Boteco: cinco cervejas da Mendocino

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por Marcelo Costa

A Mendocino Brewing Company é uma cervejaria fundada em 1983, ainda como Hopland Brewery, na cidade de Hopland, em Mendocino County, Califórnia. Inaugurada em 14 de agosto, a Hopland Brewery foi o primeiro brewpub californiano e o segundo da América no começo da revolução cervejeira norte-americana, e sua marca é exatamente propor uma releitura moderna da escola europeia (com foco no Reino Unido), mas sem os exageros que marcariam e transformariam a escola norte-americana na década seguinte. Ou seja, as cervejas da Mendocino Brewery ficam no meio do caminho entre a escola britânica tradicional e exagerada escola moderna norte-americana, e suas cervejas funcionam muito bem como um degrau para jovens bebedores (lembrando, em alguns momentos, as cervejas da Shipyard).

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Abrindo o quinteto com a Mendocino Blue Heron Pale Ale, uma tradicional American Pale Ale cuja receita une o malte 2-Row Pale com os lúpulos Cluster (amargor) e Cascade (aroma). De coloração âmbar alaranjada com creme branco (com toques alaranjados) de boa formação e permanência, a Blue Heron apresenta um aroma mais britânico que norte-americano, com malte sobrepondo cereais sobre a presença floral derivada da lupulagem. Há ainda leve cítrico e caramelo. Na boca, o jogo inverte: há mais EUA do que Reino Unido. O amargor é caprichado e de média duração. A base maltada se faz presente com caramelo e cereais. Há um suave traço de resina seguido de sugestão herbal. O final é amarguinho, herbal e caramelado. No retrogosto, um tiquinho de amargor, mais herbal e um leve traço de caramelo. Simplezinha.

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O caráter simples da Blue Heron Pale Ale se estende a Red Tail Ale, uma American Amber Ale de coloração âmbar caramelada, creme levemente alaranjado de boa formação e média permanência. No nariz, muita presença de malte (novamente 2-Row Pale) sugerindo caramelo. A lupulagem acrescenta uma suave camada cítrica (maracujá) e herbal (boldo). Há, ainda, leve sugestão de resina e canela. Na boca, um replay da Blue Heron: o primeiro toque é de doçura caramelada, mas o amargor, potente, surge na sequencia chamando a atenção. É possível perceber sugestão herbal (boldo novamente), cítrica (maracujá) assim como resina e canela, tudo um pouco mais intenso que no aroma. O final é amarguinho, herbal e um pouco mais caramelado do que na Blue Heron. No retrogosto, caramelo, canela e amargor suave. Simplezinha, parte 2.

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A próxima da lista é uma tradicional Dry Stout que leva o nome de Mendocino Black Hawk e, vertida na taça, apresenta uma coloração preta com creme bege de ótima formação e longa permanência. No nariz, as adoráveis notas esperadas do estilo: aveia, café, chocolate (puxado suavemente para o amargo) e cappuccino. Na boca, reforço sutil do padrão da cervejaria californiana, com um tiquinho a mais de amargor, ainda que não a ponto de descaracterizar uma receita fiel ao estilo europeu, com bastante sugestão de aveia, café e chocolate além de um agradável toque láctico. O conjunto é bastante agradável e, ainda que fruto da revolução cervejeira dos EUA, nada revolucionário. Assim como as duas anteriores, é simples e eficiente fechando com café, aveia e chocolate, que retornam delicados no retrogosto. Gostei.

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A Mendocino White Hawk é a India Pale Ale desta família californiana cuja receita, unindo lúpulos ingleses (Fuggles) com norte-americanos (Cascade), antecipa certa queda europeia. De coloração âmbar caramelada com creme branco (com toques alaranjados) de boa formação e permanência, a White Hawk apresenta no aroma um equilibro entre lúpulo e malte, com notas derivadas de ambos bastante perceptíveis. Há doçura maltada (mel e caramelo), frutado cítrico (maracujá e laranja), mais leve toque herbal e resinoso. Na boca, como acontece em outras cervejas da casa, leve acentuação das percepções aromáticas, que surgem mais intensas. Ainda assim, o IPA aqui está longe de uma American IPA. Há amargor, mas não excessivo. O final é amarguinho, resinoso e maltado. No retrogosto, pêssego, herbal e amargo suave. Boa.

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Fechando o quinteto com a Mendocino Eye of The Hawk, uma American Strong Ale que une maltes Barley, Caramel e Pale com lúpulos Cluster, Cascade e Saaz alcançando 37 de IBU e 8% de graduação alcoólica. De coloração âmbar caramelada (com leve turbidez) e creme branco (com leve alaranjado) de boa formação e permanência, a Eye of The Hawk exibe um aroma bastante maltado, com percepção de doçura (caramelo, mel e açúcar mascavo), toffee, frutado (calda de pêssego), herbal (pinho) e leve cítrico. Na boca, a marca dos mendocinos, aumento de intensidade no conjunto, que potencializa a doçura antecipada no aroma (com caramelo e mel) e acrescenta amargor (comportado, mas bastante perceptível). O final é maltado, com leve percepção de álcool, e delicadamente amargo. No retrogosto, caramelo, álcool e cítrico. Boa.

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Balanço
Se alguém vender a Mendocino Blue Heron Pale Ale como IPA não estará errado. A carga de lúpulo na receita é boa, e se destaca no paladar (no aroma, o malte dá as cartas), mas o conjunto é simplesinho e perde na concorrência com Dogfish Head, Anchor e Sixpoint, para ficar em três grandes pequenas cervejarias norte-americanas. A Mendocino Red Tail Ale é uma releitura da versão Blue Heron Pale Ale com um pouquinho mais de malte, ou seja, doçura. Ainda assim, o amargor é envolvente. A terceira da lista é a Black Hawk: sabe os exageros da escola norte-americana? Esqueça. Bela dry-stout fiel à escola europeia, a Black Hawk não reinventa nada, mas soa uma agradável cerveja básica frente a tantos exageros. A White Hawk é a IPA da casa, e gosto dela exatamente por ela ser mais inglesa que norte-americana: ainda que o amargor aqui seja potente prum britânico, prum hophead é suave. Gosto desse meio do caminho, e os 7% de álcool estão muito bem inseridos numa IPA do meio do oceano. Fechando o quinteto, a Mendocino Eye of The Hawk junta doçura maltado com amargor herbal e cítrico numa receita potente, mas… simples. Ainda assim, agradável, exemplo de uma linha que pode ser um bom degrau para iniciantes.

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Mendocino Blue Heron Pale Ale
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6,2%
– Nota: 2,98/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 15 (330 ml)

Mendocino Red Tail Ale
– Produto: American Amber Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6,1%
– Nota: 3,01/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 15 (330 ml)

Mendocino Black Hawk
– Produto: Dry Stout
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,18/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 15 (330 ml)

Mendocino White Hawk
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,25/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 15 (330 ml)

Mendocino Eye of The Hawk
– Produto: American Strong Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,22/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 15 (330 ml)

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