Entrevista: Meia Dúzia de 3 ou 4

por Bruno Capelas

O Pequeno Príncipe, personagem favorito das misses, foi dar um passeio num boteco da Zona Norte de São Paulo. Um rapaz carente vivia sem crédito no celular para ligar para sua amada. A queixa de um cara conhecido como fracote em seu bairro ao ator Bruce Willis, dizendo que ele era “facinho de matar”. A fauna (humana) existente abaixo do vão livre do Museu de Arte de São Paulo. Esses e muitos outros personagens fazem parte das crônicas presentes em “Tem Muito Disso que Cê Tá Falando”, disco mais recente da banda paulistana (paulistaníssima, diriam alguns) Meia Dúzia de 3 ou 4.

Criada em 2003 por Thiago Melo (violão e voz) e Marcos Mesquita (baixo), dois músicos da banda de apoio do Teatro Mágico que queriam explorar novas canções, o Meia Dúzia de 3 ou 4 canta São Paulo com muita graça. Dá para considera-los como herdeiros de uma linhagem que inclui Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e a turma da Vanguarda Paulistana, movimento paulista dos anos 1980 que tinha nomes como Grupo Rumo, o Premeditando o Breque, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e o compositor Maurício Pereira, na época em dupla com André Abujamra nos Mulheres Negras.

“A cidade acabou sendo nossa musa natural. É um lugar que engole as pessoas, mas que também rumina, e é preciso saber aproveitar”, diz Thiago Melo. Para ele, a geração que se formou em torno do teatro Lira Paulistana vive um resgate com a internet. “As coisas finalmente estão se encontrando: os roqueiros dos anos 80 estão indo para a TV ou para o Congresso falar merda e quem presta continua aqui fazendo música boa”, explica.

Em um bate papo viva-voz, Thiago e seu companheiro Marcos Mesquita comentaram “Tem Muito Disso…”, terceiro trabalho da banda, lançado no segundo semestre de 2014. Formada ainda por Arnaldo Nardo (bateria), Daniel Carezzato (voz e percussão), Mike Reuben (voz, flauta e saxofone), Sérgio Wontroba (voz, clarinete e saxofone) e Luisa Toller (voz, piano, escaleta), o grupo se autodefine como uma “democracia caótica”. “Gastamos 80 emails para escrever uma música”, explica Marcos.

Na entrevista a seguir, a dupla que criou o Meia Dúzia fala ainda sobre seus dois discos anteriores – “Tudo Se Torna”, de 2009, e “O Fim Está Próximo”, que teve participações de Tom Zé e Maurício Pereira, de 2012 -, a relação que a banda tem com a internet (os três discos estão disponíveis para download no site da banda) e crowdfunding. “O crowdfunding é a cobra mordendo o próprio rabo. Antes, você tinha o movimento do down, do download, e agora as pessoas estão começando a up, up money, retribuindo o artista”. Com vocês, o Meia Dúzia de 3 ou 4… mas, antes, “desenha-me um carneiro?”

Vocês lançaram no ano passado seu terceiro disco da carreira, o “Tem Muito Disso Que Cê Tá Falando”. Como ele aparece dentro da carreira da banda?
Thiago: Cada disco nosso tem características bem diferentes. O primeiro, “Tudo se Torna”, de 2009, nasceu de uma necessidade de colocar para fora uma série de músicas que foram compostas sem compromisso nenhum. Já o segundo disco, “O Fim Está Próximo”, de 2012, teve uma demanda diferente. Nós assumimos o compromisso, durante dois anos, de lançar uma música nova a cada dois meses. Foi um disco “de estúdio”, nos quais trouxemos vários convidados e não pensamos em como íamos fazer essas músicas ao vivo. Foi bacana porque tiveram vários convidados: Tom Zé, André Abujamra, Maurício Pereira, Suzana Salles, Arrigo Barnabé. Foi só depois que o disco saiu que nós decidimos como íamos tentar verter as músicas para um formato executável ao vivo.

Marcos: Tinha música que tinha até a participação de uma big band, o que seria impossível de reproduzir ao vivo. No terceiro disco, a gente deixou a piração de lado e colocou o pé no chão, já pensando no que ia ter que reproduzir no palco.

Reproduzir no palco o que é feito em estúdio é uma preocupação da banda?
Thiago: Não é uma preocupação prática, é mais um critério estético mesmo. Nossa preocupação, no fim das contas, é passar a mensagem de uma maneira legal, bonita e agradável, seja em estúdio ou ao vivo.

Ouvindo o “Tem muito disso…” é fácil perceber uma ligação forte da banda com o movimento da Vanguarda Paulistana [movimento de música independente formado nos anos 1980, em São Paulo, ao redor do teatro Lira Paulistana, em Pinheiros]. É proposital?
Thiago: A história do Lira aparece na minha infância. Quando eu era pequeno, ouvi os primeiros discos do Premê, do Língua de Trapo, um pouco mais tarde eu já comecei a ouvir o Itamar. Essa verve humorística que a gente tem no Meia Dúzia já vem daí. É uma comparação imediata sim, mas a gente se sente bastante orgulhoso com ela.

Marcos: Já eu fui conhecer a Vanguarda Paulistana bem mais velho. Quando eu era adolescente, não gostava de música brasileira, era roqueirão, ouvia Deep Purple e Led Zeppelin. O que me trouxe para a música brasileira foi o Hermeto Paschoal, graças a Deus.

Achei engraçado o Thiago falar que ouvia a Vanguarda Paulistana quando era criança. Na época, não foi exatamente um movimento popular. Como essas músicas chegaram até você?
Thiago: Bem, eu tenho 40 anos, e em 82, 83, eu era moleque e morava em Laranjal Paulista, no interior de São Paulo. Naquele tempo, você não tinha internet, mas tinham os tios que iam estudar na capital e levavam pro interior as novidades. Era como se fosse um “camelô particular”, e nos churrascos, a gente vivia cantando essas músicas. As letras eram leves, as melodias eram engraçadas, e tudo isso me conquistou ainda criança. “Era um domingão/ tinha muito sol/ meu avô na frente/ minha avó lá atrás/ que legal” (cantarola o trecho da canção do Premeditando o Breque).

Nos últimos tempos, parece que tem rolado uma revalorização da Vanguarda Paulistana: saíram as caixas de discos do Rumo e do Itamar Assumpção, documentários sobre o Itamar e os Mulheres Negras, o próprio livro sobre o Lira Paulistana. Vocês também sentem isso?
Thiago: É bacana que, finalmente, a gente não se sente mais sozinho. Acho que todo o trabalho que foi feito em cima do Itamar Assumpção acabou revigorando a moçada do Lira Paulistana. Também é legal que surgiram várias bandas novas que dialogam com essas ideias, como a Filarmônica de Pasárgada, que é um pessoal genial. Acontece que a turma do Lira Paulistana foi preterida pelas gravadoras em favor da turma do rock’n roll, e agora as coisas estão finalmente se encontrando. Os roqueiros estão indo para a TV falar merda ou para o Congresso, e quem presta continua aqui fazendo música boa.

Marcos: É um resgate legal. A internet não é tão nova assim, mas é graças a ela que rolou esse movimento, partindo, às vezes, de uma troca de ideia entre duas pessoas, seja conversando, querendo fazer um documentário ou achando gravações antigas. Antes da internet, esses movimentos eram mais difíceis – dependia, por exemplo, do tio que ia para a capital.

Mas afinal, como é que surgiu o Meia Dúzia de 3 ou 4?
Thiago: A banda começou há onze anos. A princípio, era só um duo de baixo e violão comigo e o Marcos Mesquita. A gente era da banda de apoio de outro projeto, e queríamos tocar as nossas próprias músicas.

Que banda era essa?
Thiago: O Teatro Mágico…

Olha só.
Marcos: A gente se conheceu até antes do Teatro Mágico, foi numa banda de rock setentista, que chamava Será Que Eu Vou Virar Bolor?. Nessas, o Thiago e eu tínhamos várias músicas na gaveta, resolvemos nos juntar para começar a arranjar um repertório próprio.

Thiago: A proposta que a gente queria para o duo era bem diferente do Teatro Mágico. Na verdade, elas não dialogavam com nenhuma das bandas que a gente tocava.

E qual era a proposta do Meia Dúzia?
Thiago: A gente não queria ter um número definido de integrantes. Justamente por isso nome da banda: é uma meia dúzia de 3 ou 4. Passamos um tempo como duo, e depois fomos adicionando uma galera. Hoje, somos sete – o último a entrar foi o [clarinetista] Sérgio Wontroba, que a gente conheceu no Orkut. Já estávamos em estúdio gravando o nosso primeiro disco, e queríamos muito um clarinete em uma das músicas. Lembrei que tinha visto o perfil de um maluco com a foto de um clarinete. Entrei na página de recados dele e perguntei se ele não queria gravar a música. Acabou que ele chegou no estúdio com um arranjo incrível, e não saiu da banda até hoje.

Com tanta gente na banda, imagino que seja difícil ter uma hierarquia dentro do grupo. Qual é o sistema político que vocês adotaram?
Thiago: Nós somos sete, e dos sete, cinco compõem para a banda. Acho que nós somos uma democracia caótica. Não existe um band-leader, e isso acontece tanto dentro quanto fora dos palcos. As coisas são decididas coletivamente, até mesmo quando a gente vai compor. Tudo é aprovado em nome do coletivo

Marcos: A gente costuma gastar uns 80 emails para escrever cada música (risos).

Thiago: (risos). É isso mesmo. No palco, são seis cantores, cantando uma música, ou dividindo os vocais.

Os técnicos de som devem gostar muito desse esquema…
Thiago: Era complicado, mas hoje a gente temos um técnico próprio, o Edu Diux. Sempre que a estrutura permite a gente leva ele junto. São seis microfones para voz, mais inúmeros cabos para os diferentes instrumentos que cada um utiliza. No fim, eu juro, tudo dá certo.

Além de conhecer integrantes, como vocês usam a internet para promover o Meia Dúzia?
Thiago: Começamos a usar redes sociais para nos promover ainda no final do Orkut e do finado Myspace. Eu enchia o saco de todo mundo: amigo, parente, colega, porque eu só falava da banda no meu perfil. Acabei deletando a minha conta e criei a conta do grupo, um pulo de sair da pessoa física e ir para a pessoa jurídica. Depois disso, muita água passou debaixo da ponte: todo mundo que se preza hoje, dos grandes aos pequeninos, usa a internet. O que eu acho interessante é que hoje os recursos para falar com o público vão além da música. Pode ser um teaser, um ensaio fotográfico, tudo ajuda a fortalecer. Mas, o mais curioso é o lance do crowdfunding: é a cobra mordendo o rabo e se fechando. Antes, você tinha o movimento do down, do download, e agora as pessoas estão começando a up, up money, retribuindo o artista. À medida que as coisas vão se tornando mais naturais, o que se desenha para frente é uma relação mais natural de consumo e produção na internet.

Já ouvi de vários agentes e de artistas que essa ideia de manter o fã engajado é uma das grandes saídas das bandas na internet.
Thiago: A questão é como locar esse conteúdo. O público está em mudança constante de hábitos de consumo. Nossos vídeos são informais, como se estivéssemos juntos – artistas e fãs – batendo papo. Não sei por quanto tempo isso vai durar ou se teremos que fazer superproduções. A verdade é que a gente não sabe o que o Zuckerberg vai inventar ainda, né? (risos).

Você falou sobre crowdfunding, e eu aproveito para perguntar: como é a relação da banda com dinheiro? Vocês vivem só da música?
Marcos: Tem de tudo: alguns integrantes são só músicos, e vivem disso, dando aulas, tocando em outros projetos, ou, no caso do Sérgio, em uma orquestra mesmo. Já os outros têm trabalhos que não tem a ver com música. Quanto a dinheiro, fazemos a divisão do que recebemos por oito: sete partes vão para os integrantes, e um oitavo forma o caixa da banda, com gastos com produção e ensaios.

Thiago: O que acontece bastante ultimamente é que a gente começou a fazer trabalhos com música usando o Meia Dúzia. Muitas trilhas, com foco especialmente em crianças, em música infantil. Participamos de um projeto de portal de jogos que tinha o Sítio do Pica Pau Amarelo como tema. Só para isso, foram mais de 50 músicas. Ajudamos também no reposicionamento do Santos Futebol Clube junto ao público infantil. Até 2012, o Meia Dúzia era todo bancado por mim e pelo Marcão, mas agora a gente começou a se pagar com esses projetos. Foi a maneira que achamos de ter um caixa da banda.

São Paulo é um cenário e uma personagem frequente nas canções do Meia Dúzia. Como é a relação de vocês com a cidade?
Thiago: Tirando a Luisa Toller, todos os integrantes da banda moram em São Paulo há muito tempo, Eu vim de Laranjal para cá há 14 anos, e é muito curioso esse negócio da cidade. O Meia Dúzia costuma fazer crônicas da cidade, e São Paulo sempre tem um papel nisso. A cidade acabou sendo a nossa musa natural, um pouco por culpa de pessoas que nos influenciaram, como o Adoniran. Nós temos outras canções, mas esse acabou sendo o nosso principal meio de diálogo. É uma cidade que engole, mas também que rumina, e aí é preciso saber aproveitar.

Minha dúvida é se isso acontece só em São Paulo ou se, caso o Meia Dúzia fosse do Rio de Janeiro ou de Belo Horizonte, as músicas também seriam sobre essas cidades.
Thiago: Nas poucas viagens em que levo um violão comigo, se passar mais de 10, 15 dias no mesmo lugar, fatalmente vou fazer uma música sobre ele. Mas isso tem uma coisa interessante: a Luiza é carioca, mas mudou-se há pouco tempo para cá. Quando chegou, ela dizia não suportar o acento paulistano, mas hoje ela fala mais caipirês que nós dois juntos, com aquele “erre” bem pronunciado, como em “porrrrrta”.

Para vocês, o que define a música de São Paulo?
Marcos: Aqui, tudo se toca. São Paulo é uma grande catalisadora de cultura. Ao mesmo tempo em que ela é tão bruta, tão fria, habitam nela pessoas tão sensíveis, capazes de verter sua sensibilidade para a música, a poesia ou as artes plásticas de forma singular. Acaba sendo um lugar único. Adoniran é isso, né? É a cultura italiana misturada com samba e batuque, traduzida em um português simples e direto.

No Instagram de vocês, existe uma definição própria do Meia Dúzia que eu acho muito curiosa. [MPB, nada P, mas muito B. Há quem diga que pra M falta muito]. Como vocês lidam com o rótulo MPB?
Thiago: Eu nem sei se é um rótulo ou se é um gênero. Acho que a nossa definição – MPB, nada P, mas muito B. Há quem diga que pra M falta muito – traduz o que nós somos. Tem gente que realmente estranha e acha que aquilo que a gente faz não é música. No fim das contas, a MPB é um grande guarda-chuva, que abarca, sei lá, 70% da música feita no Brasil. O manguebeat, pra mim, está dentro da MPB, bem como o vanerão, lá no sul.

O “nada popular” da definição é algo de propósito ou é um impopular que quer ser popular?
Thiago: São coisas da vida. Nós não somos populares, literalmente. Talvez pela nossa música, talvez pela nossa postura, talvez pela quantidade de gente que surgiu junto com a gente… é só isso.

E o rótulo de nova MPB?
Thiago: Bem, depois que a Mesbla faliu… (risos). O Cartola gravou seu primeiro disco com 70 anos: ele é nova MPB, só porque surgiu depois dos outros? É só um jeito de identificar de quem você tá falando. Quando você ouve nova MPB, você fala nessa moçada que anda lado a lado conosco, de Kiko Dinucci e Tulipa Ruiz… é um chapéu dentro desse grande chapéu da MPB. Não é estética, é classificação. Assim como MPB, parece que isso surgiu para uma prateleira de alguma loja.

Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde 2010 e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– Riba de Castro: “Vejo uma nova geração com forte relação com o Lira Paulistana” (aqui)
– Hélio Ziskind: “O Grupo Rumo sempre ficou à margem. O que era frustrante” (aqui)
–  “Daquele Instante em Diante”, um retrato cinematográfico de Itamar Assumpção (aqui)
– Download: baixe gratuitamente o documentário sobre Itamar Assumpção (aqui)

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