Os resultados do Oscar 2015

por Marcelo Costa

Há tempos que o Oscar não tinha um apresentador tão chato e sem graça. Resultado: uma das premiações mais arrastadas da história. A única piada que realmente funcionou foi o remake da cena de Michael Keaton de cueca em “Birdman” com Miles Teller, de “Whiplash”, tocando bateria. O resto foi de uma indigência de dar dó. No entanto, alguns discursos foram muito bons, com destaque para Patricia Arquette, responsável pelo único Oscar concedido ao cult “Boyhood” (Melhor Atriz Coadjuvante), que falou de equiparação salarial entre homens e mulheres. Julianne Moore foi aplaudida de pé pelo prêmio de Melhor Atriz (excelente no mediano “Para Sempre Alice”). E as luvas vermelhas da Lady Gaga brilharam, claro.

No geral foi uma premiação com poucas surpresas. “Birdman” e “O Grande Hotel Budapeste” dividiram a atenção. O recordista de bilheteria da temporada, “Sniper Americano“, felizmente só levou um Oscar pra casa. O (mais) importante (do que bom) “Selma” levou Melhor Canção. O chapa branca “A Teoria De Tudo” confirmou o favoritismo de Eddie Redmayne enquanto “O Jogo da Imitação” foi premiado por um roteiro covarde, que não cobra o que deveria da realeza britânica, culpada pela morte de Alan Turing. O belo “Ida” foi confirmado como Melhor Filme Estrangeiro enquanto “Citizenfour”, sobre Edward Snowden, faturou o prêmio de Melhor Documentário. Todos os vencedores estão listados abaixo.

Não me lembro da última vez que consegui assistir a um número tão grande de concorrentes ao Oscar antes da cerimônia como neste ano: no total consegui conferir 25 filmes dos 57 indicados (entre longas, curtas, animações), privilegiando as categorias principais. A sensação após a maratona é que o ano não foi tão ruim quanto aparentava numa visão distanciada, ainda que eu não consiga perceber nenhuma obra prima em meio aos indicados – mesmo o polonês “Ida”, meu preferido entre todos os indicados, não se encaixa no adjetivo. Há filmes bons, muito bons, a grande maioria não americana.

Da lista principal, meu preferido era realmente “Birdman”, e acho interessante a maneira como ele dividiu o público: uns amam, outros odeiam. O argumento de defesa, para os dois lados, é o mesmo: a arrogância, o pedantismo e o exagero conquistam e, ao mesmo tempo, afastam o espectador. Acrescento outra observação: “Birdman” é impenetrável, uma exibição grandiloquente das pequenas partes que formam um filme e todo espectador que for assisti-lo buscando interação (ou teorização in loco) sairá decepcionado. É tipo “assista agora, pense depois”, e nem todo mundo está interessado na brincadeira (o ego exposto de outro intimida nosso próprio ego).

Dos demais filmes: sinto admiração imensa por “Boyhood” e a sensação de que “Birdman” e ele estão praticamente cabeça a cabeça no meu universo pessoal, e que, caso eu votasse na Academia, iria sofrer um bocado para escolher entre um e outro. “O Grande Hotel Budapeste” surge um degrauzinho abaixo formando o meu pódio cinematográfico, com o excelente “Whiplash” ali do lado. Dos demais, a temática de “Selma” me agrada mais do que o filme; gosto apenas de Steve Carrell no forçado “Foxcatcher”; “O Jogo da Imitação” é um desserviço para a memória de Alan Turing e “A Teoria De Tudo” é chapa branca. “Sniper”? Não, por favor.

Na minha modesta opinião, apenas quatro dos filmes indicados à categoria principal (“Birdman”, “Boyhood”, “Grande Hotel Budapeste” e “Whiplash”) tem sobrevida histórica enquanto os demais vão ser deliciosamente esquecidos nos anos seguintes (ok, talvez “Selma” dure uns cinco anos), o que levanta uma questão hipotética, já que a análise é minha e tem gente que acredita piamente que “Sniper”, “Foxcatcher” e “O Jogo da Imitação” mereçam todo o destaque que a premiação concede: por que indicar filmes falhos à categoria principal se há tanto bom filme estrangeiro no mercado?

No Twitter dias atrás, brincando com um amigo, comentei que, num mundo ideal, teríamos uma Academia Interplanetária de Cinema, com sede em Júpiter, que escolheria os filmes do ano independente de credo, cor ou pátria, buscando mais justiça. Porque neste Oscar, inevitavelmente, o melhor do cinema não está na categoria principal, nacionalista, mas em território estrangeiro: o polonês “Ida”, o russo “Leviatã”, o britânico “Mr. Turner”, o estoniano “Tangerines”, o franco-belgo-italiano “Dois Dias, Uma Noite” e o argentino “Relatos Selvagens” (ainda não vi “Timbutku”, mas sei que foi bastante elogiado).

A simplicidade contida de “Ida” escancarada numa fotografia esplendorosa de planos parados (recurso alterado apenas na simbólica cena final) é comovente e merece o Oscar que ganhou. “Dois Dias, Uma Noite” é uma aula. O desesperançado “Leviatã” poderia ter meia hora a menos (de 2h21 para 1h51) e ficaria mais forte. “Tangerines” é uma fábula tocante, ainda que o didatismo da cena fina incomode (mas não vivo num país em guerra, então). Em “Mr. Turner”, Mike Leigh optou por arrastar o filme simbolicamente como a fala do grande pintor, e o filme me agrada mais a cada dia que passa (sim, a fotografia é embasbacante). “Relatos Selvagens” exibe o tutano que falta ao cinema norte-americano.

A religião é o tema que norteia grande parte dos filmes da categoria Melhor Filme Estrangeiro sugestionando reflexões (ainda mais em um país como o Brasil, cuja religião perdeu o poder político que exerce no Oriente Médio, no Caucaso e na Asia). Se em “Ida”, uma jovem noviça é obrigada a confrontar cristianismo e judaísmo em sua alma, “Tangerines” coloca dois fervorosos oponentes religiosos em uma mesa e “Timbuktu” mostra a intolerância religiosa jihadista que chega ao ponto de matar em nome de Alá, “Leviatã” bate no peito e aponta o dedo sem disfarces: tudo é culpa da religião, que domina o Estado e justifica os atos fieis com o perdão divino, como se dissesse: “Deus está do nosso lado, então podemos matar”.

No geral, o velho clichê: o Oscar mostra que temos mais Cinema (com C maiúsculo) fora dos EUA, e o fato de grandes atores salvarem obras medianas (Steve Carrell, Bradley Cooper, Julianne Moore, Reese Witherspoon, Rosamund Pike, Meryl Streep) diz muito sobre a constatação. Entre os esnobados, é um pecado Jake Gyllenhaal não ter sido indicado por “O Abutre” (o roteiro, por sua vez, não me agrada – ainda que a temática arranque suspiros), e “Garota Exemplar” merecia melhor sorte. Já é um alivio a grande bobagem “Interestelar” ter levado apenas um Oscar. Ufa. Faltou “Vicio Inerente”, de PTA, mas esse só em março. Por fim, tivemos outro mexicano levando melhor diretor… consecutivamente!

Abaixo, os resultados finais nas 24 categorias junto aos meus votos (e alguns chutes): acertei 16 e errei 8. No total, “Birdman” saiu da premiação com o mesmo número de estatuetas de “O Grande Hotel Budapeste” (quatro cada um), mas Iñárritu leva vantagem simbólica por ter faturado as categorias principais (Melhor Filme Melhor Diretor). “Whiplash”, como eu imaginava, saiu com três estatuetas (Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Mixagem de Som e Melhor Montagem) e todos os indicados a Melhor Filme levaram ao menos uma estátua dourada pra casa. Reforço a questão: os grandes filmes desta edição do Oscar são os estrangeiros. Vá atrás deles. Vale a pena!

MELHOR FILME: “Birdman”
– Eu gostaria que ganhasse… “Birdman”

MELHOR DIRETOR: Alejandro González Iñárritu por “Birdman”
– Eu gostaria que ganhasse… Alejandro González Iñárritu por “Birdman”

MELHOR ATOR: Eddie Redmayne, por “A Teoria De Tudo”
– Eu gostaria que ganhasse… Eddie Redmayne, por “A Teoria De Tudo”

MELHOR ATRIZ: Julianne Moore, por “Para Sempre Alice”
– Eu gostaria que ganhasse… Julianne Moore, por “Para Sempre Alice”

MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons por “Whiplash”
– Eu gostaria que ganhasse… J.K. Simmons por “Whiplash”

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette por “Boyhood”
– Eu gostaria que ganhasse… Patricia Arquette por “Boyhood”

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: “Birdman”
– Eu gostaria que ganhasse… “Birdman”

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: “O Jogo da Imitação”
– Eu gostaria que ganhasse… “Whiplash – Em Busca Da Perfeição”

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: “Ida”
– Eu gostaria que ganhasse…  “Ida”

MELHOR ANIMAÇÃO: “Operação Big Zero”
– Eu gostaria que ganhasse… “Os Boxtrolls”

MELHOR FIGURINO: “O Grande Hotel Budapeste”
– Eu gostaria que ganhasse…  “O Grande Hotel Budapeste”

MELHOR MAQUIAGEM: “O Grande Hotel Budapeste”
– Eu gostaria que ganhasse…  “O Grande Hotel Budapeste”

MELHOR FOTOGRAFIA: “Birdman”
– Eu gostaria que ganhasse…   “Ida”

MELHOR MONTAGEM: “Whiplash”
– Eu gostaria que ganhasse…   “Boyhood: Da Infância À Juventude”

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Interestelar”
– Eu gostaria que ganhasse…  “Interestelar”

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Glory”, de “Selma”
– Eu gostaria que ganhasse…   “Lost Stars”, de “Mesmo Se Nada Der Certo”

MELHOR TRILHA SONORA: “O Grande Hotel Budapeste”
– Eu gostaria que ganhasse…  “A Teoria de Tudo”

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: “Sniper Americano”
– Eu gostaria que ganhasse…  “Birdman”

MELHOR MIXAGEM DE SOM: “Whiplash”
– Eu gostaria que ganhasse…   “Whiplash”

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: “O Grande Hotel Budapeste”
– Eu gostaria que ganhasse…   “O Grande Hotel Budapeste”

MELHOR DOCUMENTARIO: LONGA: “Citizenfour”
– Eu chutei que ganhasse…   “Citizenfour”

MELHOR DOCUMENTARIO CURTA: “Crisis Hotline”
– Eu chutei que ganhasse…   “Joanna”

MELHOR ANIMAÇÃO EM CURTA-METRAGEM: “O Banquete”
– Eu chutei que ganhasse…   “O Banquete”

MELHOR CURTA-METRAGEM: The Phone Call
– Eu chutei que ganhasse…  “The Phone Call”

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Todas as imagens: Reprodução / Site Oficial Oscar 2015

Oscar 2015
– Da Polônia, “Ida” é uma trágica história de auto-descoberta belamente filmada (aqui)
– Da Rússia, “Leviatã” lança luz sobre a falência das instituições (aqui)
– Da Estônia, “Tangerines” é uma delicada fábula educativa sobre guerra (aqui)
– Representante argentino no Oscar, “Relatos Selvagens” era uma obra em mutação (aqui)
– “Dois Dias, Uma Noite”, dos Irmãos Dardenne, supera vários filmes do Oscar (aqui)
– Tudo é intencionalmente exagerado em “Birdman”. E funciona brilhantemente (aqui)
-“Boyhood – Da Infância à Juventude” soa tanto um elogio à família quanto ao destino (aqui)
– “Sniper Americano” consegue o prêmio de “pior filme de Clint Eastwood” (aqui)
– “Selma” apresenta um Martin Luther King menos santo (aqui)
– “Mr Turner” é uma cinebiografia comovente, ainda que bruta (aqui)
– “O Jogo da Imitação”: Alan Turing merece mais que uma homenagem torta (aqui)
– “Whiplash” é um tratado sociológico moderno (embalado numa bela trilha sonora) (aqui)
– “O Abutre” é o retrato de uma sociedade viciada na espetacularização da tragédia (aqui)
– “Foxcatcher” se arrasta em meio a clichês numa trama repleta de buracos (aqui)
– Badalado filme britânico do ano, “A Teoria de Tudo” é esquemático e chapa branca (aqui)
– Drama básico sobre doença, “Para Sempre Alice” é salvo por Juliane Moore (aqui)
– “O Grande Hotel Budapeste”: cinema popular com grande apelo técnico (aqui)
– As atuações de Reese Witherspoon e Laura Dern fazem valer a pena “Livre” (aqui)

One thought on “Os resultados do Oscar 2015

  1. Fico em dúvida se o cinema independente norte-americano não teria mais Cinema (com C maiúsculo) do que os grandes estúdios. Tendo a achar que não, já que parece ter se tornado bem esquemático. De qualquer maneira, os indicados a Melhor Filme Estrangeiro desse ano realmente foram do cacete. Acho que vários deles terão bela sobrevida! 🙂

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