Três livros: Marley, Bernardo e Bidu

por Leonardo Vinhas

“Queimando Tudo”, Timothy White (Editora Record)
Lançada originalmente em 1983, a biografia “Catch a Fire” é, com justiça, apontada como a mais completa de Bob Marley. Ex-editor da Billboard e provavelmente o jornalista norte-americano mais preocupado em divulgar o reggae nos EUA, White, falecido em 2002, tratou o livro como um trabalho de amor, e a cada nova edição atualizou a obra, incluindo até dados sobre os processos movidos por pessoas que se sentiram indevidamente representadas no livro. A edição nacional recente é bem-cuidada, com ótima tradução e boas notas de rodapé, que complementam o meticuloso trabalho de White. Há detalhes sobre a formação do rastafarismo, sobre o cenário político da época e vívidas descrições das tensões sociais e até das características ambientais da Jamaica. Tanto preciosismo às vezes dificulta a leitura, mas quem superar esse obstáculo vai entender porque a figura de Marley tornou-se uma lenda, com uma relevância que transcende a condição de ídolo musical.

Preço: R$ 72
Nota: 8

“Dias de Feira”, Júlio Bernardo (Companhia das Letras)
Júlio Bernardo foi dono de barraca em feira livre e trabalhou no entreposto que seu pai tinha no Ceasa paulistano. A experiência lhe permite falar com conhecimento de causa sobre os bastidores da feira, mostrando um mundo rico de personagens exóticos (que podem tanto ser enternecedores quanto perturbadores), ora correspondendo à visão idílica que temos da feira, ora desmitificando-a totalmente. Bernardo não tem floreios na escrita, mas é um hábil contador de histórias, garantindo que a leitura seja envolvente, rápida e divertida – embora canse o classismo de suas posições (aquele papo de “pobre é legal, rico é otário” tão comum à periferia paulistana) e a necessidade auto-afirmativa de alguns trechos. Leia um trecho em PDF.

Nota: 7
Preço: R$ 29,90

“Bidu: Caminhos”, Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho (Panini)
Primeiro volume da “segunda leva” dos títulos Graphic MSP, que apresenta personagens clássicos de Mauricio de Sousa no tratamento de outros artistas, “Caminhos” é uma das mais sensíveis até o momento. Como “Laços”, de Vitor e Lu Cafaggi, é uma ”história de origem” – no caso, de como o cachorro Bidu e o menino Franjinha se encontraram. Se a trama em si não tem muita novidade (e até peca em não se desviar de alguns clichês emotivos), a maneira como ela é contada faz toda a diferença. A aparente infantilidade dos traços está cheia de detalhes que compõem uma narrativa visual forte, herdeira dos desenhos animados, que praticamente dispensa palavras (é bem curioso o recurso adotado para fazer os cachorros “falarem”).

Nota: 7,5.
Preço: R$ 19,90

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– Entrevista: Sidney Gusman -> “Tem quadrinho para todos os públicos”.  (aqui)
– Entrevista: Gustavo Duarte -> “A livraria não sabe o que é quadrinho” (aqui)
– “Astronauta – Magnetar”, de Danilo Beyruth, conquista pelo traço detalhista (aqui)
– “Laços”, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, faz releitura emocional e delicada (aqui)
– “MSP Ouro da Casa”: personagens de Maurício de Sousa ganham releitura (aqui)

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