Boteco: da Noruega, as cervejas da HaandBryggeriet

por Marcelo Costa

A HaandBryggeriet é uma micro cervejaria norueguesa fundada em 2005 numa antiga fábrica de meias datada de 1874, que ficava em um conjunto habitacional de Drammen, uma cidade de cerca de 60 mil habitantes a menos de 50 quilômetros da capital Oslo. Em 2011, já com certa fama, a cervejaria se mudou para uma antiga oficina ferroviária devido ao aumento da produção, que era de 40 mil litros em 206 e passou para 350 mil litros em 2012. Hoje, além de uma vasta carta de cervejas experimentais, a HaandBryggeriet organiza um festival anual de cervejas em Drammen, e é, junto a Nøgne Ø, uma forte representante da revolução cervejeira na Escandinávia. Suas cervejas são encontradas com facilidade na rede de Vinmonopolet norueguesa, e com mais dificuldade em outros países. Mas vale ficar atento às cervejas desta turma, porque as cinco abaixo (que vieram na mala da viagem a Oslo) indicam que eles costumam fazer coisas muito boas.

Começando o passeio pelas cervejas da HaandBryggeriet com a Hesjeøl, uma Tradicional Ale norueguesa que segue os moldes das Farmhouse Ales belgas, ou seja, era feita antigamente para os trabalhadores da região beberem pós labuta. Nesta recriação da turma de Drammen, a Hesjeøl apresenta uma coloração âmbar caramelada com turbidez aparente e creme levemente alaranjado de ótima formação e média alta permanência. No nariz, uma bela surpresa em um conjunto que traz sugestão de notas florais, herbais (feno, ervas e cereais), especiarias, suave caramelo e leve defumado. Na boca, a doçura de mel no primeiro toque, reforço de notas florais e herbais e maior presença de defumado, ainda que de forma comportada. O conjunto entrega de forma perfeita o que pretende passar: sensação de fazenda, colheita, campo. O final é maltado, herbal e defumado. No retrogosto, mel, herbal (ervas) e leve defumado. Uma delícia.

Da série Haand Special Berry Collection – da qual fazem parte ainda as versões com Blåbær (Mirtilo), Tindved e Krekling (Crowberry) – da cervejeria de Drammen, a Rips (groselha em norueguês) é uma Sour de 7% de álcool e levedura selvagem bastante influenciada pelas Lambics belgas. De coloração âmbar alaranjada com turbidez aparante e creme branco de média formação e rápida dispersão, a Haandbryggeriet Rips apresenta um aroma terroso (sugerindo acidez e azedume) e docemente frutado (frutas vermelhas e damasco). Na boca, acidez moderada, azedume agradável e um toque salgado recebem o acréscimo da notas da fruta adicionada, que inserem doçura frutada (groselha e amora). Há sugestão terrosa e absolutamente nenhuma percepção dos 7% de álcool. O final é levemente amargo, ácido e terroso enquanto o retrogosto traz frutas vermelhas, azedinho e leve toque maltado. Delícia.

A HaandBryggeriet Ardenne Blond é uma refrescante Saison cuja receita une três tipos de malte (Lager, Cristal e Trigo) com levedura belga, água norueguesa e adição de semente de coentro. Descansa na garrafa, refermentando, algumas semanas antes de ir ao público. De belíssima coloração amarelo palha (tradicional do estilo) e creme branco de ótima formação e média alta permanência, a Ardenne Blond exibe um aroma deliciosamente floral, com leve sugestão frutada (banana, limão e pêssego), cereais (trigo) e condimentação (pimenta do reino e semente de coentro). Na boca, aquela suavidade refrescante que o estilo proporciona em um conjunto que valoriza as notas florais e frutadas (limão), condimentadas (coentro) e herbais (ervas e cereais). O final é suavemente amargo, cítrico e condimentado. No retrogosto, refrescancia, floral e leve picancia.

A HaandBryggeriet Tornerose é uma Sour Ale que recebe adição de cerejas da cidade de Svelvik e é envelhecida por um ano em velhos barris de xerez espanhol. Só teve uma brasagem até agora, em agosto de 2012. De coloração vermelho pálido com feixes alaranjados e creme levemente rosa de baixa formação e rápida dispersão, a Tornerose apresenta um aroma que destaca, em primeiro plano, as notas frutadas derivadas da cereja adicionada na receita. Junto dela, sugestão terrosa e condimentada derivada da levedura selvagem. Há ainda percepção de acidez, azedume e salgado (e nada dos 8% de álcool). Na boca, tudo que o aroma anuncia torna-se realidade: o primeiro toque traz rápido toque de cereja atropelado violentamente por um conjunto ácido, azedo, salgado e avinagrado. O frutado retorna mais encorpado depois trazendo consigo percepção de xerez. O final é frutado (cereja), azedo e amargo. No retrogosto, cereja, azedume, salgado e acidez. Uma baita sour para poucos.

Odin, o deus principal da mitologia nórdica, era um ser forte, mas repleto de dualidades (não só era o símbolo da vitória como também da morte), e a HaandBryggeriet escolheu-o para nomear sua cerveja mais aclamada, a Odin’s Tipple, uma Russian Imperial Stout de 11% de álcool, levedura selvagem e um caminhão de malte chocolate, que amaciam o conjunto sem enjoar o bebedor. De coloração preta intensa com creme bege escuro de média alta formação e muito boa permanência, a Odin’s Tipple apresenta um aroma, em primeiro plano, tanto achocolatado (puxando para o amargo) quanto alcoólico. É possível ainda perceber leve toque de café, baunilha, frutas escuras (ameixa) e suave defumado. Na boca, uma suavidade que impressiona: há bastante chocolate com amargor assertivo, mas não agressivo. O álcool dá umas estilingadas, mas não assusta. O conjunto desce suave, agradável, com final levemente amargo e achocolatado. No retrogosto, calor, chocolate e suave café. E… amor.

Balanço
De cara, uma bela surpresa com a Hesjeøl, uma Tradicional Ale interessantíssima, que entrega o que propõe: transportar o bebedor para uma fazenda (acrescentando um saboroso toque defumado). Delícia. Já a Rips é da linha Sour da casa (erroneamente creditada como Fruit Beer em alguns sites), que traz tudo aquilo que o estilo adianta: azedume, acidez e salgado que se misturam a groselha adicionada na receita. Não é uma cerveja fácil, mas é uma delícia (principalmente para fãs de lambics). Já a Ardenne Blond é uma releitura norueguesa do estilo belga Saison, e é tão boa que eu terminei os 500 ml antes de terminar o texto. E são 7.5% de álcool, imperceptíveis. Paixão. A Tornerose foi uma surpresa especialíssima (comprada às cegas), uma sour caprichada indicada para poucos (não a toa, teve só uma brasagem até hoje, em agosto de 2012, e é a mesma que continua no mercado) despejando amargor, azedume, acidez e avinagrado num conjunto amaciado por cerejas. Uma experiência. Fechando o quinteto, a estrela da casa, o deus da vitória (e da morte) Odin’s Tipple, uma das Russian Imperial Stout mais suaves que já bebi, uma cerveja de 11% de álcool que desce macio e coloca um sorriso na cara do bebedor.

HaandBryggeriet Hesjeøl
– Produto: Tradicional Ale
– Nacionalidade: Noruega
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,75/5
Preço pago em Oslo: R$ 26 – garrafas de 500 ml

HaandBryggeriet Rips
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Noruega
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,44/5
Preço pago em Oslo: R$ 26 – garrafas de 500 ml

HaandBryggeriet Ardenne Blond
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Noruega
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,50/5
Preço pago em Oslo: R$ 18 – garrafas de 500 ml

HaandBryggeriet Tornerose
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Noruega
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,61/5
Preço pago em Oslo: R$ 28 – garrafas de 500 ml

HaandBryggeriet Odin’s Tipple
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Noruega
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3,99/5
Preço pago em Oslo: R$ 32 – garrafas de 500 ml

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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