Cinema: Jersey Boys, Clint Eastwood

por André Fiori

Em “Jersey Boys: Em Busca da Música” (Jersey Boys, 2014), Clint Eastwood se baseia no musical de sucesso que estreou na Broadway em 2005, ganhou quatro Tony Awards em 2006 e ficou em cartaz durante seis anos rodando por cidades como Chicago, Londres, Toronto, Melbourne e Sydney além de duas turnês norte-americanas (a primeira, em 2006, passou por 38 cidades), uma inglesa e uma pela Malásia, Singapura e Turquia.

“Jersey Boys: Em Busca da Música” conta a vida e carreira de Franke Valli & The Four Seasons, e o conhecimento e interesse musical de Clint é bem conhecido, tendo inclusive já realizado “Bird”, baseado na vida de Charlie Parker, de 1987, e “Piano Blues”, de 2003, que Clint dirigiu para a série “The Blues”, de Martin Scorsese, e conta com entrevistas e performances ao vivo de Ray Charles, Dave Brubeck, Dr. John e Marcia Ball.

Nesta adaptação, Clint Eastwood tenta se livrar das amarras e armadilhas da estrutura de musical. A história é contada sob o ponto de vista de cada um dos quatro integrantes do grupo, descendente de italianos (como seus amigos), Francesco Stephen Castelluccio (Frankie Valli) é um jovem de voz cristalina com um falsete agudíssimo que sonha com a carreira artística (John Lloyd Young, que também vive o músico no teatro).

De onde eles vêm, Newark, na parte barra pesada de New Jersey, um homem tem três modos de vencer na vida: entrar para a máfia, servir o exército ou ser famoso. A carreira do grupo segue em paralelo com a da máfia de New Jersey (não a toa, terra também da série “Família Soprano”), graças ao melhor amigo de Frankie, Tommy DeVito (o Lucky Luciano da série Boardwalk Empire), que é o “músico-problema” da banda, e versado nos assuntos da ‘cosa nostra’.

Nas sequências de ‘filme de gângster’, Clint Eastwood fica naturalmente à vontade, e quem dá um show (como de costume) é Christophen Walken, como o chefão local. Na parte musical, a entrada de Bob Gaudio (Erich Bergen), último integrante a entrar na formação dos Four Seasons (curiosamente apresentado à banda por Joe Pesci, que futuramente ficaria famoso como ator) fez o grupo decolar com suas habilidades de compositor.

“Jersey Boys: Em Busca da Música” é um bom filme e só não é melhor porque Clint esqueceu a tesoura em casa. Muitas das intrigas e situações da trama poderiam ser encurtadas para dar mais ritmo ao filme. Como na maioria das cinebiografias, a narrativa é linear, com ascensão, brigas e peripécias do show-business. Para dar fluência à narrativa, algumas datas e acontecimentos não batem.

O que o filme tem de melhor vem da montagem original: a narração falada para a câmera. A reconstituição da época, com o meio musical, de gravações, etc. também merece elogios, pois é perfeita. A cena do edifício Brill Building, em Nova York (leia mais sobre o Brill Building aqui), é particularmente singela, bucólica e emocionante. E se durante quase toda a projeção, Clint evita o arquétipo Broadway, no final ele não resiste e põe todo mundo pra cantar e dançar na rua numa cena sem meio termo: é para amar ou odiar.

Porém, como as músicas são muito boas (um mérito: boa parte delas é interpreta pelo elenco), é inevitável sair do cinema cantarolando, e ficar cantarolando por mais alguns dias canções como “Can’t Take My Eyes Off You”, cantada no filme por John Lloyd Young, e “My Boyfriend’s Back” (já regravada pelo Raveonettes), com voz de Kyli Rae (interpretando uma das Angels que colocou o single no Top da Billboard em 1963). O filme chegou ao Brasil… bem que a peça poderia vir também.

– André Fiori é colaborador bissexto do Scream & Yell desde 2000 e é dono da Velvet SP

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