Três Filmes: Scorsese 1977, 1981, 1993

por Marcelo Costa

“New York, New York” (1977)
Sempre fugi desse filme, por vários motivos. Uma por ser um musical, gênero que comecei a admirar de poucos anos pra cá (e ainda assim alguns poucos passam pelo crivo). Dois por ter Liza Minnelli, que sei lá qual motivo, eu não ia com a cara. E três pelo próprio filme ser uma ovelha negra dentro da cinematografia do Scorsese, uma película que o próprio diretor admite ter sentimentos negativos. Agora aos fatos: “New York, New York” choca musical com romance (o que, inclusive, explica sua duração exagerada: 2 horas e 43 minutos – o próprio Scorsese diz que deveria ter sido mais conciso), e isso soa bastante interessante. Dois: Liza dá um show. Ok, não há química dela com De Niro, mas a culpa é mais dos personagens antagônicos (dificilmente existiu no cinema um casal tão diferente um do outro, ela doce, ele mala) do que da qualidade (inegável) dos atores. Por fim, “New York, New York” soa exageradamente exagerado (de modo até tolo), o personagem de De Niro é chato até não poder mais (o que prejudica a aproximação do espectador), o romance pesado (movido a ciúmes, disputas e brigas) não flui, mas há uma boa ideia (e mesmo um bom filme) atrás de tudo isso. Só é preciso ter muita paciência…

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“O Rei da Comédia” (“The King of Comedy”, 1981)
Eis outro filme do Scorsese que sofria de pré-conceito aqui em casa, e eu nem sei explicar o motivo. Só fui deixando, deixando e deixando para trás sem saber que estava menosprezando um dos melhores filmes do diretor (agora Top 5 fácil). Nesta afiadíssima comédia de humor negro, Jerry Lewis faz o papel de Jerry Langford, um famoso e consagrado comediante de sucesso (um misto de Jô Soares com Silvio Santos) que é sequestrado por uma fã e um psicopata pretendente a humorista. A fã (daquelas loucas que sabem tudo sobre o astro) deseja ser groupie – em papel ótimo de Sandra Bernhard. O psicopata (vivido por um De Niro estupendo) quer… fama e reconhecimento. O roteiro esperto de Paul D. Zimmerman vasculha (e critica) com sobriedade o universo das celebridades, e nas mãos de Scorsese se transforma em um filme absolutamente brilhante, sarcástico, irônico, “aterrorizante” (grifo do próprio cineasta) e, num mundo dominado por paparazzis, atualíssimo. Um retrato ao mesmo tempo realista e absurdo do mundo moderno. “O Rei da Comédia” é, talvez, o filme definitivo sobre o vazio da indústria de celebridades. E uma pequena obra prima de humor negro.

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“A Época da Inocência” (“The Age of Innocence”, 1993)
Um dos filmes mais bonitos de Martin Scorsese (não à toa, levou o Oscar de Melhor Figurino), e um dos mais doloridos, “A Época da Inocência” se passa na Nova York de 1870, e é crudelíssimo, um daqueles romances clássicos, retrato de uma época em que era obrigatório seguir as convenções da sociedade. Ou, como diz o encarte que acompanha o DVD, é uma história de violência em que a etiqueta substitui as balas: “Não é o sangue que espirra, mas almas”. Em certas passagens remete a “A Letra Escarlate”, de Wim Wenders (1973), sendo que a marca que Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer) carrega é invisível. Também mantém um paralelo com “Desencanto” (1941), de David Lean, o romance engasgado no peito dos amantes. “A Época da Inocência” soa ainda mais cruel, pois é possível acompanhar a derrocada lenta de Newland Archer (Daniel Day-Lewis), e a acomodação do personagem, obrigado a sufocar o romance. O corpo sofre a ausência, a falta do toque, a distância, mas o amor sobrevive ao tempo – em completo silêncio. “A Época da Inocência” é a vitória da razão sobre o desejo, muito embora mesmo a razão esteja completamente apaixonada. Cruel.

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– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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