Três HQs: Happy, Astronauta e Sandman

“Happy”, Grant Morrison e Darick Robertson (Devir)
por Leonardo Vinhas

Grant Morrison é conhecido por suas histórias cheias de aspirações metafísicas, temas grandiosos, combinações enlouquecedoras de física e religião, alta sexualização dos personagens e recuperação de elementos obscuros da cultura pop de décadas passadas – em definição mais preguiçosa, um doidão. Assim, surpreende que “Happy” seja um conto natalino – claro, desde que você não veja nada de estranho em uma fábula de Natal com violência explícita, alucinações químicas e referências à pedofilia. Na véspera da Noite Feliz, Nick Sax – ex-policial que caiu em desgraça e agora é um assassino por aluguel alcoólatra e viciado em jogatina – se envolve em um tiroteio e, baleado, vai parar no hospital. Lá, ele desperta enxergando um cavalinho azul alado, que diz que ele, Nick, é o único cara capaz de salvar uma garotinha de oito anos sequestrada por um tarado vestido de Papai Noel. A “trama” na verdade é uma desculpa para contrapor as visões do amargurado e niilista Nick sobre a humanidade com a visão infantilizada e otimista de Happy, o cavalinho. Afinal, a criatura é um amigo imaginário (da garotinha sequestrada) e enxerga o mundo com os valores de uma criança – a ponto de até mesmo vibrar com a morte dos “caras malvados”, mas se escandalizar com alguns palavrões do brutamontes. A arte correta de Darick Roberts, na escola semirrealista da Vertigo, e a falta de preocupação maior que entreter afastam qualquer possibilidade da obra ser mais que uma “sessão da Tarde” quadrinística e exagerada, mas não dá para negar que o humor de Morrison sempre vale o tempo dedicado à sua leitura.

Preço: R$ 54
Nota: 6

“Sandman: O Teatro do Mistério – O Tarântula”, Matt Wagner e Guy Davis (Panini)
por Adriano Mello Costa

Quando no final dos anos 80 o britânico Neil Gaiman começou a formular seu Sandman, pouca gente sabia que o título (embora o conceito fosse completamente diferente) já havia feito sucesso na Era de Ouro dos quadrinhos. Surgido em 1941, o Sandman original era um vigilante que lutava contra crimes diversos, em histórias de clima noir e com essência pulp. Esse Sandman não sobreviveu ao final da Segunda Guerra Mundial e sofreu cancelamento, mas foi revisitado a partir de 1993 por Matt Wagner e Guy Davis. Essa série durou até 1999 com um bom nível de qualidade chegando a ser publicada no Brasil pela Editora Abril em 1995, mas não foi até o fim. Em 2014, a Panini Comics resolveu disponibilizar novamente esse material e colocou o primeiro arco em um volume encadernado de 116 páginas chamado “Sandman: O Teatro do Mistério – O Tarântula”, reunindo as quatro primeiras edições. Essa reinvenção mostra Wesley Doods em 1938 tentando desvendar casos de mulheres sequestradas e assassinadas por um homem misterioso. Sem superpoderes, o personagem principal usa somente uma arma com gás sonífero e a inteligência para sobrepor os obstáculos. Com um roteiro sem furos e uma arte bastante peculiar de Guy Davis, esse momento do antigo herói é um saboroso prato para quem gosta de histórias com ambientação noir, suspense, uma pitada de terror psicológico e aventuras policiais, mostrando que a passagem dos autores pelo título não foi em vão.

Preço: R$ 23,90
Nota: 7,5

“Astronauta – Singularidade”, Danilo Beyruth (Panini)
por Leonardo Vinhas

“Astronauta – Magnetar” foi o primeiro lançamento do selo MSP, e é correto dizer que foi uma das grandes responsáveis pelas publicações seguintes – todas dedicadas a apresentar os personagens de Mauricio de Sousa na ótica de autores independentes. Parece justo, portanto, que ela seja a primeira a ganhar uma continuação (“Laços”, em que Lu e Vitor Cafaggi davam sua visão da Turma da Mônica, será a outra a merecer sequência). Assim como o “episódio inicial” usava uma situação clássica das histórias siderais – o “náufrago no espaço”, isolado do contato humano e com poucas chances de sobrevivência –, “Singularidade” recorre ao clichê do herói solitário que é forçado a aceitar parceiros na próxima missão espacial, vendo na relação com os outros suas limitações e potencialidades. A arte de Danilo Beyruth e, principalmente, as cores de Cris Peter, superam o antecessor, mas o argumento e os diálogos sofrem uma queda considerável, ajudando a criar uma obra que seria perfeitamente esquecível e dispensável não fosse pela bela arte e por criar uma cronologia – ou pelo menos um efeito de causa e consequência – no universo do personagem. O selo MSP estabeleceu um alto padrão, mas agora que o “efeito novidade” já passou, é preciso cuidado especial para que o alto padrão e o encantamento estabelecido nos lançamentos anteriores não se perca. Este volume quase dá uma escorregada nesse sentido.

Preço: R$ 19,90 (brochura) e R$ 29,90 (capa dura)
Nota: 6

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– “Astronauta – Magnetar” conquista por traço detalhista e nova cara ao personagem (aqui)
– “Laços”, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, faz releitura emocional e delicada (aqui)
– “MSP Ouro da Casa”: personagens de Maurício de Sousa ganham releitura (aqui)
– Entrevista com Sidney Gusman: “Tem quadrinhos para todos os gostos” (aqui)
– Três livros: MTV, “Pavões Misteriosos” e “John Lennon, Yoko Ono e Eu” (aqui)
– “Pavões Misteriosos” e outros 11 livros musicais lançados em 2014 (aqui)
– Três livros: Robert W. Chambers, Cadão Volpato e Joca Reiners Terron (aqui)
– “Diário de Inverno”: Paul Auster transforma medo da finitude em bonito livro (aqui)
– Uma das mais belas graphic novels dos últimos anos: “O Quinto Beatle; Brian Epstein” (aqui)
– “Strange Days”: as histórias de um jornalista musical em Los Angeles (aqui)

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