HQ: Olavo Rocha e a Cidade das Águas

por Bruno Capelas

Uma expedição para conhecer os rios subterrâneos de São Paulo parte da Catedral da Sé rumo a Santo Amaro. Pode ser um roteiro turístico para mochileiros alternativos, mas trata-se de “Cidade das Águas”, HQ escrita por Olavo Rocha (também vocalista e letrista dos Lestics) e desenhada por Guilherme Caldas. Lançada em janeiro de 2015, pela editora HQ Pólen, a graphic novel baseada numa peça de teatro (“Origem-Destino”, da Companhia Auto-Retrato) discute um dos temas mais presentes nas manchetes dos jornais neste ano que corre: água.

“O que a gente quis colocar em discussão no ‘Cidade das Águas’ foi a escolha de um modelo de desenvolvimento de São Paulo e a forma desastrosa como a cidade lida com seus recursos hídricos”, diz Rocha, em entrevista por e-mail ao Scream & Yell.

Sem redução de pressão e com personagens tipicamente paulistanos (o migrante, o mendigo da Praça da Sé, o empresário cheio da grana), a graphic novel tem um nível narrativo-visual diferente do comum nas HQs brasileiras, com um roteiro não-linear e grande força visual. “Logo de cara, rejeitamos a possibilidade de fazer algo convencional. Mas a viagem vale a pena”, aposta Rocha, cujo envolvimento com quadrinhos já soma mais de duas décadas, com destaque para “Candyland”, feita em parceria com Caldas.

Mais do que simplesmente contar uma história, “Cidade das Águas” quer mostrar a relação intrínseca da cidade de São Paulo com seus rios, e chamar atenção para um problema que, coincidentemente, se tornou mais grave na época do lançamento do livro. “A água não pode ser vista como bem inesgotável nem como objeto de comércio visando ao lucro de alguns”, discursa Rocha.

“Santo Amaro! Quem vai? Quem vai? Vai sair!”

“Cidade das Águas” era originalmente uma peça de teatro. Por que adaptá-la para os quadrinhos?
A peça “Origem-Destino”, que deu origem à HQ, foi encenada nas ruas de São Paulo em 2012. O Marcos Gomes, que escreveu a peça, queria publicar o texto em um formato não tradicional, porque a peça tem uma estrutura polifônica, fragmentada, além de uma relação forte com a paisagem e a geografia da cidade. Foi daí que surgiu a opção pelos quadrinhos – algo com o que eu trabalho faz tempo, junto com o Guilherme Caldas – e o Marcos chegou na gente porque a minha mulher, Andrea Tedesco, é uma das diretoras da peça.

Como foi a adaptação? Foi difícil transformar cenas em “balões e rabiscos”?
Antes do “Cidade das Águas”, eu nunca tinha adaptado coisas para os quadrinhos, sempre escrevi roteiros originais. Foi bem difícil, principalmente porque eu adoro a peça na forma que ela foi encenada, e porque não é um texto linear/narrativo. Acabei desenhando sketches bem toscos ao invés de sair escrevendo, colocando a imagem no primeiro plano. O roteiro foi feito em cima de cortes, e eu mandava para o Guilherme, que transformava as coisas em desenhos de verdade. Mas também teve muitos quadros e páginas que eu nem rabiscava, deixando para o Guilherme (que não viu a peça) inventar. Justiça seja feita: são algumas das páginas que eu acho mais legais.

Nas HQs nacionais é comum ver a predominância de um texto forte, narrativo, ou de uma componente gráfica virtuosa. O “Cidade das Águas” foge à regra: ele tem muito texto e muito visual, mas o texto é hermético e nem um pouco simples. Foi de propósito?
A peça nasceu de um processo colaborativo, com pesquisas e exercícios teatrais feitos na rua, além de recortes e citações diversos. O texto do Marcos Gomes foi elaborado em cima disso, e tentei transpor essa experiência nos quadrinhos. Logo de cara, rejeitamos a possibilidade de fazer uma HQ convencional, assumindo o risco de tentar outro tipo de narrativa, que de fato não é simples. Mas vale muito a viagem.

O tema da HQ parece bem apropriado para o momento de São Paulo hoje. Foi de propósito?
Não. No começo dos anos 2000, já havia estudos que apontavam o risco de crise no abastecimento, mas em 2012, quando a peça foi feita, pouca gente imaginava que chegaríamos ao ponto de hoje. O que a gente quis colocar em discussão no “Cidade das Águas” foi a escolha do nosso modelo de “desenvolvimento” e a forma desastrosa como São Paulo lida com seus recursos hídricos – o que gera consequências tanto com alagamentos como na crise de abastecimento que estamos vivendo.

Isso aparece numa das partes que eu mais gostei do livro, que é o embate entre o sanitarista Saturnino de Brito e o prefeito Prestes Maia. Que luta foi essa, e como ela definiu a maneira como o paulistano lida com a água?
É um embate entre duas visões muito opostas de progresso. O Saturnino tinha um plano de melhoramentos para o rio Tietê que atacava os problemas das enchentes e criava um imenso parque fluvial ao longo do rio. Mas prevaleceu a visão do Prestes Maia, com o Plano de Avenidas que deu origem às Marginais Tietê e Pinheiros. Um modelo que esconde os rios sob avenidas e privilegia o transporte individual, superlotando a cidade de carros. O mais grave da crise atual é a forma como o governo estadual gere os recursos hídricos. Sabia-se há pelo menos uma década que era preciso investir no sistema de abastecimento, combatendo o desperdício na distribuição e no consumo. Mas o que se fez foi garantir o lucro dos acionistas privados da Sabesp e rezar pra chover bastante. Um “plano” frágil, irresponsável. A política ambiental pavorosa e o nosso consumo desmedido de água também não podem ser desconsiderados. O importante, agora, é que esse desastre nos faça repensar o uso da água como consumidores individuais (que representam a menor fatia), mas também como coletividade. Os maiores consumidores de água no Estado de São Paulo são incentivados a consumir mais, porque são considerados clientes VIP e pagam uma tarifa menor pela água. É esse tipo de raciocínio que tem que ser colocado em xeque agora. A água não pode ser vista como bem inesgotável nem como objeto de comércio visando ao lucro de alguns, em detrimento do interesse comum.

A maioria dos leitores do Scream & Yell conhece teu trabalho no Lestics, mas não a sua carreira nos quadrinhos. Como você se envolveu com isso?
Eu me envolvi com os quadrinhos mais ou menos na mesma época que comecei com a música, no início dos anos 90. Eu tinha experimentado fazer um fanzine de quadrinhos ainda em Uberlândia, antes de vir pra São Paulo. Mas foi por aqui que eu fiz os primeiros zines mais bacanas, junto com o Guilherme Caldas, o Murilo Martins e o Adriano Rodrigues, que tinham entrado comigo na ECA. No começo eu roteirizava e desenhava (mal), mas depois de algumas histórias em parceria com o Guilherme eu desencanei de desenhar. Nós dois seguimos trabalhando juntos desde então, publicando esporadicamente. Tem uma série nossa que vem daquela época, a Candyland, que acabou virando um livro bem legal publicado pela Caderno Listrado/Barba Negra em 2010. Agora o que vem pela frente é mistério/surpresa.

Pra encerrar: como tão as coisas com o Lestics? Teremos novidades em 2015?
Neste momento estamos compondo material novo, então podemos dizer que sim, teremos novidades em 2015.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– Lestics: “Deve ter um jeito de tocar na novela, mas eu não sei qual é” (aqui)
– Entrevista: Sidney Gusman -> “Tem quadrinho para todos os públicos”.  (aqui)

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