Três perguntas: Leonardo Panço

por Marcelo Costa

Leonardo Panço é um homem multitarefas: desde o começo dos anos 90 que ele atua em diversas frentes culturais seja tocando em bandas e gravando discos (Soutien Xiita e Jason), seja escrevendo livros (“Jason 2001: uma odisseia na Europa”, “Esporro” e “Caras Dessa Idade Não Leem Manuais”), seja lançando artistas pelo selo Tamborete (com destaque para Gangrena Gasosa e Zumbi do Mato).

Após sua saída do Jason, Panço encostou a guitarra e desencanou da música. Mas a música não desencanou dele, que, quando percebeu, já tinha o repertório para um álbum solo, o que resultou em “Tempos”, um disco repleto de convidados: Emmily Barreto e Cris Botarelli, do Far From Alaska, Gabriel Zander (Zander), Haroldo Paranhos (Maguerbes), Quique Brown (Leptospirose), Karina Utomo (High Tension) e Ive Seixas.

Liberado para download gratuito em 2014, “Tempos” ganha agora seu primeiro clipe. “Já queria ter feito um clipe assim no quarto disco do Jason, um pouquinho diferente do que era esse, mas com uma vibe caseira. Acabou saindo só agora”, conta Panço em bate papo por email. “Foi tudo muito simples, filmado com um S3, um app baixado de grátis na web e editado por um amigo num programa caseiro”.

“Existiam possibilidades de fazer três clipes”, ele explica. “Era ‘Desorgulho’, ou a faixa com o Haroldo, ‘Vê algo, fala algo’, ou ‘Tempo Templo’, com a Nancy. Passei essas duas pra duas pessoas e fiquei com uma. Um amigo desistiu, já que entramos em consenso que não estava ficando bom, e o outro é muito ocupado, mas pode ser que ainda saia. Vamos ver”. Assista abaixo ao clipe de “Desorgulho”. O disco pode ser baixado gratuitamente aqui.

Como surgiu a ideia de sair solo, e não só sair solo, mas lançar um álbum repleto de convidados? Foi fácil montar o quebra-cabeças?
Já tinha essa ideia de fazer o disco com convidados há mais de 10 anos, mas nunca tinha parado para fazer. Estava sempre gastando muita energia com o Jason, Tamborete, livros, marcar turnês, divulgação. Depois que saí do Jason realmente achei que não tocaria mais, minha guitarra nem em casa estava mais. Fiquei uns seis meses sem tocar, sempre que tentava não tinha prazer. Precisava muito desse descanso mental. Aí voltei a tocar, comecei a ver que tinha vários riffs, fui juntando, vendo que tinha músicas e pronto, resolvi fazer. Montar o quebra-cabeças não foi muito simples não. Algumas pessoas recusaram, teve gente que saiu depois de aceitar, sempre complexo, mas foi divertido montar.

“Blood Secret”, que abre o disco, é pesada e gritada, e tem uma conexão com o Jason, mas o disco todo é bem variado, com canções mais climáticas (“Sincerely”, por exemplo) e outras de pegada bem pop, como “A Busca”, que me lembrou New Order. Estar solo lhe liberou para experimentar sonoridades?
Ter que ser a voz final para tudo é ao mesmo tempo assustador e libertador, mas sempre foi ótimo. Nunca tinha gravado nada com teclados e desde o começo as faixas pediam o instrumento. E o que eu falei exatamente na hora de gravar foi: ‘Quero um som de teclado New Order’. O disco reflete um pouco o monte de coisas diferentes que eu ouço.

Li no Amplificador que você acha complicado tocar o disco ao vivo, pelas participações e tal. Você continua com essa ideia? Afinal, da ideia de montar uma banda pra tocar o disco pode surgir uma carreira solo. Você não pensa nisso?
Sigo sem vontade de tocar ao vivo sim. Tem tanto show por aí que ninguém vai ver, por que iriam no meu? Careceria ter uma energia mental muito grande que não tenho mais. De acreditar mesmo que aquilo vai crescer, funcionar cada vez melhor. E no momento não tenho. Que pessoa faria a voz da Ive, do Larry, da Karina, do Kayo? Desde abril (de 2014) comecei a gravar um segundo disco, instrumental, com 21 inéditas para vir encartado no quarto livro, ‘Superfícies’. Esse seria mais tocável, digamos assim. Apesar dos vários instrumentos. Mas aí teria que pagar os músicos, ensaiar. Acho que vou me manter em casa mesmo. Já tenho outros três discos em andamento, diferentes entre si, mas que posso nem gravar, ainda não sei.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– “Gostaria não de ser uma mega corporação, mas de crescer um pouco”, Panço (2005) (aqui)
– Marco Antonio Bart: “Existe o rrrrrrrrrroque carioca e existe o ROCK carioca” (aqui)

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