Boteco: da Argentina, quatro cervejas da Antares

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por Marcelo Costa

No final dos anos 90, três amigos de faculdade (dois caras e uma garota) decidiram abrir um pub num velho galpão em Mar Del Plata, na Argentina, oferecendo cerveja artesanal. O nome homenageava uma estrela gigante e vermelha, a 16ª mais brilhante do céu, e, 13 anos depois, a Antares se tornou uma das maiores micro-cervejaria portenha, com oito rótulos regulares no cardápio e mais uma linha caprichada de cervejas sazonais. Entre 2010 e 2011, muitos rótulos da casa chegaram a ser exportados para o Brasil, e não fiquei tão impressionado quando os provei, entendendo que eram boas cervejas, mas nada que merecesse romaria à Mar Del Plata. A sensação permanece agora com os quatro rótulos abaixo, interessantes e agradáveis, mas, numa comparação regional, inferior a de outras boas cervejarias que vem surgindo na Argentina nos últimos anos (atente ao parágrafo balanço no final do texto). Mas, antes, vamos as Antares.

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Abrindo o quarteto com a Antares India Pale Ale, uma cerveja de belíssima coloração amarela (com leve turbidez), creme branco de ótima formação e boa permanência. No nariz, lupulagem em primeiro plano (como era de se esperar) destacando notas frutadas cativantes (maracujá, abacaxi, pêssego e mamão) e intensa presença herbal (pinho em destaque mais grama e leve feno) além de suave toque floral. Há ainda percepção de mel e de resina, bastante agradável. Na boca, há rápida doçura de mel no primeiro toque logo atropelada por amargor resinoso e herbal na sequencia. O amargor é potente, mas não agressivo (ainda que pareça mais, são apenas 45 de IBU), permitindo que as notas herbais (pinho) e cítricas (maracujá e lima) se desenvolvam no paladar, agradavelmente. O final traz resina, mel e cítrico, e é levemente amargo. No retrogosto, um resumo do passeio: resina, cítrico e herbal. Gostei muito.

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A Antares Saison é uma sazonal da casa de Mar Del Plata, que arriscou numa receita que recebe adição de casca de laranja, zimbro, pimenta da Jamaica, pimenta rosa, coentro e cominho alemão. De coloração amarela puxando para o dourado, mas com leve turbidez, a Antares Saison apresenta uma espuma branca de boa formação e permanência. No nariz, um aroma agradável que traz sugestão cítrica (laranja e limão), notas florais e especiarias (coentro e pimenta rosa em destaque). Na boca, bastante cítrico (mais laranja que limão) em meio a condimentação, aparentemente um tiquinho exagerada. Há percepção de zimbro, anis, coentro e pimenta, mas falta a característica rustica, marca das boas Saisons belgas (a Antares Saison está mais para uma witbier condimentada). O final é condimentado e cítrico, com leve percepção dos 5.8% de álcool. Já o retrogosto traz leve adstringência mais condimentação.

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A Antares English Imperial Stout segue o padrão britânico, ou seja, é bem mais sossegada que as versões exageradas protagonizadas pelos norte-americanos. De coloração marrom bastante escura com creme bege de boa formação e permanência, a Antares English Imperial Stout apresenta um aroma carregado de doçura (chocolate, caramelo, cacau e mel), mas há também sugestão de café, derivada da torra do malte, e leve sugestão de anis. Na boca, há um bom equilíbrio entre a doçura (mel, caramelo, chocolate e cacau) e o amargor, que além de remeter a café traz um pouco dos 8.5% de álcool, acrescentando leve picancia. O conjunto parece mais interessante do que o aroma adianta, acrescentando baunilha, alcaçuz, frutas escuras e rápido defumado, principalmente no trecho final, com forte influência do malte torrado, que se sobrepõe a doçura. No retrogosto, leve defumado, café e caramelo. Interessante.

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Fechando o quarteto com a Antares Barley Wine, que, assim como a Imperial Stout, apresenta um novo rótulo, diferente de quando a cerveja era importada para o Brasil (em 2010/2011). De coloração âmbar alaranjada (mais próxima de uma Imperial IPA do que uma Barley Wine) e creme levemente alaranjado de boa formação e permanência, a Antares Barley Wine apresenta um aroma frutado (laranja) e caramelado, com leve toque floral, mostrando mais presença de lúpulo do que numa Barley tradicional. Há leve sugestão de condimentação (pimenta do reino e canela), mel e nozes. Na boca, álcool bastante presente, mas aconchegado por uma camada de doçura (mel e caramelo) e de frutado cítrico (laranja). O amargor, que alcança 50 IBUs, é potente (pelo álcool e pela lupulagem) numa cerveja que ainda traz algo de pêssego em calda. O final é caramelado e alcoólico enquanto o retrogosto reforça essa sugestão acrescentando amargor cítrico na melhor das quatro cervejas deste pacote.

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Balanço
Se a minha memória não trazia boas lembranças da Antares na primeira experiência (quatro anos atrás), essa Antares India Pale Ale tratou de chutar o preconceito para longe. Não que seja uma IPA sensacional, mas me pareceu uma versão suave da Anderson Valley Heelch O’Hops (uma das minhas IPAs preferidas), que não esconde as notas deliciosas liberadas pela lupulagem atrás de amargor, álcool e exagero. Com 6.6% de álcool, isso sim é uma Session IPA de responsa (para veteranos). Já a Antares Saison soa mais uma witbier bastante com muita condimentação. Falta rusticidade para o conjunto, que é agradável, mas não tão representante de um estilo arisco. Vale experimentar e comparar com uma Saison Dupont, que não precisa adicionar nada na receita para ser maravilhosa. A terceira Antares do lote é uma cerveja que eu já havia escrito quatro anos atrás, em 2011, e não me interessado muito na época. Agora, ainda que ela pareça um pouco pálida, consigo valoriza-la mais por entendê-la como uma English Imperial Stout, que não ataca tanto quanto uma versão americanizada (ou derivada dessa), e valoriza mais o malte. Já a Barley Wine da casa, vá entender, carrega no lúpulo, e não estranharia se alguém a rotulasse como Imperial IPA. Ainda assim, meio que fora do estilo, é uma cerveja bem interessante, e uma das melhores da casa, que, para mim, melhorou com o passar do tempo. No entanto, por estes quatro exemplares, a Antares, uma das primeiras cervejarias argentinas a se destacar, fica atrás da Grosa (Mendoza), possivelmente a melhor cerveja argentina da atualidade, da ótima linha da Berlina (Patagônia) e das ariscas cervejas da Triskell, de Buenos Aires.

Antares India Pale Ale
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Argentina
– Graduação alcoólica: 6,6%
– Nota: 3,41/5
– Preço pago em Buenos Aires: 43 pesos – 500 ml

Antares Saison
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Argentina
– Graduação alcoólica: 5,8%
– Nota: 3,25/5
– Preço pago em Buenos Aires: 43 pesos – 500 ml

Antares Imperial Stout
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Argentina
– Graduação alcoólica: 8,5%
– Nota: 3,31/5
– Preço pago em Buenos Aires: 43 pesos – 500 ml

Antares Barley Wine
– Produto: Barley Wine
– Nacionalidade: Argentina
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3,44/5
– Preço pago em Buenos Aires: 43 pesos – 500 ml

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)
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