A dualidade do Franz Ferdinand em SP

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

Preto e branco. Poucas vezes na música pop a decoração de um palco significou tanto para uma banda quanto para o Franz Ferdinand em uma turnê. E isso ficou intensamente visível no Espaço das Américas, em São Paulo, na sétima passagem dos escoceses pelo país, tocando no mesmo local que o Queens of The Stone Age, seis dias depois, mas com menos da metade do público. Numa noite de altos e baixos, o Franz Ferdinand fez todo mundo dançar no abismo que separa as canções dos dois primeiros discos dos dois últimos.

Surgidos em meio ao turbilhão de novas bandas do levante novo rock do começo do século, mas com alguns neurônios a mais que os concorrentes, o quarteto se jogou de corpo e alma na estrada para divulgar os dois primeiros álbuns, “Franz Ferdinand” (2004) e “You Could Have It So Much Better” (2005), numa turnê ininterrupta de três anos que terminou em 2006 de forma simbólica em São Paulo, com a banda clamando por férias e terminando o show jogando camisa, tênis, teclado (!?) e com Paul Thomson destruindo seu kit antes do bis.

O desejo de mudança fez com que o quarteto tirasse quatro anos de férias preparando o que viria a ser o terceiro disco, “Tonight: Franz Ferdinand” (2009), um álbum que deixa as guitarras em segundo plano e coloca sob a luz os teclados russos Polyvox. Muita gente não entendeu, e mesmo com cinco singles o álbum não decolou, mas a turma de Alex Kapranos não voltou atrás, e soou mais radical na mudança (e na melancolia) em “Right Thoughts, Right Words, Right Action” (2013), com a eletrônica do Kraftwerk cada vez mais presente na sonoridade.

Ao vivo em 2014, as pauladas roqueiras da primeira fase, que fizeram a fama da banda, são obrigadas a conviver lado a lado com as batidas dançantes da segunda abrindo uma clareira que exibe uma dualidade que, ao mesmo tempo em que faz o fã dançar (e ele iria dançar e cantar Anitta se Alex Kapranos puxasse a letra), estampa uma série de questões acerca de um grupo que merece confiança – da opção estética pela sonoridade dançante (e escapista) passando pela influência germânica até a decantada maturidade.

Isso tudo ficou extremamente tátil assim que o quarteto pisou no palco do Espaço das Américas (que, novamente, não decepcionou no quesito qualidade do som) e atacou “Right Action”, para delírio do fã clube, que levou cartazes e declarações de amor. “No You Girls”, grande canção que faz uma bela transição entre a sonoridade do segundo disco para o terceiro, manteve o clima em alta, algo que “Tell Her Tonight”, apenas ampliou com Nick McCarthy cantando bem sua parte e Kapranos encorpando no refrão.

“Evil Eye”, do último disco, é a prova dos noves para o Franz: toda vez que Nick ou Alex trocam a guitarra pelo teclado, o poder da banda diminui, e isso irá se repetir muitas vezes durante a noite. Felizmente, os baixos do show são recuperados logo na sequencia, e neste caso o trio “The Dark of the Matinée”, “Do You Want To” e “The Fallen” fazem a galera pular, cantar e até ostentarem air guitars. A psicodélica (e muito boa) “Lucid Dreams” arrefece os ânimos enquanto o b-side “Erdbeer Mund”, cantando em alemão por Nick, soa como uma instalação de arte moderna no meio do show, que ninguém entende, mas felizmente passa rápido.

“Michael” volta a fazer o público gritar (uma pena que grande parte dos fãs esteja tão distante do palco, separada pela enorme área vip – hoje, ao menos, os telões estavam ligados) e “Walk Away” faz sentir saudade de 2006 quando mesmo ela, uma balada, era tocada com tanta energia e força que fazia o público pular ensandecidamente. Nesta noite em São Paulo, a palidez da execução tornou o abismo que separa a sonoridade dos dois Franz Ferdinand ainda mais imenso, algo que “Stand on the Horizon”, outra recente, apenas reafirmou.

Após dois discos empolgantes, adolescentes, moleques, a opção dançante, de terno e gravata, do Franz Ferdinand após “Tonight” (caminho que o Arcade Fire também escolheu em “Reflektor”, e que também não foi tão bem recebida) parece não ter sido bem absorvida pelo público, e os enormes espaços vazios na casa de show são apenas um sintoma da mudança – quem “culpa” a baixa procura de ingressos por ser a sétima vinda da banda não deve se lembrar que o Iron Maiden tocou aqui 2349 vezes com casa cheia (sem contar André Rieu e os Rock in Rio da vida, sempre a mesma coisa, sempre sold out).

Isso tudo sem contar o fato do QOTSA ter tocado no mesmo lugar com ingressos esgotados, menos de uma semana antes. “…Like Clockwork” (2013) é um ótimo disco, mas não bate “Songs for The Deaf” (2002). Ainda assim, o último disco do QOTSA permitiu que a banda se reformulasse e, com a entrada do baterista Jon Theodore, viva seu melhor momento sobre um palco. No caso do Franz, ainda que a banda continue matadora ao vivo, o último disco não causa a unidade que se vê no QOTSA ao vivo, pelo contrário, amplia o abismo.

E nada como “Take Me Out”, o primeiro hit e uma das grandes canções deste século, para deixar isso ainda mais óbvio, um hino que deverá ser lembrado por décadas e décadas, seguido da ótima “Ulysses”. A sensação é de que o Franz Ferdinand tocou o Santo Graal do Pop nos dois primeiros discos, optou por recusar a fórmula (e o sucesso – e tudo que vem com ele, para o bem e para o mal) mudando de direção no terceiro e quarto álbuns, e soa perdido em sua busca espírito musical.

Diferente dos primeiros anos, em que as canções da banda pegavam o ouvinte pelo ombro com força e os chacoalhava, praticamente intimava a pessoa a sorrir e pular e cantar, a nova fase do grupo é mais sútil, delicada, e convida as pessoas a dançar como se tocasse em seu ombro e com um piscar de olhos dissesse “vamos?”. Chegando ao final da turnê e deixando uma porção de interrogações pelo caminho, o Franz segue fazendo música para dançar e levanta a questão: quanto tempo é possível viver na balada se você não é George Clooney?

Respostas no próximo disco.

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SET LIST
1) Right Action – Right Action
2) No You Girls – Tonight
3) Tell Her Tonight – Franz Ferdinand
4) Evil Eye – Right Action
5) The Dark of the Matinée – Franz Ferdinand
6) Do You Want To – You Could Have It So Much Better
7) The Fallen – You Could Have It So Much Better
8 ) Lucid Dreams – Tonight
9) Erdbeer Mund – b-side
10) Michael – Franz Ferdinand
11) Walk Away – You Could Have It So Much Better
12) Stand on the Horizon – Right Action
13) Can’t Stop Feeling – Tonight
14) Auf Achse – Franz Ferdinand
15) Brief Encounters – Right Action
16) Take Me Out – Franz Ferdinand
17) Ulysses – Tonight
18) Love Illumination – Right Action
19) Outsiders – You Could Have It So Much Better

Bis
20) Jacqueline – Franz Ferdinand
21) Goodbye Lovers & Friends – Right Action
22) This Fire – Franz Ferdinand

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– 10 anos da estreia do Franz Ferdinand, por Marcelo Costa (aqui)
– “You Could Have It So Much Better… With Franz Ferdinand”: personalidade de sobra (aqui)
– “Tonight”: na balada com o Franz Ferdinand, por Marcelo Costa (aqui)
– Festival Motomix 2006: Franz encerra turnê de forma devastadora (aqui)
– “Right Thoughts, Right Words, Right Action”, Franz Ferdinand, por Marcelo Costa (aqui)

5 thoughts on “A dualidade do Franz Ferdinand em SP

  1. Não irei ao show do Franz que haverá aqui no Rio neste fim de semana (os ingressos do Vivo Rio estavam excessivamente caros – a meia-entrada mais barata está a 180 reais!), mas julgando pelos dois shows da banda que já vi (em 2010 em Brasília e em 2012 no Festival da Cultura Inglesa em SP), não concordo que as músicas do 3º e 4º disco destoem tanto em qualidade dos clássicos dos dois primeiros álbuns. Com a exceção de “Can’t Stop Feeling” (cuja introdução mesclada com “I Feel Love” da Donna Summer ficou meio estranha), todas as músicas do “Tonight” e do “Right Thoughts, Right Words, Right Action” ficaram muito bem ao vivo. Três delas inclusive foram citadas na resenha: “Ulysses”, “No You Girls” e “Lucid Dreams” (aliás, a mais eletrônica/dance de todas, e uma das minhas favoritas do FF). No show de 2012 me lembro de ter gostado muito das performances das (na época inéditas) “Right Action” e “Brief Encounters”; em 2010, “What She Came For” e “Turn It On” ficaram ótimas ao vivo. É verdade que a banda perdeu popularidade desde o 3º disco, sendo ofuscada principalmente pelos Arctic Monkeys. Porém, vejo de forma positiva a transição estética do Franz Ferdinand a partir de “Tonight”. Eles dão continuidade ao art-rock dos Talking Heads, com letras inteligentes e uma sonoridade contagiante; pode ter menos guitarras, mas continuam animados (principalmente ao vivo).

  2. Eu curto a fase tecladista do Franz. Não fui ver agora porque já vi 4 vezes mesmo. Tanto é que olhando assim por cima, me parece que já vi 80% das músicas nesse setlist ao vivo. E também porque o Espaço das Américas é péssimo pra esse tipo de show.

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