Boteco: Três cervejas da Brouwerij De Ranke

por Marcelo Costa

Fundada em 1994 por Nino Bacelle na aldeia belga de Dottenijs (mais próxima de Lile, na França, do que da capital Bruxelas, na Bélgica), com cerca de 7 mil habitantes, a Brouwerij De Ranke fabricava no início apenas uma cerveja, a Guldenberg, em homenagem a Abadia Guldenberg, em Wevelgem. Em 1996, Nino juntou-se a Guido Devos e então surgiu a cervejaria, que foi ampliada em 2005, e hoje produz cerca de 10 rótulos: Cuvée De Ranke (uma elogiada Sour), Guldenberg (Belgian Strong Ale), Hop Harvest (uma Abbey Tripel safrada), Kriek De Ranke (Lambic), Noir de Dottignies (Belgian Strong Ale), Père Noël (Belgian Ale), Saison de Dottignies (Saison), Henegouwse Saison (Saison), XX Bitter (Belgian Ale) e XXX Bitter (Belgian Ale). Abaixo, três destas cervejas, que podem ser encontradas com relativa facilidade no Brasil.

Com uma receita que une seis maltes e dois lúpulos (Challenger e Saaz), a Noir De Dottignies é, segundo o site oficial, a cerveja mais “pesada” da Brouwerij De Ranke. Com 9% de álcool, coloração âmbar escura (derivada da tosta do malte) e creme levemente bege de boa formação e média alta permanência, a Noir De Dottignies exibe um aroma que destaca em primeiro plano o candy sugar adicionado na receita (em notas adocicadas que remetem a açúcar queimado) e ainda intenso frutado (frutas escuras: ameixa, uva passa e figo) e suave defumado (quase imperceptível). Na boca, doçura intensa (caramelo e açúcar mascavo) no primeiro toque depois amargor assertivo (pontuado pelos 9% de álcool) que se desmancha em notas que remetem a café (que me surpreendeu), frutas escuras (uva passa e ameixa) e, novamente, doçura (açúcar mascavo). O final traz doçura, leve sugestão de torra (café) e, impressionante, quase nada de álcool. No retrogosto, açúcar mascavo, ameixa e leve café. Uma bela cerveja que pode derrubar desavisados.

A Saison De Dottignies é uma cerveja não pasteurizada e não filtrada que utiliza a flor do lúpulo Hallertauer recém-colhida em sua receita (ou seja, quanto mais fresca, melhor – o que não é o caso dessa garrafa, que é de 2010, e válida até junho de 2015, ou seja, já sem tanta força aromática de lúpulo, mas inteira) e que exibe uma coloração dourada com leve toque alaranjado. O creme é branco e de ótima formação e longa permanência (com direito a rendas belgas ao redor da taça). No nariz, uma festa de aromas: um pouco de cítrico, floral e herbal (não tão vistosos como devem ser em uma garrafa do ano, mas ainda assim envolventes) mais notas que rementem a cereais, mel e caramelo derivadas do malte. Há ainda uma leve acidez fruto da levedura belga. Na boca, um conjunto provocante / delirante une cítrico (laranja), cereais (feno), acidez (levedura), doçura (caramelo), especiarias (cravo) e um leve azedinho. O final é caramelado, cítrico e refrescante enquanto o retrogosto traz aquecimento no final do garganta (não de álcool, afinal são só 5.5%, mas de acidez), cítrico, herbal (pinho) e cereais.

Fechando o trio, a De Ranke Guldenberg é uma Belgian Strong Ale que recebe candy sugar na receita e utiliza lúpulo Hallertau (tanto para amargor quanto para aroma). A cervejaria coloca Belgian Triple no rótulo, mas ela parece mais densa e intensa que uma Tripel tradicional. De coloração dourada com leve turbidez a frio e creme branco de boa formação e média alta permanência, a De Ranke Guldenberg apresenta um aroma bastante maltado (também é da safra 2010) com notas adocicadas que remetem a mel e caramelo. Chama a atenção um leve toque de especiarias, provavelmente derivado da levedura. Há, ainda, leve sugestão herbal (pinho) e frutada (pêssego em calda e pera). Na boca, a doçura caramelada do malte traz consigo um leve (e bem-vindo) azedume derivado da levedura mais herbal (pinho), doçura (mel) e frutado cítrico (casca de laranja, mas não de lúpulo e sim de levedura). Há quase nada de percepção dos 8.5% de álcool. O final é caramelado, azedinho e condimentado (uma picancia derivada tanto da levedura quanto do álcool). No retrogosto, mel e leve azedume. <3

Balanço
Fui pelo tamanho da garrafa e não pelo teor alcoólico, então a primeira das três De Ranke a passar por aqui foi a Noir De Dottignies, uma Belgian Dark Strong Ale autentica, com muita sugestão de frutas escuras, candy sugar (que aumenta bastante sua doçura) e 9% de álcool pra fazer qualquer um sorrir a toa. Bem boa. Já a Saison De Dottignies foi uma agradabilíssima surpresa, e olha que é uma garrafa de 2011 (válida até julho de 2015): fresca deve ser ainda mais encantadora pelo uso de flor de lúpulo Hallertauer recém-colhida. Para apaixonar. O mesmo pode ser dito da deliciosa De Ranke Guldenberg, uma Triple que ficou mais Strong com o tempo de guarda, e tornou-se arrisca, com a levedura acrescentando condimentação, azedume e picância (junto ao álcool) no conjunto. Uma delicia.

De Ranke Noir De Dottignies
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,61/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 9,90 – 330 ml

De Ranke Saison De Dottignies
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,66/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 30 – 750 ml

De Ranke Guldenberg
– Produto: Belgian Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3,69/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 30 – 750 ml

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