CDs: Cuarteto, La Vela Puerca, Andrés…

por Leonardo Vinhas

“Habla tu Espejo”, El Cuarteto de Nos (Warner)
A abertura engana: um resgate “atualizado” do bom pop oitentista, com mais velocidade que peso, teclados viciantes e uma letra esperta. “Como Pasa el Tiempo” promete uma guinada de direção para o Cuarteto de Nos, e ela acontece, mas de forma totalmente diferente que a primeira faixa de “Habla Tu Espejo” sugere. Roberto Musso, líder da banda, deu espaço a toda sua admiração pelo R&B e pelo pop superproduzido dos dias modernos e acabou com um monte de canções perfeitas para animar os karaokês de reality shows musicais. Duvida? Ouça “No Llora”, a primeira faixa de trabalho, uma balada piegas em homenagem à filha que poderia ser cantada, facilmente, por uma dessas cantoras genéricas que aparecem a cada três meses. “De Hielo” é um funk que não vai a lugar nenhum, e o final do disco, com “Caminamos” e “Un Problema Menos”, simplesmente constrange. “Roberto” é a única que remete à trilogia que fez a fama da banda (“Raro”, de 2006; “Bipolar”, de 2009; e “Porfiado”, de 2012), e mostra que a fórmula estabelecida anteriormente já havia cansado. Porém, daria para ser mais “sério” e “adulto”, como Musso manifestou querer, sem perder a qualidade. Estão aí para comprovar a balada (só piano e cordas) “21 de Septiembre”, a sombria faixa-título e a já citada “Como Pasa el Tiempo”. Grandes faixas escondidas num disco desigual. Aguardemos os próximos capítulos.

Preço: R$ 60 (importado)
Nota: 5

Leia também:
– Entrevista: “O Uruguai é um mercado muito pequeno para poder subsistir” (aqui)

“Érase”, La Vela Puerca (Mi Semilla Records)
Esse era o disco que o La Vela Puerca estava devendo como o sucessor de facto de “El Impulso’ (2007). “Piel y Hueso” (2011) retrocedia em sonoridade (mais punk, apesar de seis faixas acústicas) e lírica (mais adolescente); além dele, dois registros ao vivo (“Normalmente Anormal”, de 2009, e “Uno para Todos”, de 2014, ambos também em DVD) e dois EPs de sobras (um CD extra no lançamento de 2009 e o digital “Pasaje Salvo”, de 2013). Livre da necessidade de esvaziar o baú, a banda pode seguir em frente e dar sequência à maturidade manifestada no disco de 2007 e levá-la adiante, descartando a rigidez da wall of sound de então para dar destaque às sutilezas, presentes mesmo quando a guitarra fala mais alto. Há uma divisão conceitual em três “capítulos”, mas estão presentes todas as facetas do octeto uruguaio: o apreço pelo folclore, os metais exaltando explosões melódicas, o rock de estádios mais urgente e as baladas entre a melancolia e a esperança. Porém, dessa vez a dosagem dos ingredientes tem uma precisão tão rara que é difícil ter parâmetros para falar sobre ela. Soa como um disco que celebra um grande momento, tão pessoal quanto artístico, da banda. E é.

Preço: R$ 60 (importado)
Nota: 8,5

Leia também:
– Entrevista: “Hoje o rock uruguaio está bem presente no cenário argentino” (aqui)
– O EP “Pasaje Salvo” funciona apenas como presente para fãs (aqui)
– La Vela Puerca ao vivo: “Experiência quase religiosa sem religião alguma envolvida” (aqui)

“Aurora”, Andrés Correa (independente)
O colombiano Andrés Correa sempre buscou uma voz própria para filtrar suas influências, que vão de Fito Paez a Cazuza, de Aterciopelados ao cancioneiro colombiano dos anos 70. “Aurora”, seu quarto disco solo (ele lançou outros dois álbuns com os projetos Socios Ociosos e Correa Ramiréz Andrés y los Auténticos Water Resist), é a concretização desse seu objetivo. O disco é belo e vigoroso, mesmo sendo majoritariamente acústico e introspectivo, e pinta com as melhores tintas um retrato indelével de seu talento. Executado por ótimos músicos – destaque para o guitarrista Camilo Granados e para o tecladista Ricardo Muñoz – “Aurora” prende a atenção já na primeira audição, ganhando o ouvinte de várias formas: com a interpretação sentida de “Día de La Independencia”, a cadência jazzy de “Fui”, a sutileza apaixonada de “Capitán del Espacio” ou os compassos de valsa embalados em roupagem folk de “Realidad”, uma das melhores canções de 2014. Um daqueles discos que você sabe, desde o primeiro que dedica atenção a ele, que será alvo de um discreto e indissolúvel amor.

Preço: download gratuito em http://andrescorrea.com.co/
Nota: 9,5

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– Crema del Cielo: “É difícil entrar no circuito seja você de Buenos Aires ou não” (aqui)
– Cinco acústicos da MTV Latina para assistir online na integra (aqui)
– Cinco músicas para entender… Los Fabulosos Cadillacs  (aqui)
– Café Tacvba: “Talvez estejamos numa etapa mais épica em nossas vidas” (aqui)
– Bestia Bebe: Espírito de intimidade e camaradagem traduzido em música (aqui)
– Um dos nomes mais celebrados do rock independente argentino: Valle de Muñecas (aqui)
– Fito Paez: “Importante é a relação construída com as pessoas” (aqui)
– João Barone: “Charly García e Fito Páez influenciaram Herbert mais que qualquer artista (aqui)
– Los Mentas: “Chegamos aos 15 anos justamente por não nos levarmos muito a sério” (aqui)
– Ariel Minimal: “O público sabe que não pode exigir nada de nós” (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *