Cinema: O Abutre, Dan Gilroy

por Marcelo Costa

Los Angeles. O nome da cidade californiana numa frase sobre um filme antecipa uma série de ideias sobre cinema e Hollywood, mas “O Abutre” (“Nightcrawler”, 2014), estreia na direção do roteirista Dan Gilroy (aos 55 anos), não tem nada a ver com o universo das celebridades, tapetes vermelhos e calçada da fama de LA, muito pelo contrário: o que move o filme (ainda que tenha relação com a mídia) acontece à noite na periferia da cidade, e, como já cantou sabiamente Edy Rock num disco dos Racionais, periferia é periferia em qualquer lugar.

O título original do filme, “Nightcrawler”, fala sobre algo que sai rastejando à noite, como uma cobra, e a boa tradução nacional (que aproxima inconscientemente Dan Gilroy do Pablo Trapero de “Carrancho”, de 2010, também traduzido no Brasil como “Abutres” e de ponto partida semelhante) abre ainda mais o leque, já que um abutre, de característica necrófaga, fica rondando suas vítimas à beira da morte até o momento do ataque, leitura que cabe perfeitamente no personagem Lou Bloom, interpretado com excelência por Jake Gyllenhaal.

Típico homem à margem da sociedade, Lou Bloom não tem amigos e, forçado a conviver consigo mesmo, apagou qualquer traço que pudesse ter de sentimentos, transformando-se praticamente num robô: ele não pisca em nenhum momento quando conversa e sua fala, rápida e decorada, não muda de tom em momento algum, esteja ele falando sobre as vantagens da organização de uma empresa ou convidando uma mulher para o sexo: as palavras saem de forma ilusoriamente vibrante, mas antagonicamente sem nenhuma  emoção.

Como milhares de norte-americanos (e brasileiros, e espanhóis, e gregos…), Lou Bloom sofre com a crise do desemprego, e prepara-se devorando apostilas de cursos online e assistindo a vídeos profissionalizantes no Youtube, à espera do momento certo. Enquanto a hora não chega, ele se vira como pode furtando e revendendo coisas, seja um relógio, seja um punhado de cobre, que ele repassa para uma empresa sem antes apresentar seus conhecimentos ao dono, pedindo um emprego. A resposta é direta: “Não contrato ladrões”. Não foi dessa vez.

A porta da esperança se abre para Lou Bloom quando ele passa por um acidente, e percebe o circo que, em poucos segundos, é montado ao redor da tragédia, com câmeras, repórteres e até helicóptero registrando imagens do carro em chamas. O abutre sente cheiro de algo, e começa a se dedicar à profissão de cinegrafista amador, percorrendo tragédias em busca da melhor imagem, que poderá ser vendida a uma rede de televisão, lhe render alguns trocados, e, quem sabe, uma profissão. Afinal, a mídia não só contrata “ladrões”, ela os mitifica.

Tal qual um hacker que encontrou uma falha no sistema, Lou aproveita a sua chance honrando a frase “esse é um serviço sujo, e alguém precisa fazê-lo”, ainda que, em sua cabeça, não exista espaço para julgamentos entre certo e errado, ético e antiético, sujo e limpo. Animado pela acolhida da editora do canal de TV, Nina Romina (Rene Russo impressionante aos 60 anos), que compra seus vídeos e o incentiva, Lou Bloom inicia uma escalada profissional aproveitando-se dos degraus defeituosos da sociedade, sem nenhum sentimento de culpa.

Thriller excelente, ainda que com falhas bestas (de assassinos que usam escopetas, mas não placas frias para o carro até cinegrafista que altera a cena do crime em busca de um ângulo melhor deixando suas digitais em tudo, e não sendo descoberto), “O Abutre” coloca em discussão um número vasto de temas relevantes em seus 117 minutos vertiginosos: da ascensão e aceitação dos sociopatas, da ética da mídia em contraponto a necessidade de audiência, do impacto viciante das tragédias nas pessoas, do capitalismo sem escrúpulos.

Atento a estes temas, “O Abutre” soa como uma atualização inconsciente do clássico “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), de Billy Wilder, em que um jornalista (Kirk Douglas em atuação impecável) cria (conscientemente) um circo midiático em torno de uma história que acabará em tragédia. O fato de Lou Bloom não ser jornalista e ter um final diferente do personagem de Kirk Douglas em “A Montanha dos Sete Abutres” diz muito sobre as mudanças pelas quais a profissão, a mídia e o próprio público passaram nos últimos 60 anos.

Lou Bloom também tem certo parentesco com Rupert Pupkin, personagem de Robert De Niro no genial “Rei da Comédia” (1983), de Martin Scorsese. Desesperado por sucesso e fama, Pupkin sequestra um apresentador, aparece em seu lugar na TV, é preso, mas vira celebridade. Em “O Abutre”, não é a pessoa física de Lou que se transforma em celebridade, mas a pessoa jurídica, sua empresa, sua corporação. Apesar de desajustados socialmente, Lou e Pupkin, cada um a sua maneira, encontram uma América de braços abertos.

Com fotografia impactante de Robert Elswit (grande parceiro de Paul Thomas Anderson), que recomenda assisti-lo no cinema, e ótimas atuações de Jake Gyllenhaal e Rene Russo, “O Abutre” é o retrato (ensanguentado de Dorian Gray) de uma sociedade cada vez mais viciada na espetacularização da tragédia (não de hoje: a circulação das imagens do acidente com os Mamonas Assassinas anos atrás retrata a sedução que o grotesco exerce sobre algumas pessoas) e em discursos de autoajuda (dá-lhe “O Segredo” e outros). Para chocar e pensar.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– “O Rei da Comédia” é o filme definitivo sobre o vazio da indústria de celebridades (aqui)
– O desfecho trágico de “A Montanha dos Sete Abutres” diz muita sobre o jornalismo (aqui)

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