Boteco: da Bélgica, Corsendonk Pater e Agnus

por Marcelo Costa

O Priorado de Corsendonk, localizado na cidade de Oud-Turnhout, na provícia da Antuérpia, no norte a Bélgica, foi fundado em 1398, e teve suas atividades encerradas em 1784, durante a Revolução Francesa – cinco anos depois, as propriedades do Priorado foram confiscadas e colocadas a leilão. Em 1968 (ou seja, quase dois séculos depois), as propriedades do Priorado foram adquiridas por um grupo de investidores, que a transformaram em um complexo hoteleiro, Corsendonk Hotels. Em 1982, no 125º aniversário do município Oud-Turnhout, o escritório de turismo local teve a ideia de utilizar o nome Corsendonk, por sua associação com a abadia, para uma nova cerveja, que desde então passou a ser produzida pela cervejaria Du Bocq (que, dentre outras cervejas, também produz a Gauloise). Abaixo, os dois rótulos mais famosos da marca.

A Corsendonk Pater (vendida nos Estados Unidos como Corsendonk Abbey Brown Ale) é uma Belgian Dubbel cuja receita une os maltes Caramel, Pilsen e Munich Barley com os lúpulos Saaz, Kent e Hallertau mais levedura belga. De bela coloração rubi e creme bege de excelente formação e extensa permanência, a Corsendonk Pater exibe um aroma delicado que remete a frutas escuras (ameixa em destaque, mas também figo), doçura (caramelo e baunilha) e sugestão de condimentação (cravo, provavelmente derivado da levedura). Na boca, a entrada é adocicada (caramelo e baunilha) e, ao mesmo tempo, frutada (ameixa e figo). O amargor é pontual e traz um pouco dos 7.5% do álcool, ainda assim muito bem escondidos. A levedura esquenta a língua e o começo da garganta, mas o conjunto, em si, é bastante suave reforçando as sensações de frutas e doçura. O final é caramelado, frutado e picante enquanto o retrogosto reforça a sensação trazendo consigo calor.

A Corsendonk Agnus (vendida nos Estados Unidos como Corsendonk Agnus Pale Ale) é uma Belgian Tripel que traz na receita um blend de maltes Plaisant e Triumph, mais trigo, levedura belga e três estilos de lúpulos (Styrian Goldings, Hallertu Herzbrucker e Kent Challenger). De coloração dourada com um leve toque âmbar, a Corsendonk Agnus exibe um creme de de excelente formação e extensa permanência. O aroma apresenta bastante doçura (tanto caramelo derivado de malte, quanto açúcar e calda de frutas), notas florais e sugestão de condimentação (típica de levedura belga) em primeiro plano, e abre espaço na retaguarda para um leve toque frutado (banana e pera). Na boca, doçura frutada encantadora (pera), amargor comportado de álcool (7.5%) e picancia de levedura. Ainda é possível perceber um leve toque de caramelo e banana (e a força da alta carbonatação). Final caramelado, alcoólico e seco. No retrogosto, calor e caramelo.

Balanço
Não sei o motivo (lidar com expectativa é sempre algo bastante complicado), mas eu esperava mais da Corsendonk Pater. Não que ela seja uma cerveja abaixo do nível, muito pelo contrário, mas o pacote todo “vende” uma cerveja de abadia com um algo a mais, e o conjunto me pareceu aquém disso. Ainda assim, uma boa Belgian Dubbel. O mesmo pode ser dito da Corsendonk Agnus, um Tripel melada, frutada e alcoólica, com jeitão belga de ser, mas sem algo que demonstre personalidade. É “apenas” uma boa Tripel belga que surgiu ancorada em uma propaganda marqueteira, mas que ainda assim qualidade (as aspas servem para valoriza-la, já que só de ser uma autêntica Tripel belga já é de se respeitar).

Corsendonk Pater
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,69/5

Corsendonk Agnus
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,70/5

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