Três filmes: Tangerines, Leviatã, Ida

por Marcelo Costa

“Tangerines”, de Zaza Urushadze (2013)
Comovente fábula anti-guerra, a trama de “Tangerines” (“Mandariinid” no original) se passa numa aldeia da Abecásia durante a guerra de 1992/1993, quando forças separatistas criaram uma República Autônoma buscando separar a região (de pouco mais de 200 mil habitantes) da Georgia, país situado no Cáucaso que faz fronteira com Rússia, Azerbaijão, Armênia, Turquia e o mar Negro. No filme, com a eclosão da guerra, a maior parte da população abandonou as aldeias, mas dois estonianos permaneceram trabalhando. Um deles é Ivo, um velho marceneiro que produz caixas de madeira para frutas; o outro, Margus, um homem que cultiva tangerina, e tem uma enorme colheita pela frente, que planeja vender e partir para a Estônia (muito mais por carinho pela fruta do que pelo dinheiro). O cotidiano dos dois senhores muda quando mercenários contratados pela Abecásia e soldados da Georgia se enfrentam próximos de suas casas. O saldo da batalha exibe mortos dos dois lados, e um sobrevivente de cada grupo, resgatados por Ivo, que os coloca em sua casa e começa um tratamento médico que irá salva-los enquanto um promete matar o outro assim que curado. A proposta do diretor Zaza Urushadze (que também assina o roteiro) é educacional: mostrar que respeito e amizade podem tornar a guerra totalmente sem sentido. Com roteiro bem construído e ótimas atuações, “Tangerines” tem na inocência sua maior força, buscando discutir pacificamente a guerra numa região constantemente turbulenta (o último confronto foi em 2008).

Nota: 7.5

“Leviathan”, de Andrey Zvyagintsev (2014)
Para infelicidade dos nacionalistas russos, o excelente filme escolhido para representar o país no Oscar 2015 desenha um retrato nem um pouco lisonjeiro do país. “Leviatã” tem como premissa mostrar a insignificância do ser-humano diante de instituições (Estado e Igreja à frente) afundadas em corrupção, ganancia e desejo por poder. De viés universal (tanto que é inspirado na história real de Marvin Heemeyer acontecida no Colorado, EUA), a trama tem como foco uma pequena cidade próxima ao Mar de Barents, no norte da Rússia. É lá que Kolia, dono de uma oficina mecânica, vive com sua jovem esposa Lilya e seu filho Roma, de um casamento anterior, numa antiga casa da família com bela vista para o mar (e um cemitério de barcos). O terreno está na mira de um prefeito corrupto, que quer pagar cinco vezes menos o valor do imóvel para que Kolya deixe a casa. Inicia-se uma briga jurídica, manipulada pelo político (que, por sua vez, é manipulado por um sacerdote), que irá desgraçar a vida de Kolia, da esposa e do amigo advogado contratado para defendê-los. Com meia hora a menos (o filme tem 2h21 minutos de duração e muita gordura), “Leviatã” seria impecável, mas mesmo o excesso não consegue tirar força de uma história que questiona a justiça de Deus em face do sofrimento humano. Movido a vodka, desmandos, contradições religiosas e traições, “Leviatã” não concede ao espectador um segundo que seja de esperança, afinal a vida na Rússia (nos EUA, no Brasil…), defende Zvyagintsev, é uma grande tragédia. Essencial.

Nota: 9

“Ida”, de Paweł Pawlikowski (2013)
Década de 60 na então República Popular da Polônia. Prestes a confirmar seus votos como freira, a jovem noviça Ida procura por seu único familiar vivo, sua tia Wanda, uma juíza decadente, alcoólatra, cínica e promíscua, assombrada por fantasmas do passado. Juntas, essas duas mulheres partem em um road movie pelo amago da história polonesa num doloroso acerto de contas com o Holocausto da Segunda Guerra (estima-se que 1/5 da população do país foi assassinada entre 1939 e 1945) e o terror judicial posterior (torturas, execuções e julgamentos políticos) comandado pelo governo comunista nos anos 50. Wanda conta para a sobrinha, entregue ainda criança para um convento, que seus pais eram judeus, e as duas partem em busca da história da família. Com fotografia esplendorosa em preto e branco (indicada merecidamente ao Oscar na categoria) enquadrada milimetricamente numa Proporção de Tela 1.33:1, que (segundo o diretor) busca emular os filmes poloneses da época, “Ida” exibe um painel tão trágico quanto “Leviatã”, ainda que, numa leitura rasa, soe tolamente católico. Mais profundo que isso, Paweł Pawlikowski propõe uma complexa jornada de descoberta (tardia) de identidade, e todo o choque que isso pode acarretar em uma pessoa cujo mundo, durante anos, se resumiu as paredes de um enorme convento. Em um curto espaço de tempo, Ida é “apresentada” à família que nunca teve, à John Coltrane e a si mesma, suscitando a questão: o que você faria? A resposta de Paweł: um filme arrebatador.

Nota: 9

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Oscar 2015
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