Cinema: Chef, de Jon Favreau

por Marcelo Costa

Para os fãs de Friends, o ator, diretor e roteirista Jon Favreau será sempre Pete Becker, o milionário que se interessa por Monica Geller (Courteney Cox) na terceira temporada da série, e compra um restaurante para que ela seja a chef de cozinha, terminando sua participação na série sonhando ser campeão de UFC (em 1997). O currículo de Favreau é bem mais extenso que os seis episódios de que participou da série, mas Pete ficou cravado no imaginário pop.

De lá para cá, Jon Favreau participou de mais de 30 filmes, tendo assumido a cadeira de direção em seis deles, incluindo os mega-sucessos “Homem de Ferro” (2008) e “Homem de Ferro 2” (2012) – uma pequena pérola em sua filmografia é “Love & Sex”, comédia romântica inteligente de 2000 em que ele contracena ao lado de Famke Janssen – mas em apenas dois assumindo todas as responsabilidades (direção, produção, roteiro e atuação): “Made”, de 2001, e “Chef”, comédia dramática de 2014.

“Chef” conta a história de Carl Casper (interpretado pelo próprio Favreau), chef outrora elogiado por críticos gastronômicos, mas que vive sob a sombra do sucesso dos primeiros anos. Embora continue buscando criar receitas criativas, o dono do restaurante em que trabalha (Dustin Hoffman numa ponta eficaz) exige que ele mantenha o cardápio tradicional da casa durante a visita de um famoso crítico, pedido não aceito pelo chef, e que acaba sendo o epicentro de uma série de acontecimentos que irão mudar a vida de Carl.

História típica de redenção, “Chef” se apoia em um elenco estelar (embora os personagens secundários não sejam aprofundados) para discutir destino, crítica (gastronômica / jornalística) e família tendo como pano de fundo o Twitter (e o mundo moderno virtual). Carl acredita que é tem um dom divino de cozinhar, e isso o deixa cego para todas as outras coisas a seu redor, seja o filho de um casamento fracassado (embora ele se de bem com a ex), o chefe no restaurante ou mesmo a opinião (cruel e) virtual de um crítico.

Favreau se sai muito bem como Carl Casper enquanto Scarlett Johansson marca presença como a hostess Molly (com quem Carl tem um caso breve), cujo único pecado é ficar pouco em cena; Sofia Vergara, belíssima, brilha como a ex esposa Ines; Bobby Cannavale (o mafioso de “Boardwalk Empire” e mecânico de “Blue Jasmine”) e, principalmente, John Leguizamo estão ótimos e mais presentes em cena como escada para a atuação de Favreau enquanto Robert Downey Jr. surge numa ponta forçada e absolutamente dispensável.

Quem brilha, no entanto, é Emjay Anthony, garoto de 11 anos que abraçou o papel delicado de Percy, o filho de Carl, e é responsável pelas melhores tiradas do roteiro ao exibir um canion geracional ancorado na tecnologia. É ele quem aproxima o pai das redes sociais num retrato bastante interessante de pessoas que não tem a mínima ideia do que é a internet (e o que determinadas situações podem causar), e consegue transformar um meme cômico numa importante sacada de marketing, praticamente uma aula de comportamento na web para celebridades (e pseudos) em 114 minutos de filme.

Com locações em Los Angeles, Miami, Austin e Nova Orleans, “Chef” conta cenas filmadas em lugares icônicos como o restaurante cubano Hoy Como Ayer, no bairro de Little Havana, em Miami, o tradicionalíssimo Café du Monde, em Nova Orleans, e o incrível Franklin Barbecue, em Austin (o que é aquele churrasco assado durante 13 horas!!!), além de uma trilha sonora que junta jazz latino e música jamaicana, e ainda conta em cena com uma ponta de Gary Clark Jr. tocando “Travis County” e When My Train Pulls In”.

Jon Favreau optou por um filme simples e direto, que se baseia no tradicional formato de “introdução, obstáculo e resolução” sem alterar drasticamente o caráter sentimental da trama nas três passagens. O resultado é um filme passatempo agradável, que ganharia mais corpo se o roteiro aprofundasse a participação do excelente elenco (que acaba por distrair o espectador sem justificar sua presença), mas se contenta em mostrar que, muitas vezes, as boas oportunidades da vida surgem de um erro. Pollyanna aprovaria.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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