Ally Jane Grossan, compila a série “33 1/3” (título em ode às rotações de um disco de vinil). O mote central desta coleção é trazer à tona uma série livros que analisam minuciosamente discos históricos da música mundial, sob os mais variados gêneros. Com 103 edições no currículo, a série chegou finalmente ao Brasil em 2014 com o nome “O Livro do Disco”, via editora Cobogó, e o enorme atraso não diminui a relevância da série.

Na primeira leva de lançamentos estão livros sobre os revolucionários “Endtroducing”, de DJ Shadow, em análise do norte-americano Eliot Wilder; e “The Velvet Underground and Nico”, do Velvet Undergroung, com texto assinado pelo músico e produtor Joe Harvard; ao lado de dois exemplares nacionais: “Estudando o Samba”, de Tom Zé, esmiuçado pelo professor de filosofia, músico e crítico Bernardo Oliveira, e “A Tábua de Esmeraldas”, de Jorge Ben, analisado por Paulo da Costa e Silva.

O quinto livro da série foca “Daydream Nation” (192 páginas, R$ 32), quinto álbum de estúdio da banda norte-americana Sonic Youth, lançado em 1988, em texto assinado pelo escritor e critico musical Matthew Stearns, colaborador da revista Resonance, e traduzido por Julia Sobral Campos. “Daydream Nation” na versão livro é uma imersão profunda nas referências do icônico disco dos nova-iorquinos, que, prensado como vinil duplo na época do lançamento, representou o ápice criativo da banda.

Composto por 12 faixas na versão original (a última, “Trilogy”, dividida em três partes) e com um CD bônus acrescido na edição comemorativa de 20 anos (com 15 faixas ao vivo da turnê de 1988/1989 mais covers de Beatles, Mudhoney, Captain Beefheart e Neil Young), “Daydream Nation” conseguiu equacionar e dialogar com todo um caldeirão de influências do quinteto chocando a efervescente cena indie que proliferava pelo EUA (vale ler “Our Band Could Be Your Life”, de Michael Azerrad) com arte contemporânea e a velha guarda musical.

Partindo da premissa de como era Nova York naquele período (uma cidade que vivia os tempos violentos e rechaçados da era Reagan e do final do terceiro mandato do prefeito Ed Koch, marcado por problemas de corrupção em alguns departamentos da prefeitura, epidemia de crack e um aumento da criminalidade e da violência racial), Matthew Stearns analisa como a cidade teve também papel direto para a construção do panorama conceitual adotado no álbum.

Matthew Stearns transita entre a linguagem técnica e a literária num texto, marcado pela fluidez, que transborda pessoalidade num olhar apaixonado, obcecado e aprofundado para cada detalhe do disco, oscilando entre observar minuciosamente cada uma das 12 canções e pela concepção da arte do álbum, que toma para si duas obras do pintor alemão Gerhard Richter: “Kerze” (1982) na contra-capa e um detalhe de “Kerze” (1983) na capa central (acima a comparação da obra com a capa do álbum).

Completando as observações perpetuadas pelo autor surgem entrevistas concedidas pelo guitarrista Lee Ranaldo, pela baixista Kim Gordon e pelo produtor do disco, Nick Sansano, num compendio de informações que enriquecem a leitura do álbum ao mesmo tempo em que mostram como foi complicado o processo de gravação de “Daydream Nation”, que acabou por ser lançado pelo selo independente Enigma em associação com a Blast First Records.

Para Matthew Stearns, “Daydream Nation” compõe a santíssima trindade dos álbuns duplos do rock independente dos anos 80 ao lado do emocionalmente caótico “Zen Arcade” (1984), do Hüsker Du e das 46 faixas (nenhuma acima dos três minutos!) de “Double Nickels On The Dime” (1984), do Minutemen, ambos lançados pela SST Records. “Estes três álbuns marcam um período de expansão criativa sem precedentes em termos de possibilidades do cenário underground norte-americano”, avalia Stearns num bom livro sobre art rock.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

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