Boteco: de POa, Tupiniquim e Evil Twin Brazil

por Marcelo Costa

Uma colaboração dos gaúchos da Tupiniquim com os norte-americanos da Stillwater, a Saison de Caju é uma cerveja que recebe adição de polpa de caju e manga na maturação além de utilizar a levedura belga (radical) Brettanomyces. De coloração amarelo palha e creme branco de ótima formação e média permanência, a Saison de Caju exibe um aroma que combina de maneira perfeita a presença do caju com a acidez (marcante no estilo) da levedura. A fruta surge de forma doce e deliciosa enquanto a levedura acrescenta acidez e algo terroso ao conjunto aromático. Há ainda leve aceno de cereais e de cítrico. Na boca, porém, a levedura pula à frente e torna a cerveja uma experiência (que deve assustar que não conhece o estilo): o caju desaparece, a manga dá um leve aceno em um conjunto que valoriza acidez, azedume e salgado. Quem espera pela presença do caju pode se decepcionar. Por outro lado, quem está atrás de uma boa saison nacional, essa Saison de Caju se destaca com uma das melhores. O final é levemente adocicado (frutado), azedo e salgado. No retrogosto, herbal, feno, grama e azedume suave. Uma delícia.

Já a Tupiniquim Monjolo Imperial Porter é uma cerveja de 10.5% de álcool que exibe uma coloração marrom bastante escura na taça e creme bege de ótima formação e permanência. No nariz, álcool surge em primeiro plano ao lado das notas derivadas da torra do malte (café à frente e chocolate amargo na retaguarda). Há ainda sugestão de caramelo, açúcar mascavo, madeira e baunilha. Na boca, a doçura – caramelo e baunilha – surge em primeiro plano e impressiona. Ela traz consigo os 10.5% de álcool, que incomoda um tiquinho (não precisava de tanto álcool, ou ele podia estar mais bem inserido, não tão presente no conjunto) e chega a remeter a conhaque e licor de alcaçuz – aquecendo a garganta e o peito. O final traz amargor de álcool, melado de caramelo e leve toque amadeirado. No retrogosto, álcool remetendo a conhaque e calor, muito calor.

Produzida pela Tupiniquim, a primeira cerveja da Evil Twin Brewing Brazil (ao contrário das duas colaborativas anteriores, Extra Fancy IPA e Lost in Translation Brett IPA, assinadas em conjunto) é uma Imperial Stout que surgiu de forma polêmica. Seu primeiro nome e rótulo (veja abaixo) causou alvoroço entre pessoas que se sentiram ofendidos dizendo que “o Brasil não é só sexo e mulheres nuas”. A saída foi rebatizar a criança, que surge como Metro Man (compares os textos dos dois rótulos aqui), uma cerveja de coloração marrom escura e creme marrom denso, de ótima formação e média alta permanência. No nariz, álcool (são 10,7%), doçura caramelada e café derivado da torrefação do malte, os três no mesmo nível. Na boca, a doçura (caramelo, baunilha e chocolate) consegue envolver de forma eficiente o álcool, que assusta um pouco no aroma, e o conjunto acaba ficando mais equilibrado, com o café aparecendo no final (ao lado do álcool e do caramelo) e no retrogosto (junto a calor). Bem boa.

Balanço
E a Tupiniquim continua surpreendendo. Após as excelentes Lost in Translation, Polimango e Extra Fancy, os gaúchos surgem com essa excelente Saison de Caju, parceria com os norte-americanos da Stillwater. Desde já, uma das melhores saisons nacionais. A Tupiniquim Monjolo Imperial Porter me incomodou um pouco por expor excessivamente a graduação alcoólica. É uma boa cerveja, para ser bebida em momentos pontuais, mas podia inserir a porrada de 10,5% de álcool de maneira mais eficaz no conjunto. Do jeito que está lembra conhaque (não que seja ruim). Fechando o trio, a melhor: Evil Twin Metro Man, cerveja dos dinamarqueses, mas produzida pela Tupiniquim. Polêmica besta a parte, Metro Man impressiona pelo alto (falso) drinkability, afinal são 10.7% de álcool que não soam tão agressivos, ainda que o aroma tente dizer o contrário. Bem boa.

Saison de Caju
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,8%
– Nota: 3,64/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 17,50 (310 ml)

Tupiniquim Monjolo Imperial Porter
– Produto: Imperial Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10,5%
– Nota: 3,27/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 21,90 (310 ml)

Evil Twin Metro Man
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 10,7%
– Nota: 3,77/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 21,90 (310 ml)

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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