A nova cena portuguesa: D’Alva

por Pedro Salgado, de Lisboa

Ambos filhos de mães cariocas e pais africanos, Alex D´Alva Teixeira e Ben Monteiro conheceram-se quando o primeiro organizava shows na Moita (a sua cidade natal, na margem sul de Lisboa) e Monteiro integrava a banda punk Triplet. Ligados por diferentes afinidades musicais, a parceria começou quando Ben gravou e produziu o EP de estreia de Alex, “Não É Um Projecto”, em 2012, pelo selo FlorCaveira, no qual predominava o indie rock. O clipe de “3 Tempos” possibilitou à dupla uma boa visibilidade.

Quando nos encontramos na Lx Factory, um antigo espaço industrial transformado em ilha de criatividade na freguesia lisboeta de Alcântara, a dupla acabara de editar o álbum “#Batequebate” (baixe grátis aqui: http://discos.nos.pt/discos/destaques/batequebate), agora com uma nova identidade, D’Alva. No disco, cruzam-se os ritmos solarengos dos anos 80, o hip-hop e a música eletrônica. O pop colorido do compacto “Frescobol” (inspirado no conhecido esporte de praia) tal como a capa tropicalista do álbum são algumas das múltiplas referências ao Brasil que se encontram em “#Batequebate”.

A faixa “Segredo”, por exemplo, foi escrita por Alex D’Alva quando se encontrava com a mãe numa Igreja Evangélica, no Rio de Janeiro. “O rascunho dele era muito bom e soava a samba, mas tivemos de fazer funcionar dentro da estética das canções existentes, repensando o Brasil”, explica Ben Monteiro. O interesse do duo pela cultura de Internet e a procura de uma característica comum de ritmo e pulsação resultou na adoção de uma hashtag animada como título do disco.

Consensualmente, o grupo pretende tocar no Brasil, Angola e Cabo Verde procurando expandir sua música no universo lusófono. “Costumo dizer várias vezes que o futuro da música portuguesa passa pelo Brasil e foi você quem comentou isso pela primeira vez”, diz-me Alex D’Alva Teixeira. A dupla confessa que o meio musical português ainda está a entendendo essa ideia, “interiorizando-a cada vez mais”, e acredita que o álbum será facilmente entendido pelo público brasileiro.“Se Lovefoxx ler esta entrevista, diga-lhe que queremos fazer uma canção com ela”, prometem. De Lisboa para o Brasil, o D’Alva conversou com o Scream & Yell sobre o seu trabalho. Confira:

Porque vocês decidiram criar uma nova identidade musical?
Principalmente por percebermos que o pop e o formato de canção pop é um território comum. Ambos escutamos música bastante diferente, bem como sonoridades mais densas ou ruidosas. Quando percebemos que o nosso disco favorito era “Spice” (primeiro trabalho das Spice Girls), ficamos mais atentos à produção e achamos interessante a ideia associada ao álbum. O pop é elástico e sobre essa bandeira podemos abranger vários estilos sem perder a identidade. Sentimos que estava faltando música imediata, em português, de uma forma eficaz e relembrando soluções anteriores. Existe uma estrutura base que vem deste os tempos do ABBA, onde não há muito espaço, e o desafio passa por encontrar soluções que funcionem na atualidade, seguindo aquilo que fazemos, e incorporadas nesse conceito musical.

Um aspecto importante de “#Batequebate” é o formato direto das letras. Posso atribuir esse fato à vossa ligação ao selo FlorCaveira?
Por fazermos parte da família FlorCaveira (selo independente português que revelou nomes como Os Pontos Negros, Diabo na Cruz, Samuel Úria e B Fachada, entre outros) temos consciência de que se existe um lugar onde se dá atenção à escrita é nesse selo. Começando no Tiago Cavaco e terminando na pessoa que melhor escreve em português, o Samuel Úria. Aliás, quando ele escutou o nosso disco pediu logo as letras (risos). Nós sabemos que essas pessoas vão estar atentas ao que dizemos, mas ao mesmo tempo percebemos que não somos poetas como Samuel. Acreditamos que estejamos mais dotados para o ritmo. A nossa função é dançar e fazer com que os outros dancem, mais do que inspirar ou levar as pessoas para outros lugares através da palavra. Mas sentimos que a influência desses músicos e do tempo que passamos com eles está presente na música do D’Alva. A forma de escrita do selo FlorCaveira está embutida de humor e sarcasmo e isso reflete-se naturalmente. Somos diretos, mas não fechamos a porta impedindo que o público tenha a sua própria experiência. As nossas canções têm uma direção e narrativa porque não somos adeptos de conceitos abstratos. Os shows que fazemos são suados e a poesia do grupo encontra-se nesse aspecto.

Nas primeiras faixas do álbum, “Frescobol” e “Não Estou A Competir”, os D’Alva abordam o tópico da competição. A quem se referem?
É uma questão pessoal, lembrando que não é preciso ser tão competitivo. Quando iniciamos uma carreira pensamos sempre em ser os melhores, fazer imensos shows ou ter mais fãs e esquecemo-nos da razão pela qual somos músicos. Um amigo nosso escutou “Não Estou A Competir” e disse-nos: “Vocês falam que não estão competindo, mas arrasaram com a concorrência”. Foi uma interpretação interessante, mas não é essa a ideia (risos). O hashtag com que finalizamos tudo o que escrevemos (#somosdalva), esse lado inclusivo, representa um conjunto de pessoas que faz o grupo funcionar e do qual Alex e Ben são apenas a cabeça do projeto. Tirando o hip-hop, porque está na sua gênese, a música não tem de ser necessariamente competitiva.

“Barulho” é um apelo ao inconformismo social?
No momento presente até poderia ser interpretada dessa forma. Já não é a primeira vez que é feita essa associação, porque as canções têm um lado engraçado, no qual os ouvintes podem atribuir-lhes outros significados. Acima de tudo é uma música para funcionar no show e o D’Alva sempre quis ter essa pegada rock. Mas, ao mesmo tempo, está colada com o hip-hop e apela à festa. “Barulho” é quase sempre o ponto alto das nossas apresentações porque promove a celebração, mas não tem nenhum caráter político. No entanto, perante o atual contexto, faz todo o sentido como tema de contestação social.

#Batequebate” é marcadamente dançável. É uma sonoridade que vocês pretendem continuar trabalhando?
É impossível fugir desse caminho. Quando trabalhamos um tema novo, o que nos faz entender que a faixa vai surgir é o momento em que colocamos a primeira frase musical a rodar em loop e não paramos de dançar. Isso é algo que queremos associar sempre ao D’Alva. Pode parecer uma resposta boba, mas achamos que o mundo precisa de mais alegria e alto astral (risos).

Nos dias 11 e 12 de Julho, o D’Alva se apresentará na próxima edição do Festival Optimus Alive, em Lisboa. O que podemos esperar desses shows?
Quando fomos convidados para tocar no Optimus Alive, no dia 11 de Julho, através da entidade organizadora, a Everything Is New, pediram-nos se conseguíamos fazer algo que nunca tivéssemos feito. O show ficou fechado, mesmo sem termos oferecido uma solução e, no momento, tivemos duas ideias: ter um coro de gospel ou uma escola de samba. Foi mais fácil resolver a primeira hipótese, mas conseguimos também a participação de uma escola de samba, com quem não tocaremos agora. A colaboração com o Gospel Collective faz sentido, porque está relacionada com a música que sempre escutamos na Igreja Evangélica. O nosso disco está repleto de harmonias vocais e essa parceria é completamente inédita para o grupo. Posteriormente, surgiu um novo convite para um espaço mais pequeno. Como muitas vezes nos pedem para fazer um show acústico, normalmente nos apoiamos no material eletrônico e mixamos tudo numa mesa. E é isso que vai acontecer no dia 12 de Julho, uma espécie de D’Alva Redux e será algo mais dançável. Estamos curiosos para ver a reação do público.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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