Entrevista: Projeto Ccoma

por Leonardo Vinhas

Como absolutamente tudo no planeta, a música também muda ao longo dos anos. Há quem se oponha a essa mudança, dizendo que ela descaracteriza gêneros consolidados. O escritor Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, já escreveu que desistiu de Miles Davis quando ele eletrificou seu som e se aproximou do rock, e o cartunista Robert Crumb tem HQs e cartuns nos quais critica qualquer forma de música surgida a partir dos anos 1950. Por outro lado, há quem entenda a mudança como natural e mesmo necessária: Neil Young, Pete Townshend, o próprio Miles…

O primeiro grupo, portanto, jamais aceitaria a definição de “jazz” para o duo gaúcho Projeto Ccoma, enquanto o segundo, muito provavelmente, não veria problema algum nisso. Mas pense: jazz é música urbana, dançante, sem fronteiras étnicas, vira-lata na essência. E o Ccoma se vale majoritariamente de ritmos urbanos da América Latina para compor, com o auxílio de recursos eletrônicos, de elementos percussivos e de instrumentos de sopro, uma música que mexe tanto com os sentidos como com o espírito, que se presta tanto para o som do carro como para as pistas de dança ou até para a introspecção. Nada mais jazz, portanto. Dos bons.

Luciano Balen (percussão e programações) e Roberto Scopel (instrumentos de sopro) formaram o Projeto Ccoma em 2005, em Caxias do Sul. “Das Ccoma Project”, seu álbum de estreia de 2009, cobre um repertório que vai de “O Trenzinho do Caipira”, de Villa-Lobos, ao standard “Bridge Over Troubled Water” em versões pouco surpreendentes. Foi no lançamento do ano seguinte, “Incoming Jazz”, que a personalidade da banda começou a aparecer, graças a um repertório autoral e ao abandono da pegada “cool jazz downtempo” que dava uma cara de muzak ao antecessor.

Apesar da qualidade do segundo lançamento, não há como compará-lo ao terceiro. “Peregrino”, de 2012, é possivelmente um dos melhores discos concebidos sob o signo da eletrônica no Brasil – se não o melhor. Na abertura, com “Grand Bazaar”, já fica claro o alto padrão de produção e composição, capaz de colocá-los em pé de igualdade com coisas tão diferentes como Bajofondo ou os eventuais momentos inspirados do Thievery Corporation. Mergulhando com gosto num amplo universo de referências, que vai da milonga a cumbia, da psicodelia ao “electropicalismo” do P18, o disco consegue legar um estado de espírito mais elevado, ou pelo menos mais alegre, ao fim da audição, apesar de ser majoritariamente instrumental. E embora muitas faixas tenham potencial de hit imediato, é um disco que faz sentido especial quando ouvido inteiro, na sequência em que foi concebido.

Esse, aliás, é um diferencial do Projeto Ccoma em relação a alguns de seus bons contemporâneos que enveredam pelo mesmo caminho. Finlândia e Coutto Orchestra, por exemplo, têm em disco uma resolução diferente, quiçá aquém, do que apresentam ao vivo, enquanto o Ccoma conseguiu com “Peregrino” traduzir em estúdio uma proposta que é poderosa no palco. O ritmo de preparação do novo álbum estava intenso até que um grave acidente rodoviário no final de 2014 fez o duo pisar no freio. Luciano Balen, também conhecido como Swami Sagara, relata esse episódio e suas consequências, e aproveita o papo para dar uma repassada no objetivo de sua banda: deixar esse mundo um pouco melhor do que estava quando chegaram nele.

No final do ano passado, vocês estiveram envolvidos em um acidente de trânsito bem sério. Você pode contar como foi? E mais importante, o impacto dele parece ter sido enorme, fez você reavaliar coisas da sua vida. O que isso provoca na banda, já que o Ccoma é uma parte essencial da vida de vocês?
A gente estava saindo de um festival em Correntes, interior de Pernambuco. Chanadi Macuca Jazz e Improviso, uma espécie de Woodstock do agreste! O show foi tri bom! Eram onze da noite e nosso destino era Maceió, pois tínhamos um voo para Porto Alegre às cinco da manhã. Numa estrada de terra, um carro dirigido por um motorista visivelmente embriagado bateu de frente contra o veículo em que estávamos. Eu estava na frente, ao lado do motorista, e de cinto. Fiquei com muitas dores pelo impacto, mas não me cortei. O Beto estava atrás, mas sem cinto. Acabou raspando a testa na peça que segura o cinto de segurança dianteiro, e fez um corte que lhe rendeu 15 pontos. Garanto que essa experiência de encontrar a morte é transformadora! São cicatrizes que vamos levar até o fim de nossas vidas, ou até às próximas vidas também. A gente decidiu levar a vida de uma forma menos corrida. Por exemplo, agora, durante as gravações do novo CD, não pretendemos fazer muitos shows. Desaceleramos para nos manter vivos.

Quando os vi ao vivo, notei tua preocupação de, entre as músicas, sempre falar sobre integração, respeito às diferenças. Por que isso é tão importante para vocês?
Bom, primeiro é importante dizer que tanto eu quanto o Beto temos nossas convicções espirituais, e talvez a maior delas seja deixar esse mundo melhor do que quando chegamos aqui. E esse caminho, seguramente, passa por mais respeito com as diferenças, sejam elas quais forem. Nossa música é instrumental, e acho que falar entre uma música e outra, no show, ajuda a melhorar o diálogo com quem nos assiste. A música instrumental, por não ter palavras faladas, deixa margem para uma série de distintos entendimentos. Acho que conversar com o público, contando de onde nasceu cada canção, ajuda muito nessa missão maior que assumimos.

Gosto que vocês definam seu som como “jazz”, porque acho que isso engloba a diversidade cultural que está na música de vocês. Mas onde começou esse caminho? Caxias do Sul, embora uma boa cidade, não é exatamente conhecida por ser uma “janela para o mundo”…
Hoje, qualquer lugar com Internet é uma janela para o mundo. E se tiver um aeroporto perto, é uma ponte! Nossa cidade oferece muitas formas de financiamento à cultura, e quando produzimos o documentário “Profissão: Músico”, nos demos conta de que essa era uma das formas de viver de música, nos tempos pós-revolução-mp3 e quedas das grandes gravadoras. A gente se definiu com jazz por ser um gênero que evolui constantemente e em diversas direções. Embora os puristas discordem de nós. Eu já fui purista, mas hoje estou curado (risos)! Acho que quanto mais explorarmos estas fusões de gêneros, mais diversa a música vai se tornando. No CD “Peregrino” (2012), a música mais difícil de produzir foi “Amazônica Fever”, pois era cumbia-electro. Na época, não existiam muitas músicas com esta proposta. Foi um desafio tentar a união de timbres eletrônicos dos anos 70 e 80 com a guitarra da selva colombiana. E essa união de opostos, essas misturas de timbres que, teoricamente, não combinam, refletem a nossa vontade de aproximar os opostos. Afinal os opostos não estão na mesma linha, só em direções diferentes – sempre achei que a música fosse uma outra perspectiva da física e da matemática.

Esse trabalho de misturar vários ritmos mundiais entre si, e filtrá-los pela eletrônica, tem ganhado mais adeptos. Mas bandas como o Ccoma e o Finlândia parecem fazer mais shows fora do Brasil do que dentro. O que acontece? É uma simples questão de mercado, de oferta e procura, ou é mais complexo que isso?
A gente tem feito alguns shows fora do Brasil, e realmente eu acho que lá existe uma chance maior de encontrarmos pessoas que estejam mais abertas à nossa música. Especialmente na Europa. Lá a música eletrônica não é entendida como dance music, mas como ‘música’, que pode servir para dançar ou para ouvir. Além da gente, o Finlândia, a Coutto Orquestra, o DJ Mam, toda uma série de produtores novos que estão focando seus trabalhos nessas fusões de eletrônico com música de raiz, seja essa raiz do extremo sul do Brasil, da América do Sul, do Pará ou do Nordeste.

Aproveitando o gancho: onde estão as “raízes” da música eletrônica brasileira? Tínhamos o Harry nos anos 80, o Loop B e outros nomes… Isso teve alguma influência em vocês?
Sinceramente, não conheço esses nomes. Minhas influências da música brasileira, com pegada eletrônica passam pelo “Raça Humana”, do Gil; pelo Dalto, com aquele [disco] do “Pessoa” (Nota: Balen se refere ao disco “Muito Estranho”, de 1982), alguns álbuns do Kleiton e Kledir. Eu comecei a ouvir música produzida eletronicamente há uns dez anos, depois de uma viagem à Europa, quando comprei um CD do [duo austríaco] Dzihan & Kamien, ali entendi que a fusão da música eletrônica com a orgânica poderia apresentar algo novo.

Já o ouvi dizer que “Milonga para los Perros” foi um divisor de águas para o Projeto Cccoma. Por que essa canção foi tão importante?
Porque ela nos ajudou na tarefa de nos posicionarmos como um duo eletrônico do extremo sul do Brasil. O Rio Grande do Sul, por uma série de questões geográficas, histórica e comportamentais, não tem apresentado nada de muito novo ao Brasil. Estamos ainda muito presos à estética “rock gaúcho”. Isso foi bom por um tempo, mas como aqui tudo tem que virar uma tradição intocável, penso que o mesmo aconteceu com esse gênero. Uma boa parte dos novos músicos do Rio Grande do Sul está seguindo uma tradição. E aí, nada de novo pode se criar. É quase uma religião. Assim como é o tradicionalismo gaúcho. Quando existe um “ismo” no final da palavra, é um sinal de que ali existe um dogma. Garanto a você que tanto eu como o Beto passamos longe de qualquer “ismo”.

É notável a diferença do “Peregrino” em relação aos dois discos anteriores. Não só na produção, mas nos arranjos, nas harmonias, na ”organicidade” (em termos de soarem mais naturais) das composições. O que provocou essa mudança?
O “Peregrino” é um CD feito em cinco meses de trabalho quase que diário. Os outros anteriores foram feitos em 45 dias, talvez um pouco mais. O “Peregrino” foi produzido após algumas andanças, já tínhamos cumprido uma parte do trajeto. Acho natural e obrigatório que os discos sejam sempre mais maduros com o passar do tempo. Além disso, quando lançamos o documentário do qual te falei, larguei o trabalho que pagava minhas contas pra me dedicar somente à música. Acho que essa seja a razão principal da diferença. Quando produzimos este CD, eu era 100% músico. No CD anterior, “Incoming Jazz”, a música entrava quando eu conseguia um tempinho.

Quando sai o próximo?
Sai este ano. Já estamos produzindo algumas músicas. Não sei quando vamos lançá-lo, mas garanto que estamos tentando encontrar formas de ampliar nosso diálogo com o público. Teremos algumas músicas cantadas, e provavelmente um disco mais rítmico, menos contemplativo, que o “Peregrino”.

Falando em peregrinar: imagino que as viagens para tocar fora alimentem e inspirem as composições, não?
Claro que sim. Qualquer viagem! Quando tocamos num festival, ao lado de Felipe Cordeiro, ou de Maria João, ou de Chucho Valdez, não há como não ser tocado pela música deles. Cada vez que assisto a um show que gosto, minha forma de entender a música se transforma. Sou um buscador de novas possibilidades sonoras, e poder ver e ouvir música “bem elaborada” é sorte tremenda. A gente fez uma escolha de tocar mais em festivais do que em clubes ou bares. Com isso tocamos menos vezes, mas sempre temos bastante público e podemos assistir a outros colegas.

Vi uma entrevista de 2011 em que vocês se mostravam reticentes quanto à participação nos coletivos de artistas independentes. E vocês permanecem distantes deles, até hoje. Depois de tudo o que envolveu o Fora do Eixo, como vocês veem essa organização em coletivos hoje?
Não acredito em artista independente. A gente sempre está dependente. Dependemos que o poder público apoie nossos projetos. Dependemos que o patrocinador entenda que a música que fazemos não toca na TV, mas mesmo assim será bom pra marca dele estar ao nosso lado. Dependemos que os festivais nos chamem pra tocar. Dependemos, dependemos, dependemos… Acho que o FdE cumpriu um papel importante de formação e acho que eles estão se reorganizando e se reavaliando. Aqui no RS, o pessoal de Santa Maria, do Macondo Coletivo, faz um trabalho muito bom e responsável. Aqui em nossa cidade, o pessoal que era ligado ao FdE, agora trabalha com a gente no Festival Brasileiro de Música de Rua.

Aliás, você é um dos organizadores deste festival. Fale um pouco sobre ele, e o que esperar para a edição de 2015.
Em 2015, caso a gente capte todos os patrocínios, o festival vai crescer bastante. A gente vai trazer cada vez mais artistas latino-americanos, cada vez mais a música de raiz… E sempre com todas as atividades gratuitas. A proposta do Festival Brasileiro de Música de Rua é pegar as pessoas pelo braço e fazerem-nas escutar música da melhor qualidade possível, dos gêneros mais diversos… É levar a música que a TV não mostra até onde as pessoas estão.

Hoje, com o festival e o Ccoma, é possível dizer que você vive exclusivamente de música, como sonham vários músicos independentes?
Sim! Foi uma escolha que fiz quando finalizamos o doc. Me perguntei: “então faço um documentário que se chama ‘Profissão: Músico’, e não tenho essa profissão.”. Algo estava errado. Foram quatro anos de muito trabalho pra entender a dinâmica do negócio da música neste momento.

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– Coutto Orchestra: “Enxergamos o download gratuito como algo muito positivo” (aqui)
– Vídeos e fotos do show da Coutto Orchestra no Prata da Casa, em São Paulo (aqui)
– Projeto Ccoma no El Mapa de Todos: “Música suja, sacana e bonita” (aqui)

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