Cícero, entre a crítica e o fã clube

por Renata Arruda

O repertório de “Sábado”, segundo disco lançado pelo compositor Cícero em 2013, não tem apelo suficiente para alcançar uma audiência maior que aquela conquistada a partir de 2011 com o álbum “Canções de Apartamento” (Independente) e o músico merece aplausos por sua coragem ao evitar se repetir e tentar algo novo, mas afastando o discurso sóbrio de suas entrevistas pré-lançamento de “Sábado”, onde o músico dizia estar ciente de que poderia inclusive perder alguns admiradores ao arriscar um trabalho que fugia da possibilidade de viralizar, Cícero não estava preparado para a recepção real que o álbum teria.

Talvez o sucesso inesperado e a aparição em tantas listas de Melhores do Ano de 2011, repletas de confetes e até exageros como o do site Embrulhador ao dizer que “provavelmente os seus netos ouvirão Canções de Apartamento como você, lá atrás, ouviu Transa”, deixaram o músico confiante de que seria recebido com pelo menos alguma condescendência; porém, o que se viu foram críticas particularmente mais assertivas – o que vez ou outra acaba acontecendo com artistas-sensação e seus lançamentos cercados de expectativas que, quando frustradas, acabam influenciando mais a análise que o próprio trabalho em si.

Se relacionando tão intimamente com sua obra a ponto de confundir-se com ela, o artista parece ter levado as críticas para o âmbito pessoal e, sentindo-se atacado por todos os lados, se recolheu. Após o lançamento de “Sábado” foram menos entrevistas, menos shows e uma quase ausência de movimentação em suas redes sociais – mesmo o Facebook, onde o artista se fortaleceu, e hoje deleta regularmente seus posts – em comparação à época de “Canções”. Mas o músico ainda acompanha tudo que se fala dele e um recente episódio durante um show em Goiânia deixou no ar a impressão de que faz isso quase obsessivamente.

Em um vídeo disponível no YouTube, a pedido do próprio cantor, Cícero aparece rasgando o jornal local O Hoje, de Goiânia, que trazia uma crítica negativa sobre o seu trabalho. Ainda que a atitude um tanto afetada possa ser encarada como uma brincadeira, o recado do músico era sério: parecia que Cícero estava dizendo a todos e a si mesmo que não estava mais se deixando abater pelo que se diz dele. A maneira mais agressiva que divertida de transmitir o recado deixa no ar tanto a impressão de que as críticas são entendidas como verdadeiros ataques pessoais quanto expõem uma possível fragilidade e insegurança de alguém que busca aprovação. Mas se de um lado tal aprovação não está partindo da crítica, por outro Cícero mantém um séquito de fãs fieis em que um punhado considerável de jovens deslumbrados massageia diariamente o seu ego através de dezenas de declarações de amor a cada aparição do cantor em suas redes.

E é obviamente em seus fãs que Cícero vem se apoiando. Se mantendo acessível e atencioso, o músico valoriza seu público e demonstrou isso também no dia 14 de novembro durante o show de encerramento da turnê de “Sábado”, que aconteceu no teatro Rival, no Rio de Janeiro. Cantando para uma plateia que não chegou perto de lotar o teatro (para o segundo dia de apresentação, foram oferecidos ingressos a 10 reais para aqueles que compareceram no dia anterior), Cícero repetiu o quanto estava feliz em ver que aquelas pessoas saíram de suas casas em uma sexta-feira chuvosa para vê-lo (em um final de semana onde enfrentou uma concorrência de peso, com Paulinho da Viola tocando no Circo Voador, e com os Arctic Monkeys no Brasil), e estava à vontade tocando para uma plateia animada, que cantava todas as músicas a plenos pulmões – principalmente as do “Canções de Apartamento”.

Apesar disso, a apresentação foi burocrática, com Cícero emendando uma música após a outra sem muitas pausas e sem nenhuma surpresa, fazendo com que o show de encerramento não tivesse nada de especial em relação aos outros da mesma turnê além das quatro caixas de som extra, que permitiram uma experiência sonora mais rica em detalhes. Mesmo assim, os fãs que aguardavam o cantor desde seu último show na cidade em janeiro deste ano, fizeram uma verdadeira festa e parecem não ter do que reclamar.

Encerrada a turnê, Cícero promete um álbum para o ano que vem. Há um interesse natural em saber qual e como será o próximo passo do cantor, que demonstra ainda não ter aprendido a lidar com críticas, e que pode correr o risco de ficar preso às mesmas antigas canções, que uma hora devem começar a se esgotar. Porque, como disse André Midani a respeito da nova geração de músicos brasileiros, “é impecável em todos os sentidos, mas é um coquetel de Chico e Caetano terrível. Quando é que vamos sair deste engodo? Porque passa a ser um engodo hoje em dia, um engodo feliz, maravilhoso. Mas não deixa de ser um engodo”. Será que Cícero tem estofo para se diferenciar da turba? 2015 promete.

– Renata Arruda (@renata_arruda) é jornalista e assina o blog Prosa Espontânea. As fotos que ilustram o texto são de Liliane Callegari, tiradas na Praça do Patriarca, em SP. Veja outras aqui.

Leia também:
– “Com seu segundo disco, Cícero fez de sábado um dia ruim”, por Jorge Wagner (aqui)
– Entrevista: “Canções de Apartamento” é a forma como vejo o mundo, diz Cícero (aqui)
– “Canções de Apartamento” entre os 25 melhores discos nacionais de 2011 (aqui)
– Wado: “MoMo e Cícero estiveram muito presentes na gravação de Vazio Tropical” (aqui)
– Cícero participa do show de lançamento de “Vazio Tropical”, de Wado, em SP (aqui)

24 thoughts on “Cícero, entre a crítica e o fã clube

  1. espero que ele continue fazendo este trabalho sincero, quanto o ‘canções’ quanto ‘sábado’, fizeram parte de uma fase muito boa da minha vida.
    não de pode esperar um sucesso incremental num trabalho tão autoral.

    parabéns renata pelos pontos levantados no texto e ao site pelo conteúdo!

  2. A trajetória torta do Los Hermanos sendo requentada dez anos depois.

    Pensando num escopo um pouco menor, afinal, não temos Bonadio e jabás, o primeiro disco viralizou tal qual a Anna Júlia. Esse segundo disco saiu com a mesma pretensão que os barbudos tiveram com o Bloco, “vamos soar inteligentões, doa a quem doer”, apanhou de quem gostava do primeiro e começou a se fechar e ser rude. Amarante falando que o jornalista estudou pouco durante uma entrevista pode estar ao lado do Cícero rasgando uma crítica. A consequência disso é algo que o grande trunfo do Los Hermanos, é fidelizar cada vez mais seus fiéis fãs, aqueles que se esguelam nos shows tal qual a Beatlemania ao som de I Want You Hold Your Hand e que os colocam num pedestal, defendendo com unhas e dentes nas discussões reais ou virtuais.

    Torço para que o Cícero, assim como o Wado, consiga se desgarrar desse gênero de “música para cultivar samambaias” e voltem a fazer algo que realmente instigam o ouvinte.

  3. Eu acho que não tem nada a ver com Los Hermanos, Christopher, me permita discordar.

    O primeiro disco do Cicero não teve 1% do alcance de massa que o primeiro do Los Hermanos teve. O Bonadio e a Abril transformaram Anna Julia na musica mais tocada do ano no país todo. Foi uma febre. A verdade é que, em escala nacional, meia dúzia de pessoas ouviu esse Canções de apartamento, mas essa meia dúzia toda estava no Facebook. O Los Hermanos foi um fenômeno radiofônico, o Cícero foi um fenômeno de redes sociais. São décadas brutalmente diferentes. O público em questão é totalmente diferente de qualquer outra década. Se formos ver as décadas anteriores tem outros artistas como uma trajetória bem parecida (ou idêntica) ao Cicero. Comparar com los Hermanos porque ambos fizeram marchinhas tristes me parece errado. Moraes Moreira fez marchinhas mais parecidas com Tempo de Pipa do que os Hermanos, por exemplo, e sua trajetória solo me parece mais próxima a do Cícero, também por exemplo. Moraes Moreira, Alceu Valença… A histeria pelos hermanos tem paralelo no Teatro Magico, com todo um comportamental/estético agredado à música. Ja fui em shows do Cícero e ele soa mais como um “ídolo possível” para garotada, precário como seus fãs… algo como a identificação se dar pelas imperfeições e inabilidades. É nítido que seus fãs absorvem as características do Cícero como deles próprios. Por isso ele tem fãs mesmo sendo desafinado, esquisito e nitidamente desequilibrado. Não tenho mais idade para ser fã de ninguém, mas torço para que o Cícero não se perca e não acabe como dezenas de outros artistas talentosos que não souberam lidar com a própria cabeça.

  4. Concordo com o Wagner, não se pode esperar (ou cobrar) sucesso de mercado num trabalho tão autoral… no vídeo do André Midani na Polivox é muito nítido que ele fala do Cícero, e mais nítido ainda que é do Canções de Apartamento, que todo mundo sabia (ou deveria saber) que era um mash-up de referências. Resultado: foi classificado como “engodo” pelo maior diretor artístico que esse país já teve. Sábado definitivamente não é um engodo, e foi classificado como “ruim” por crítica e público. Não há saída para essa equação além da busca por um mercado que o absorva, já que se os discos são de graça, a grande mídia não o absorveu e o indie nacional não se sustenta ele vai viver de que? mais um artista independente que periga amanhã trabalhar com outra coisa. Inteligente foi o Camelo que foi morder o mercado do Lulu Santos com a Banda do Mar…

  5. Eu ia escrever,mas o Paulo Freire disse tudo,mas acho que vou dizer,hehe.

    Cicero ficou encantado(ou seria “assustado”?)com a recepção do Canções de Apartamento e decidiu se fechar.Por conta disso,e também porque queria dar uma de dificil,acabou fazendo Sábado assim.Eu não achei decepcionante o resultado,mas poderia ser um disco melhor bem feito,mais produzido,e por que não,mais facil.E ai ele se apoia nos fãs,por ser imperfeito,como disse o Paulo.Problema é que Cicero não é Camelo e Amarante,que fazem o que querem,do jeito que querem,batem de frente com a má imprensa e põem os fãs,que só aumentaram,e os criticos na mão deles.E foram felizes com isso.Não acredito,porém,que Cicero vai dar certo se seguir essa formula.Acho meio bobo esse negocio de rasgar jornal na frente do publico se extasiar,apagar post do facebook,muito bobo isso.Ele não tem estofo pra isso,não tem solo pra se agarrar,e se ele acha que os fãs são esse sol,ele pode se dar muito mal.

    Só espero que ele se recupere.Soube que ele se mudou pra São Paulo,talvez os ares resolvam nisso,talvez e porque não uma ingerência da gravadora também faça isso.A aguardar.

  6. Nesta pegada “pierrot retrocesso meio bossa nova e rock’n roll” o Brasil está bem servido há pelo menos 13 anos. O fato do Cícero gostar ou não do rumo da sua carreira é um lance que cabe apenas ao próprio. Nem é o último fenômeno musical indie brasileiro da internet. Contudo, nada disso nos impede de desejarmos o melhor para o carioca. Vida que segue.

  7. Fui no show dele aqui em Slavador e posso dizer que foi insano. Tinham mais de mil pessoas cantando histericamente os dois discos (o Sábado tanto quanto o Canções), simplesmente o sonho de QUALQUER artista, indie ou não. O Pelourinho explodindo de gente cantando tudo. Tá no Youtube, só ver. Mas ele me pareceu apático… eu e outras pessoas notamos isso. Se no Rio ele não lotou, a culpa é do Rio e dos cariocas. Acho que ele fez a coisa mais certa do universo em ir morar em São Paulo e concordo muito com o Fernando em achar que ele deveria dar o braço a torcer e aceitar a ingerência de uma gravadora, de um empresário, de um produtor, de uma assessoria de imprensa que cuidasse das redes sociais e das entrevistas dele… ele sendo um artista tem, obviamente, uma instabilidade emocional aflorada e pode fazer coisas mais difíceis de reverter do que rasgar um jornal. A forma como São Paulo pensa e movimenta uma carreira é exemplar, no Rio nada acontece, ninguém faz nada, ninguém joga a favor, em São Paulo, se ele se permitir, pode levar a carreira dele para outros patamares, e acho que já passou da hora de ele querer isso… a torcida contra já é grande, se ele não ajudar, fica difícil. Ah, eu achei bem legal ele rasgar o jornal, teria vibrado também se estivesse lá

  8. Valeu, Wagner!

    André, o que eu escrevi foi sobre a relação do Cícero com o que se fala sobre o seu trabalho, não se ele gosta ou não do rumo da carreira ou se deve ou não gostar.

    Caio, o texto foi publicado aqui como uma espécie de interpretação, uma análise de um comportamento observado mas originalmente foi escrito como cobertura do show de encerramento – por isso o foco foi esse. Sei que ele teve casa lotada em vários shows que fez por aí; como mencionei, ele tem um grupo fiel de fãs, e não é tão pequeno assim, senão não estaria onde está. Mas a questão não é essa. Novamente, é uma interpretação sobre o que eu observei, acompanhei e ouvi durante esse período do lançamento do disco ao encerramento da turnê.

    E é verdade, o RJ não oferece tantas oportunidades e em SP ele tem um público maior (e ele tem assessoria e empresária), quem sabe a mudança de ares faça bem a ele.

    E eu não acho que exista uma torcida contra, não. Concordo que rolou uma situação desnecessariamente exagerada que pareceu mais expectativas frustradas do que algo que o Cícero tenha feito de errado, mas isso faz parte do jogo e aí eu concordo também com o comentário do Fernando de que não estamos falando aqui de Camelo & Amarante e que pode não dar certo seguir com “essa fórmula”. Acho massa quando alguém toca o foda-se para críticas ou até o quando o cara vai lá e troca uma ideia (e já vi artista ser bem criticado e depois virar até amigo das pessoas), mas o lance do jornal deu a entender que o foda-se não está tão ligado assim: https://www.youtube.com/watch?v=dgcatugSxWo. Pra mim, é um caminho infértil.

  9. esse papo de “fã” é furada e concordo muito com o Fernando que diz que se ele mirar o público como sol pode se dar mal. Essa massa autodenominada “fã” é pueril como uma música na novela hoje em dia, podem migrar de Cícero para Pedrinho num piscar de olhos… são jovens na fase boboca querendo uma noite legal para postar no instagram. Serve Cícero, Jeneci, Tiago Iorc, Banda do Mar, qualquer um desses… essa é a verdade. Cícero quis, para o bem ou para o mal, se manter interessante com o Sábado e deixar para trás o canções de apartamento. Fez bem! imitou o Los Hermanos sim! Camelo toca em duas músicas do disco, o link faz sentido. Quis mudar de público… Se o público diminuiu e ele está disposto a arcar com isso, melhor ainda! prefiro ouvir shows em silêncio do que com meninas chatas gritando “lindo!” bobeira falar que o Sábado não tem apelo ou duvidar se ele tem estofo por causa disso. Enorme bobeira, são escolhas pessoais dele… de que adianta lotar as casas sendo considerado um “engodo”? Sábado é um disco depressivo que te coloca nessa frequência, eu acreditei na depressão dele e se ele tivesse se matado, seria um eterno ídolo cult dos deprimidos, mas ele foi pra São Paulo e anunciou disco novo… se ele vier com uma puta assessoria de imprensa e um disco pop pra cacete vai ser reprovado de novo pelos mesmos indies, mas vai garantir uma carreira e dinheiro no bolso… ele não é bobo, quer viver de música, foi pra São Paulo exatamente pra isso que o Caio falou…

  10. Verdade, Renata, vendo agora o vídeo que você postou parece que ele ficou mais magoado do que não ligou… tem uma ira no ato de rasgar o jornal que não parece um “foda-se” mas algo como “me deixem em paz” e isso é beeeeem ruim, porque não vão parar nunca, principalmente na internet, mas eu não sei se conseguiria não ler o que falam sobre o meu nome ou ler e não me abater… situação estranha essa e o título da sua matéria é bem propício, parabéns.

  11. Deve ser difícil. Mas pedir pra gravar soa infantil e é uma atitude que parece criar inimigos onde não há.

    O título é cortesia do Mac! Mas valeu!

  12. Mas calma aí também… o cara só tem dois discos, no primeiro já ganhou prêmios e hype e etc, no segundo viajou pra Europa, rodou o país todo e encheu a maioria dos lugares que tocou com os fãs cantando tudo, não tem esse drama todo não… ele rasgou o jornal por que? quer ser unanimidade? ninguém é, nem o caetano que ele tanto imita (inclusive essa coisa de ler jornais no show, amassar, rasgar, ironizar, caetano sempre fez isso). O cara só tem 3 anos de carreira… não vejo essa novela toda que o título sugere não… A banda do Mar tem o camelo com 15 anos de estrada e a Mallu que, acreditem, já vai pro oitavo ano de carreira com quatro discos, um dvd… não acho que eles tenham ido morder o mercado do Lulu Santos, eles já estão construindo o próprio mercado há algum tempo e estão curtindo o fruto disso agora juntos. Cícero precisa ficar mais calminho, ser grato ao público que tem, gravar mais discos e parar com essa bobeira-bicho-grilo de ficar se escondendo

  13. Midani foi meio cruel… não vejo engodo no Canções, o próprio caetano fazia músicas com pedaços de outras músicas na época do tropicalismo. Inclusive, fez em muitos discos. Inclusive, fez com Dindi também… inclusive James Blake, o queridinho dos prêmios europeus, ainda faz música com cacos de outras. Limit to your love é um riff de piano da Feist, pra quem não sabe. O Criolo então nem se fala, se tirar o portishead e o fella kuti dos discos dele ele vai ficar cantando a capela… e também acho igualmente cruel falar que as canções vão se desgastar, como??? então o compositor precisa compor discos de ano em ano pra sempre senão sua obra se desgasta? discordo muito, o tempo só reafirma o que importa e se as canções marcaram as pessoas, elas não vão se desgastar nunca!

  14. caio, o problema do rio é estrutural e não de público. com um show sem divulgação nenhuma por 40 reais a meia no teatro rival, quando ele já fez show no circo voador com o mesmo preço nessa turnê, que é uma casa de show melhor (e onde sem dúvida teve um bom público), é de se esperar que ninguém compareça mesmo

  15. Anotem: Ele vai embora pra outro país assim que lançar o próximo disco… vai fazer o mesmo que amarante, camelo, mallu, momo… Acho que essa geração nova toda vai embora daqui : (

  16. Pedro, a única pessoa que disse que alguém precisa compor de ano em ano foi você, e você mesmo discordou. Reflete melhor porque a suposição não tem nada a ver com isso.

  17. Oi, Renata, falo dessa noção errada de “apelo” como se fosse algo importante ou sequer relevante para um disco… os melhores discos dos últimos anos não foram ouvidos pela massa, concorda? Torço para que o próximo disco tenha menos apelo ainda, que seja mais sofisticado ainda e que os ingressos sejam mais caros ainda, porque assim o artista pode explorar suas características, as que o diferem dos outros, e viver disso. Fazer um disco “com apelo” é se nivelar pela compreensão média das pessoas, ou seja, empobrecer a obra… se tornar irrelevante como artista em prol de uma relevância de mercado. Esse tipo de desfecho “publicitário” de “será que ele tem estofo para agradar a massa? vejamos nos próximos capítulos” aponta a trajetória do artista para a direção errada… a relevância artística passa a andar a reboque do sucesso de mercado, algo nítidamente fora dos anseios do artista em questão. Não estamos falando de sabotar o sucesso, nem de virar inimigo da crítica, mas de manter o foco na obra acima de todas as coisas. Não há sensatez em esperar que o próximo disco venha para “diferenciá-lo da turma”, turma essa, na minha opinião, uma das mais interessantes e honestas do país (marcelo camelo, wado, momo, silva…), era como esperar que o gil fizesse um disco que o diferenciasse de caetano, de tom zé… as obras confluem, a música brasileira anda em décadas, se ele prometeu um disco para o ano que vem, não devemos jogar nossas expectativas de mercado e sucesso (ou insucesso) nas costas dele. Falo isso por sentir que essa pressão “no olhar” afeta os artistas (como ele rasgando o jornal ao chamarem ele de chato) e pode, muito provavelmente, se infiltrar na obra. A banda do Mar, falada algumas vezes aqui, é nitidamente um golpe de mercado do Camelo, mas ninguém criticou pois veio com êxito, deu certo. Agora um disco que não veio tatear mercado, logo não pode ser analisado sobre essa ótica, sofre análises terceiras ao que se propõe. Achei seu texto bem escrito e até tendencioso a apoiar as escolhas do Cícero, mas ainda expondo um olhar errado sobre o artista. Se os discos são gratuitos e falam com públicos diferentes, será que não é justamente o mercado e o público os pontos que o artista quer tocar? se os shows enchem em salvador e São Paulo (fui no show do Amarante e do Cícero no Cine Jóia esse ano, ambos cariocas, o do Cícero estava mais cheio) e não enche no Rio, não será o Rio o ponto a ser analisado? ou seja, acho o pensamento válido, mas o ponto de vista frágil.

  18. Oi, Pedro

    Acho que pra responder o seu comentário eu vou precisar escrever outro texto rs. Achei a leitura equivocada em alguns pontos. Mas vamos lá:

    Pra começar, preciso esclarecer que os textos passam por edições. No caso, o editor altera, corta ou acrescenta algo, se ele achar pertinente. Dito isso, a última frase, sobre se diferenciar, é algo que o Marcelo acrescentou para amarrar o texto. Eu mesma parei no engodo, talvez porque queria que ficasse em aberto mesmo.

    Quando eu disse que o “Sábado” não tem apelo, eu encaro isso como um fato: o Sábado não tem apelo. Isso significa que estou sugerindo que é importante “ou sequer relevante”? Não. Significa que estou apenas afirmando isso: o Sábado não tem apelo. Afirmação que o artista parece concordar, segundo a entrevista que deu ao Globo antes do disco sair. Sendo um fato, obviamente tem prós e contras. Eu usei essa informação como ponto de partida para chegar em outro lugar. Não há nenhuma crítica implícita aí ao fato de não ter apelo, por si só. A questão é o que você faz quando lança um disco conscientemente sem apelo, que uma boa parte da crítica e fãs acha simplesmente ruim mesmo, sendo que os fãs são condescendentes e a crítica, não? Você lida com isso. O que me parece é que talvez não seja tão saudável lidar com isso rasgando jornais (em que, particularmente, não me parece que nada de mais foi escrito; ninguém disse que o Cícero é um merda que merece morrer, caramba), guardando rancores ou se afastando do público nas redes, justamente onde sua presença é mais forte. Isso é problema dele? Sim. Mas não significa que não se possa comentar o comportamento público de alguém. Não há nada de novo ou polêmico nisso.

    – “Torço para que o próximo disco tenha menos apelo ainda, que seja mais sofisticado ainda e que os ingressos sejam mais caros ainda, porque assim o artista pode explorar suas características, as que o diferem dos outros, e viver disso.”

    Bom, se você torce pra que tenha menos apelo e ingressos mais caros, então não é disso que você quer que ele viva, né? Não consigo fechar a conta. Se a pessoa tiver outros meios pra se sustentar e puder fazer isso, ótimo. Desde que esteja realmente feliz e não preocupado com o que estão dizendo por aí, não sou eu que estarei contra.
    O problema é que você está interpretando o texto de maneira errada, eu não estou fazendo mais uma crítica ao Sábado aqui, até porque, olha só, eu gosto do disco! Como falei acima, esse texto surgiu quando fui escrever sobre o show de encerramento, e acabou virando uma análise do que observei desde o lançamento do álbum até então; a postura do artista diante da crítica e do público.

    – “Se os discos são gratuitos e falam com públicos diferentes, será que não é justamente o mercado e o público os pontos que o artista quer tocar?”

    Não entendi. Mas já ficou esclarecido que ninguém está falando que o artista tem que lançar um disco atrás do outro e nem pensar no mercado.

    – “Se os shows enchem em salvador e São Paulo (fui no show do Amarante e do Cícero no Cine Jóia esse ano, ambos cariocas, o do Cícero estava mais cheio) e não enche no Rio, não será o Rio o ponto a ser analisado?”

    Certamente o Rio merece uma análise. Mas outras coisas podem influenciar na bilheteria de um show: preço, divulgação, data (parece ter sido um grande erro o final de semana escolhido e ainda ter dividido em duas apresentações), influência, frequência com que o artista passa na cidade, localização, horário, faixa etária, sucesso, etc. Posso estar completamente equivocada, talvez em São Paulo todos os shows ficassem esgotados, mas não posso falar sobre o que não vi. De qualquer maneira, a impressão que tive é que Cícero saiu menor que entrou. E eu não estou com expectativas quanto ao próximo álbum, a minha única curiosidade é ver o que ele vai fazer disso tudo.

  19. Vinte comentários? Caramba, não sabia que esse Cícero conseguia juntar tanto comentário num site. Achei, na boa, que ninguém dava muita bola pro cara. Esses dias, coloquei o tal do “sábado” pra ouvir e minha mulher perguntou, diante da minha cara de “que bosta”, por que que eu tava ouvindo aquilo, então. Respondi: só pra ter certeza que é ruim! Falta tutano e gana ali, não? Mas é o mesmo problema dessas carreiras solos de ex-los hermanos, amarante, camelo, ou mallu, jeneci… Tudo bunda molice. Se é pra falar de “nova geração”, prefiro muito mais trabalhos como o do Curumin, HUrtmold, Céu e o próprio Criolo. E nomes da “velha guarda”, como Nação Zumbi, Mundo Livre (ainda que meio parados) continuam bombando muito mais no meu stereo do que esse som raquítico do Cícero.

  20. Todo mundo discutindo o ponto do texto e chega esse Paulo Diógenes com a velha ladainha do que “o que eu gosto é bom, o que não gosto é ruim”. Se quer discutir sobre o que tu gosta, procura um texto sobre o curumim, hurtmold, céu, sei lá. Aqui a gente dá bola pro cara e discute, inclusive, a carreira dele. Se é pra vir transformar a discussão nessa palhaçada de chamar a arte alheia de “bunda molice”, vai dormir com a tua mulher. Mas deixa a gente clarear as ideias com uma discussão inteligente. (um saco isso de nenhum texto sério conseguir mais ficar imune a esses imbecis… )

    Renata, suas respostas foram ótimas… encerro dividindo com você a curiosidade de ver o que ele vai fazer disso tudo também 🙂 Beijo!

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