Entrevista: Frank Turner

por Ana Clara Matta

Até mesmo na era da (quase) livre, (às vezes) rápida e (praticamente) desnorteante troca globalizada de informações, não é possível dizer que a música perdeu sua relação com as fronteiras geográficas. Frank Turner é uma prova viva dos atritos ainda existentes entre o local e o global. Turner foi um dos artistas convidados a se apresentar na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, perante um estádio de Wembley lotado, em um show que incluía Paul McCartney e Arctic Monkeys, foi transmitido mundialmente e alcançou países em que o artista se apresenta em clubes com capacidades para 200 sortudos. Mas esse não é o único contraste que chama a nossa atenção na figura do cantor e compositor britânico.

Frank Turner se formou na Eton College, na mesma turma do Príncipe William, e começou sua carreira musical em um gênero tradicionalmente ligado à classe trabalhadora do Reino Unido, o punk, com a banda Million Dead. Com o fim do grupo, Turner abandonou a guitarra elétrica pelo violão, e abraçou uma paleta diferente de influências na sua sonoridade, como o country, o folk e o heartland rock de Bruce Springsteen – acompanhado pelo quarteto The Sleeping Souls. Recentemente se tornou o alvo de ameaças de morte por ter se declarado como, politicamente, um liberal clássico para o jornal The Guardian.

Conversamos com Frank Turner em um momento frutífero de sua carreira. Seu novo single, “Get Better”, acaba de ser lançado oficialmente, e em algumas semanas o britânico pretende divulgar as informações sobre o seu novo álbum, sucessor do elogiado “Tape Deck Heart”, de 2012. Além disso, Frank está explorando um caminho inédito em sua trajetória – a literatura. Seu diário de turnê, “The Road Beneath My Feet”, chegou às livrarias inglesas neste mês de março. Saiba mais sobre Frank Turner, todos os seus dípticos, o local, o global, o folk, o punk, a esquerda, a direita, letra e música – nas suas próprias palavras.

Uma vez entrei em um debate com um amigo e colega de trabalho quando ele declarou que “o gênero folk-punk não existe, é contraditório”. Como um artista comumente identificado como parte desse gênero híbrido, o que você pensa da relação entre esses dois gêneros musicais? Você se considera folk-punk?
Antes de mais nada, acho que discussões sobre classificação de gênero são, em sua totalidade, uma perda de tempo titânica. Escute a música, goste ou não, siga com a sua vida. Em segundo plano, acho que a declaração de seu amigo é especialmente boba – The Pogues? The Levellers? Existe toda uma história da música que liga os dois gêneros, e esteve presente praticamente desde o primeiro dia do movimento punk. Talvez ele deveria ouvir mais. Não tenho certeza se eu faria qualquer coisa tão brutal como tentar definir o meu gênero, mas eu cresci com o punk e eu estou interessado tanto na musicalidade quanto na filosofia (como ela é) da música folk.

Em uma entrevista para a MTV, você disse que após o lançamento de “Tape Deck Heart” era um alívio “não ter que falar mais sobre corações partidos e fracassos pessoais e desastres”. Como que essa perspectiva se contrasta com o novo single e o novo álbum? “Get Better” é um diálogo direto com o último disco, um ponto final em uma frase escrita anteriormente?
Eu gosto de pensar que “Get Better” é uma canção por si própria. Tendo dito isso, eu escrevo autobiograficamente e cronologicamente, então existe uma precedência natural de um disco em relação ao próximo. O novo álbum trata de desafio, se levantar do chão após uma queda e seguir em frente. Em parte isso se refere à desilusão amorosa que inspirou o último disco, mas há mais nele do que apenas isso.

Existem várias canções escritas por você que lidam com temas como começos difíceis, shows vazios e bares, noites dormidas em vans e carpetes de estranhos. A sua dinâmica com essas canções e temas mudaram nessa nova fase de sua carreira, com shows em grandes arenas?
Minha dinâmica em relação às coisas que fiz e escrevi sobre nos meus 20 anos de idade mudou enquanto eu envelhecia, como acontece com todas as pessoas que realmente vivem a vida. Existem algumas canções sobre o lado cru das turnês que soam um pouco estranhas em grandes espaços para shows, mas sei como cheguei até lá então acho que ainda há uma milhagem para tocá-las – eu as escrevi, afinal. E nós não tocamos em espaços enormes em todos os países que visitamos – longe disso. Passamos boa parte do nosso tempo tocando para 200 pessoas ainda em várias partes do mundo.

Até os 21 anos de idade você se identificava com a ideologia straight-edge, e com o passar do tempo, várias de suas composições lidaram com o tema de abuso de substâncias. Como tal mudança operou em sua vida, e o que te fez afrouxar os laços com aquela ideologia?
Eu fui sXe dos 16 anos 21 anos, na verdade. Eu consumia álcool e drogas antes disso, tive alguns anos de abstinência, e depois voltei novamente. Meus motivos são pessoais, na verdade. Eu diria que sou velho demais para assinar embaixo de uma ideologia tão rígida nos dias de hoje. A vida é, ainda bem, muito mais complexa do que isso.

Por um lado, é perceptível um conceito abstrato de “britanicidade” na sua música. Por outro lado, ela está em constante diálogo com a cultura norte-americana, o country, o som de Nashville e dos outlaws texanos. Como essas duas identidades se enfrentam no seu processo criativo?
Eu cresci ouvindo basicamente a música norte-americana – sempre preferi o punk dos EUA, por exemplo, e a Inglaterra, geralmente, é afogada em cultura da América, para o bem ou para o mal. Mas eu nunca quis me apresentar como algo diferente do que realmente sou. Então até certo ponto o que quero fazer é seguir as mesmas deixas culturais e artísticas de pessoas como, digamos, Gram Parsons e Springsteen, mas de uma perspectiva britânica.

Grande parte dos seus ídolos pessoais são grandes compositores, e você se considera, acima de tudo, um entertainer dos palcos. Um começo estranho para uma questão, eu sei. Mas com essas duas coisas em mente, como você vê seu relacionamento com o público em um país no qual você nunca se apresentou ao vivo e no qual há uma barreira linguística (um país como o Brasil, por exemplo)?
O motivo pelo qual destaco a parte “entertainer” do que faço é que gasto a maior parte do meu tempo trabalhando nos aspectos ao vivo do que eu faço. Não digo isso diminuindo as canções que escrevo, porém – eu trabalho duro nelas e tendo fazê-las tão boas quanto meus talentos limitados permitem. O fato de que existe qualquer pessoa em partes do mundo que não visitei ouvindo as minhas canções é um pouco embasbacante para mim, e me faz querer ir para aí em turnê assim que conseguir (e estou trabalhando nisso). Também preciso exercitar meu português.

Nesse novo álbum você está trabalhando pela primeira vez com o produtor versátil Butch Walker, que já produziu faixas de bandas indie até Keith Urban, de Taylor Swift até emocore. Como essa parceria foi concretizada e o que podemos esperar do som do novo álbum?
Trabalhar com Butch foi um sonho. Eu não estava ciente na verdade de que ele era um produtor, eu só era fã de suas composições e de seus álbuns. “The Spade”, seu penúltimo disco, em particular, pareceu estar exatamente na direção que eu queria seguir – cru, mas poderoso. Quando descobri que ele mesmo o produziu entrei em contato e nós nos encontramos, e basicamente de primeira já nos demos bem. Penso que o álbum tem o melhor som de todos que já fiz até então. Eu e a The Sleeping Souls ensaiamos as músicas em conjunto por muito tempo, e Butch conseguiu muito eficientemente capturar aquele som e aquela energia, para abrir caminho para que fôssemos tão bons quanto poderíamos ser.

A estrada está no centro de várias de suas músicas, como uma maneira de vida em “The Road”, como um espaço de ansiedade e fuga em “I Am Disappeared”. Também povoa a mitologia do trabalho de seus ídolos como Bruce Springsteen e Bob Dylan. E agora você lançou um livro sobre a vida na estrada. O que é A ESTRADA para você?
A Estrada é a vida vivida ao máximo, uma vida que não se contenta. É tudo que eu sempre quis.

– Ana Clara Matta (@_ana_c) é editora do Rock ‘n’ Beats e do Ovo de Fantasma

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