Boteco: Três cervejas da Urbana (parte 2)

por Marcelo Costa

Abrindo o segundo passeio por cervejas da Urbana com a parceria dos paulistanos com os mineiros da Wäls, lançada no Degusta Beer 2014, a Trem Bão, uma Session IPA Saison (segundo o rótulo). O malte e a levedura são belgas, o lúpulo é da Alsácia, a água é de São Paulo, o Capim Príncipe é de Minas Gerais e a produção foi feita na cervejaria Blondine, em Itupeva, interior de São Paulo. O resultado é uma cerveja de coloração amarelo palha com creme branco de boa formação e média permanência. No nariz, um aroma delicioso: o herbal derivado da inserção da erva cidreira (como também é conhecida) se destaca ao colorido frutado proposto por levedura e lupulagem. Na boca, perfeita recriação do excelente conjunto apresentado no nariz: a união da cidreira com lúpulo e levedura cria um painel gustativo delicioso com muito herbal, leve cítrico mais condimentação. Ela melhora ainda mais no final, caprichado e refrescante. No retrogosto, mais fazenda (feno, grama, ervas). Muito boa.

Lançada em maio de 2014 também com produção na fábrica da Blondine, a Urbana Boo! é uma American Wheat com dry hopping de lúpulo Citra e trigo malteado na receita. De coloração amarelo palha e creme branco de ótima formação e média alta permanência, a Urbana Boo! destaca no nariz o dry-hopping do lúpulo norte-americano Citra, o que confere ao conjunto um aroma bastante cítrico, com sugestão de limão siciliano e abacaxi. Há pouca percepção de trigo (o dry-hopping praticamente domina a percepção olfativa do bebedor nublando outras características da cerveja). Na boca, leve adstringência, acidez e amargor de lúpulo (são apenas 22 de IBU) chamam a atenção em um primeiro momento. O clímax de amargor, no entanto, é bastante suave deixando pelo caminho um rastro cítrico (que seguirá até a garganta) e leve sugestão de trigo. O final é suavemente amargo e cítrico enquanto o retrogosto reforça essa mesma sugestão.

A terceira, Urbana La Sorciere, chegou ao mercado em setembro deste ano e é uma Belgian IPA que une levedura belga com uma cacetada de lúpulos norte-americanos: Warrior, Summit, Simcoe, Centennial e Cascade. Turva e de coloração alaranjada, a La Sorciere exibe um creme branco de ótima formação e boa permanência. No aroma, a levedura belga parece querer saltar do copo e dar um peteleco de condimentação, fermento e azedume no nariz do bebedor enquanto os lúpulos ficam na retaguarda tentando mostrar serviço, sem muita presença. Na boca, a levedura continua dando as cartas, mas os lúpulos conferem amargor pontual e interessante ao conjunto (são 65 de IBU). Porém, fica nisso: amargor com toque herbal, levedura acenando com condimentação e azedume e malte colaborando com um leve toque resinoso. No final, amargor, especiarias e leve toque de malte. No retrogosto, frutado que remete a manga e amargor insistente.

Balanço
Como diz um amigo, cervejeiro adora tanto criar estilos diferentes pra sua cerveja que às vezes exagera, e essa Trem Bão é um exemplo: o nome Session IPA Saison é uma grande bobagem que mais serve ao marketing do que à informação ao consumidor que consulta o rótulo (quer uma boa India Saison? Vá atrás da Nøgne Ø). Esqueça a definição Session e muita menos IPA e concentre-se no estilo Saison, que define perfeitamente uma bela colaboração da turma paulistana da Urbana com os mineiros da Wäls, uma surpresa refrescante, herbal e agradabilíssima. Lamentei que a garrafa só fosse de 300 ml. Para você ver como são as coisas, o lúpulo que faz falta na Trem Bão (que, segundo o rótulo, tem 23 de IBU) sobra na Boo! (22 de IBU), denominada como American Wheat Beer pelos paulistanos. A categoria é aceitável até porque a estrela desta receita é o lúpulo Citra, que influencia no aroma e no paladar, a ponto de deixar dúvidas se foi colocado apenas no dry-hopping (com a função de perfumar a cerveja) ou no começo da fervura, já que o amargor, ainda que suave, é bastante presente. A terceira é a que melhor se encaixa na descrição do rótulo: La Sorciere é uma Belgian IPA com levedura belga e cinco lúpulos norte-americanos. Falta equilíbrio na presença do fermento, que apaga a lupulagem no aroma. Na boca as coisas se saem bem melhores, ainda que a levedura (que remete ao carro chefe da casa, Gordelicia) se sobressaia ao lúpulo. Minha sensação é que o resultado soa estranho, mas ainda assim interessante: em alguns momentos, doçura e amargor se apresentam intensas no mesmo gole. Ela pode melhorar muito, mas já está num bom caminho.

Urbana Trem Bão
Produto: Saison
Nacionalidade: Brasil
Graduação alcoólica: 4%
Nota: 3,19/5
Preço pago em São Paulo: R$ 13,60 – 300 ml

Urbana Boo!
Produto: American Wheat Beer
Nacionalidade: Brasil
Graduação alcoólica: 4,5%
Nota: 3,11/5
Preço pago em São Paulo: R$ 13,60 – 300 ml

Urbana La Sorciere
Produto: Belgian IPA
Graduação alcoólica: 7%
Nota: 3,05/5
Preço pago em São Paulo: R$ 13,60 – 300 ml

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