Boteco: de Bruges, três cervejas Straffe Hendrik

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por Marcelo Costa

A Brouwerij De Halve Maan é uma cervejaria familiar de Brugges, na Bélgica, inaugarada em 1856 por Henri Maes. Tanto Henri II quanto Henri III estudaram produção de cervejas na Alemanha enquanto Henri IV ampliou o serviço entregando cervejas na casa do cliente. Nos anos 80, com ajuda da filha Véronique, Henri IV lançou a marca famosa da casa, Straffe Hendrik Brugs Tripel, enquanto a filha conduzia uma enorme reforma em toda cervejaria, que atraiu compradores, com a Brouwerij Riva assumindo os negócios a partir de 1988. Resultado: a produção de cervejas da De Halve Maan diminuiu significamente durante os anos 90 até a cervejaria fechar em 2002. O filho de Véronique reativou a produção em 2005 lançando a Brugse Zot e readquirindo os direitos do nome Straffe Hendrik em 2008. De lá pra cá, duas novas Straffe Hendrik chegaram ao mercado. Abaixo escrevo sobre as três Straffe Hendrik.

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Primeira receita produzida pela casa, a Straffe Hendrik Brugs Tripel é uma cerveja de 9% de graduação alcoólica que apresenta uma coloração âmbar com creme suavemente alaranjado de boa formação e longa permanência. No nariz, um conjunto arrebatador que destaca doçura (caramelo e toffee), sugestão de frutas cristalizadas, notas herbais, condimentação (semente de coentro), trigo, feno e biscoito além, claro, de álcool, perceptível, mas delicado. Na boca, há doçura caramelada em destaque no primeiro toque, logo atropelada com suavidade por lúpulo, álcool e levedura, que distribuem picancia condimentada, acidez comportada e leve adstringência, acariciando o bebedor. Há reforço de notas frutadas (tanto cristalizadas quanto nozes e remissão a calda de pêssego), lembrança de trigo e feno e percepção aconchegada de álcool, que impressiona. O final é caramelado e picante. No retrogosto, notas frutadas, leve acidez, trigo e álcool. Cuidado, você pode se apaixonar.

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Se é preciso tomar cuidado com a Tripel, o que dizer da Straffe Hendrik Brugs Quadrupel, um colosso maltado que alcança 11% de álcool? De coloração âmbar escura translucida com creme bege de formação majestosa e permanência aparentemente eterna na taça, a Straffe Hendrik Brugs Quadrupel apresenta que valoriza as notas típicas do estilo destacando doçura caramelada (com sugestão de chocolate amargo, mel e açúcar queimado), derivados da tosta do malte (café), frutado (uva vermelha, ameixa, avelã e alcaçuz), condimentação (pimenta do reino) e presença destacável do álcool, como se avisando pra tomar cuidado. No paladar, a potência do álcool se mostra presente desde o primeiro toque, mas desce suave em meio a notas carameladas, que abrem caminho para frutado (uva vermelha e ameixa), especiarias e sugestão distante de Jerez. O final é melado, quase licoroso, e alcoólico. No retrogosto, picancia condimentada, açúcar queimado, chocolate amargo e calor. Uau.

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Para fechar o trio com capricho, o novíssimo lançamento da casa: Straffe Hendrik Brugs Tripel Wild 2014, uma versão safrada da estrela da casa refermentada com a arisca (e apaixonante) levedura Brettanomyces. Esta primeira versão foi lançada em abril de 2014 e apresenta uma coloração âmbar com creme suavemente alaranjado de boa formação e longa permanência. No excelente aroma, a característica Tripel da receita original é reduzida cedendo lugar à maior presença frutada cítrica (manga, lima e damasco), leve sugestão herbal (trigo, feno) e nítida percepção de notas derivadas da levedura Brett sugestionando leve azedume e acidez próxima a Saison. O paladar aprofunda de forma magnifica o que o aroma sugestiona: a acento cítrico é forte trazendo consigo amargor suave (mas presente) e acidez moderada. Há toffee, caramelo, mel, lima, damasco, trigo, feno, azedume, acidez e praticamente nenhuma percepção dos 9% de álcool! O final traz azedume, cítrico, caramelo e leve amargor. No retrogosto, caramelo, cítrico, acidez e sútil azedume. Sensacional. Bora mudar pra Bruges?

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Balanço

A Straffe Hendrik Brugs Tripel é uma cerveja apaixonante que surpreende por caprichar em um conjunto tão harmônico que consegue esconder tão bem 9% de álcool em meio a notas frutadas, caramelo e trigo sem que uma prejudique a outra. Lembra uma Tripel Karmeliet um tiquinho mais melada, mas tão saborosa quanto. Mais potente que a Brugs Tripel, a Straffe Hendrik Brugs Quadrupel tenta disfarçar 11% de álcool num conjunto deliciosamente frutado, adocicado e condimentado. Daquelas garrafas que você pode “casar” com ela uma boa hora e meia numa mesa e beber sossegadamente, administrando a porrada e aproveitando o percurso. Baita cerveja, baita cerveja. Presentaço do Júlio Campos, que esteve em Bruges próximo ao lançamento da cerveja, a Straffe Hendrik Brugs Tripel Wild 2014 é absolutamente apaixonante para quem ama a verdadeira escola belga. Esqueça o Tripel da receita original, afinal, que conhece o poder da levedura Brettanomyces sabe que ela muda todo o perfil da receita, que sugestiona um meio do caminho entre uma Saison e uma Tripel, sem tanto caramelo, mais com mais refrescancia numa cerveja de 9% de álcool!!! Como é possível? Sei lá, mas a turma de Bruges conseguiu criar uma receita icônica absolutamente apaixonante. De novo, valeu Júlio :D

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Straffe Hendrik Brugs Tripel
– Produto: Abbey Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,79/5
– Preço pago no Brasil: R$ 19,90 – 330 ml

Straffe Hendrik Brugs Quadrupel
– Produto: English Strong Bitter
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3,82/5
– Preço pago no Brasil: R$ 19,90 – 330 ml

Straffe Hendrik Brugs Tripel Wild 2014
– Produto: Abbey Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 4,06/5
– Preço em Bruges: 4,50 euros – 330 ml

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