Entrevista: Anderson Foca, Camarones

por Marcelo Costa

Uma das bandas mais ativas do cenário independente brasileiro – em 2014 foram mais de 100 shows, marca que os colocou ao lado de Autoramas e Boogarins como os grupos brasileiros que mais circularam no ano – a Camarones Orquestra Guitarristica está lançando seu quinto disco, anuncia uma extensa turnê que irá passar pela Europa (incluindo festivais badalados como o Primavera Sound, em Barcelona) e desembarca em São Paulo no mês de abril com outras sete bandas potiguares para mostrar a força da cena local.

“Acho que essa vai ser a maior mostra de bandas do RN em SP em todos os tempos”, avalia Anderson Foca (teclado e guitarra) sobre o evento no Itaú Cultural que irá reunir, de 09 a 12 de abril na capital paulista, Dusouto, Camarones, Far From Alaska, Red Boots, Kataphero, Fukai, Talma&Gadelha e Maíra Salles, todos potiguares. “Temos MPB, eletrônico, pop, death metal, rock futurista, vai ter de tudo”, conta. Na Camarones, Foca é acompanhado por Ana Morena (baixo), Yves Fernandes (Bateria) e Fausto Alencar (guitarra).

Nesta conversa realizada por e-mail, Anderson Foca fala sobre o álbum “Rytmus Alucynantis” (que, assim como os anteriores da Camarones, está disponível gratuitamente no site www.camarones.com.br), download gratuito, turnê pela Europa e o bom momento da cena do Rio Grande do Norte. “Em três meses o Bop Hound toca no Texas num enorme festival rockabilly, o Far From Alaska toca no Lollapalloza Brasil e o Camarones no Primavera Sound. Não é coincidência”, garante o músico. Confira o bate-papo.

“Rytmus Alucynantis” é o quinto disco de vocês em oito anos de banda: como vocês o veem comparado aos primeiros trabalhos?
Disco reflete amadurecimento, nem que seja de ideias. Nesses anos todos em ação, e principalmente fazendo muitas tours, percebemos que as cosias acontecem pro Camarones no palco, ao vivo, cara-a-cara com o fã de música e aí pensamos que esse trabalho deveria soar e funcionar iminentemente para ser tocado ao vivo, para empurrar nossos shows. Acho que o grande lance desse trabalho foi nesse sentido. Eu amo nossa discografia, poucas músicas que gravamos eu não gravaria novamente. E também amo ser uma banda com discografia, tá raro no Brasil uma banda ter cinco álbuns para vender na sua banquinha. É motivo de orgulho.

Isso resvala num tema que me interessa bastante, que é o download gratuito: ainda em 2015 tem gente que acha que o download gratuito mais prejudica do que ajuda, que quem baixa o MP3 não vai comprar o CD e essas coisas. Vocês sempre liberaram seus discos para download. Ele continua vendendo na banquinha?
Vende muito na banquinha, nos shows. Aprendemos a baratear o disco para ele voltar a concorrer, por isso todos os nossos lançamentos são em envelopes. Acho que se somar todos os álbuns já deveremos ter vendido umas 8.000 cópias, o que para gente é bem legal. Com o número de oferta de música que se tem no mundo hoje, se você optar pela opção mesquinha de só vender a música em disco, soa até prepotente para uma banda nova. Quem já é conhecido ou estabelecido pode até ter outras escolhas, mas para quem é independente é matar o trabalho antes mesmo dele se tornar um.

Gostei muito do nome do disco e do conceito de “uma ode à alegria e à música dançante”: isso permite agregar diversas sonoridades. A radicalidade musical está com os dias contados?
A radicalidade em qualquer sentido está fadada a morrer, ou pelo menos temos o dever de combatê-la como agentes culturais. Hoje mesmo me peguei pensando nisso. O radical morre sozinho, radicais não gostam de ninguém. Acho que a maior contribuição da oferta de música da era pós anos 2.000 foi propiciar se ouvir tudo. Você ama rock, mas como você não paga para ouvir músicas como antes, pode ir buscar outros estilos e ir gostando de mais coisas. Eu sempre fui assim. 86/87 gostava de New Order, Titãs, Cólera, Slayer, Ramones, tudo ao mesmo tempo. Isso só se ampliou com o tempo.

O novo álbum conta com vários convidados estendendo algo que vocês já haviam sinalizado no “O Outro Lado”, que é um disco de vocês dividindo faixas com outras bandas. Como funciona essa troca de informações musicais para a banda?
A melhor coisa de ser uma banda instrumental é que você tem a liberdade extrema pra fazer o que bem entender, que ninguém vai cobrar nada por isso. A gente toca muito, tá sempre na estrada e a estrada foi nos dando amigos musicais a cada esquina. Naturalmente esses amigos musicais vêm parando nos nossos discos com frequência (nos últimos são protagonistas). Ninguém tá sozinho no mundo e muitas das minhas bandas preferidas fazem muito isso. Nos discos do Queens Of the Stone Age tem vários convidados, Foo Fighters também, só para dar exemplos. Amamos essa possibilidade e ela só existe porque o Camarones tá sempre em movimento.

Vocês estão partindo para uma nova turnê europeia, e cada vez mais artistas brasileiros estão se arriscando em turnês internacionais. Como rolou o planejamento dessa turnê e qual a expectativa de vocês para esses 20 dias em estradas do velho mundo?
Essa é a segunda vez que vamos à Europa e podemos sentir muitas diferenças de um ano pro outro. Por lá você tem realmente como crescer e aumentar a reputação da banda tocando, o que por aqui demora bem mais. Fizemos 15 shows no ano passado na Suíça, França, Espanha e Portugal e conhecemos muita gente. Passei quatro meses para conseguir esses 15 shows. Dessa vez, praticamente lotamos a nossa agenda com duas semanas de trabalho. Vão ser ao todo 50 dias na Europa. Nessa primeira leva iremos para Inglaterra, Espanha e Portugal. Além de rodar nos pubs, passaremos por festivais que a gente só sonhava em participar como o Liverpool Sound City e o Primavera Sound. Em setembro voltamos para datas na Alemanha, França, Áustria e Suíça, essa tour fechada pelo nosso selo alemão chamado Setalight. Tocaremos no festival deles e lançaremos nosso vinil que também está sendo rodado por lá (chega ao Brasil através da Assustado discos).

Como foi essa experiência de tocar na Europa? O fato de ser instrumental ajuda (evita a barreira da língua), mas como foi a recepção do público nestes 15 shows?
A primeira impressão que tive é que música independente é bem igual em qualquer canto. Pessoas apaixonadas que produzem, lugares de gente fã de música, essas cosias. Só que estruturalmente é bem avançado e lá você consegue tocar todo dia, o que no Brasil é complexo. Eu amei a experiência, adorei o que conseguimos fazer e vamos dobrar o número de datas pra 2015. Ser uma banda instrumental não sei te dizer se ajudou ou atrapalhou, mas o fato é que não tocamos com outras bandas instrumentais, só tocamos com bandas que tinham vocalistas e deu super certo. O público é mais frio do que no Brasil no geral, mas é bem mais atento e mais ligado, algumas pessoas até já nos conheciam.

A cena musical potiguar está vivendo um momento excelente, com cada vez mais bandas chamando a atenção fora do estado. Estando dentro dela, e trabalhando com muitas dessas bandas no Espaço Cultural Do Sol, como você analisa esse momento?
Acho que se trabalhou muito aqui para chegar nesse ponto de ser um local referência, não vou ficar lambendo a cria, mas o Dosol tem papel fundamental nisso porque se propôs a ancorar esse trabalho e ai com uma âncora todo mundo tem mais segurança em atuar no mesmo nicho e as coisas vão se multiplicando. Fico muito feliz de ver como temos dezenas de iniciativas, pequenos festivais, bandas ativas, discos saindo. Dá uma baita alegria. Em três meses o Bop Hound toca no Texas num enorme festival rockabilly, o Far From Alaska toca no Lollapalloza Brasil e o Camarones no Primavera Sound. Não é coincidência. Chegaremos de galera em São Paulo agora em abril numa das maiores mostras de bandas potiguares que já rolaram fora do estado. Vão ser oito grupos do RN por quatro dias seguidos no Teatro do Itaú Cultural na Av. Paulista. Já tá todo mundo de SP convidado para ver ao vivo o que a gente tem feito por aqui.

Quem vem para mostra em São Paulo? Qual a pegada de cada banda?
Essa mostra em SP é um sonho se realizando, tentamos há muito anos fazer ela a frente do Dosol. É o Dosol WarmUP, que é o começo das atividades do festival para 2015. Estarão ai de 09 a 12 de abril no Itaú Cultural, Dusouto, Camarones, Far From Alaska, Red Boots, Kataphero, Fukai, Talma&Gadelha e Maíra Salles, todos potiguares. É muito eclética a proposta, temos MPB, eletrônico, pop, death metal, rock futurista, vai ter de tudo. Acho que essa vai ser a maior mostra de bandas do RN em SP em todos os tempos. Muito orgulho e muito agradecimento pro Rumos Itaú Cultural por nos receberam aí.

Voltando para o assunto estrada, como estão os preparativos do Camarones para o Primavera Sound (que está com uma escalação brilhante).
Estamos eufóricos para nos apresentarmos lá, tocaremos em duas ou três datas dentro do festival. O mais legal é que chegaremos lá depois de ter feito uns 30 shows seguidos pelo Brasil e vamos estar bem entrosados no repertório do disco novo. Eu iria ao Primavera Sound de qualquer jeito, tocando então é um sonho. Vai ser demais!

Como você vê o cenário de festivais no Brasil hoje? Tivemos um boom de festivais independentes no meio da década passada, a coisa toda se esvaziou depois, mas parece que neste momento temos um número bom de festivais sedimentados em todos os cantos do país. O Dosol, por exemplo, parte para a sua 12ª Edição…
Nem acho que se esvaziou, aquele momento foi propício para aparecer novidades e foi muito proveitoso em todos os aspectos. Acho que houve uma relocação de espaços, alguns festivais conseguiram se solidificar e outros foram mudando, acabando ou se ajustando. Foi ótimo e continua muito renovador a cada aparecendo festivais com primeira ou segunda edição (mas isso já não é mais novidade como antes). Acho que o cenário continua muito forte e bastante intenso, se compararmos com outras cenas musicais de economias parecidas com a nossa veremos que nossa cena independente é bem sólida. Claro que podemos melhorar, mas sou otimista e acho que estamos no caminho certo.

E como estão os preparativos Festival DoSol 2015? A ideia é manter a excelente proposta de estender o festival para outras cidades além da capital Natal?
Já está tudo pronto na verdade, patrocinadores adiantados e negociados, pelo menos metade do lineup convidado e nesse momento estamos estudando um aumento do número de cidades não só do RN como do Nordeste. Vai ser bem bonito novamente e esperamos o Scream & Yell por aqui de novo!

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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