Entrevista: Lestics e o sexto disco

por Bruno Capelas

O que uma banda deve fazer quando um de seus principais integrantes tem de deixar o barco? No caso dos paulistanos dos Lestics, a melhor opção parece simplesmente ter seguido em frente. Depois de ver Umberto Serpieri, tecladista e membro fundador do grupo, deixar a cidade de São Paulo, o agora trio Lestics (Olavo Rocha, letras e voz; Marcelo Patu, baixo e violões; Marcos Xuxa, bateria) volta à tona com um de seus melhores trabalhos, o temático “Seis” (download gratuito no site oficial).

Lançado em maio, “Seis” (o sexto trabalho do grupo, na ativa desde 2007, traz apenas seis canções) mostra uma expansão na sonoridade da banda: dos flertes acústicos com o folk, o Lestics agora se impõe com arranjos elaborados, com a presença de cordas, sanfonas e metais (vale prestar atenção no marcante trombone de Bocato em “Entre Caracas e Paramaribo”, que abre o disco). Apesar de ter poucas faixas, o grupo não encara “Seis” como um álbum. “É um disco fechado, com começo, meio e fim. Hoje em dia, as pessoas tendem a ouvir só as primeiras faixas de um disco. Se ele for curto, cada música tem mais chance de receber atenção”, diz Olavo Rocha ao Scream & Yell, em entrevista por email.

Liricamente, “Seis” é um disco que flerta com a ideia de ser conceitual, contando histórias de um casal à beira do rompimento – um prato cheio para as letras sempre irônicas e conturbadas de Olavo, um dos pontos altos do grupo. “Quis fazer letras menos confessionais e mais narrativas, como nas músicas caipiras de antigamente, que gosto muito. O romantismo torto do disco acabou nascendo dessa busca por histórias”, explica ele.

Na entrevista a seguir, Olavo fala sobre a produção e as inspirações para a realização de “Seis”, retrato também de uma banda que já não pode mais ser chamada de iniciante, mas, que, como a maior parte dos bons grupos musicais do País, não consegue se sustentar com suas canções, apesar de sua dedicação para isso. “A banda não é um hobby, é um trabalho. Para ganhar dinheiro e bancar o trabalho com a música, tenho outro trabalho. A banda é um trabalho com o sentido de produzir alguma coisa, uma ideia complicada de se assimilar quando se enxerga o capitalismo como uma força da natureza (não é)”, comenta o vocalista. “Costumo dizer que não vivo da música, mas sim para a música”. Com a palavra, Lestics.

Quando vocês disseram que o “Seis” ia ser um disco quase conceitual, confesso ter ficado um pouco assustado… (risos). O que motivou a história e o conceito do disco?
Hahaha, eu falei “quase conceitual” e os caras da banda ficaram me zoando depois. Mas não acho a explicação tão ruim assim… O “Seis” não é como o “9 sonhos” (primeiro disco, de 2007), que era um álbum conceitual, ponto. No disco novo a gente buscou um trabalho coeso, tanto tematicamente quanto na sonoridade, mas não existia um “conceito” a princípio. No processo as músicas foram se alinhavando, e o resultado é que dá pra ouvir o disco como se ele tratasse de uma única história. O “quase conceitual” é porque essa leitura é bem aberta.

O “Seis” é um EP, um disco “long-play”, um monte de músicas juntas… Como vocês o conceberam como “produto”? Ou, nos dias de hoje, tanto faz?
A gente vê o trabalho como um álbum regular na nossa discografia. Ele se chama “Seis” inclusive pra deixar isso claro: não é o nosso primeiro EP, é o nosso sexto álbum. É um disco fechado, com começo, meio e fim. Dito isso, ele é curto porque se resolve em seis faixas. E também porque a gente quer que todas essas faixas sejam ouvidas. Dá até pra dizer que existe aí um raciocínio “mercadológico” (pode adicionar mentalmente mais umas duzentas aspas nesse termo, porque estratégia de mercado não é o nosso forte). Acontece que num disco de 11 ou 12 músicas, metade vai ser pouco ouvida (isso é um chute, mas tem por aí estatísticas a respeito). Hoje em dia as pessoas tendem a ouvir só as primeiras faixas de um disco. Se ele for curto, cada música tem mais chance de receber atenção.

Entre o “História Universal do Esquecimento” (2012) e este novo disco, o Lestics perdeu um dos integrantes fundadores, Umberto Serpieri. Por que ele saiu? E como é ir adiante sem ele?
O Umberto saiu porque se mudou de São Paulo… É o que se pode chamar de “motivo de força maior”. Pra banda foi um baque, lógico. A gente se gosta demais e tem uma puta história juntos, de amizade, de afinidade, de música. Então não dá pra dizer que foi um processo fácil. Mas não passou pela nossa cabeça (minha, do Patu, do Xuxa) acabar com o Lestics. O que rolou foi um levanta, sacode a poeira e tal. A gente entrou no estúdio e começou a trabalhar nas músicas novas. E o disco saiu do jeito que a gente queria, o que me deixa muito feliz.

Uma coisa interessante no “Seis” é o apuro dos arranjos, com destaque para as cordas (cheguei até a brincar entre amigos que “Desvario” era o Lestics sinfônico) e o trombone do Bocato em “Entre Caracas e Paramaribo”, elementos que não eram explícitos nos trabalhos anteriores do grupo. Foi ao acaso essa escolha? Que influências entraram no processo de imaginar a paisagem sonora do “Seis”?
A gente sempre quis fazer um disco com cordas, metais, músicos convidados e tudo mais. Isso está nas entrelinhas dos arranjos nos discos anteriores. Mas sempre acabávamos fazendo o trabalho todo “internamente”, até pelas condições mais caseiras de gravação. No “Seis” rolou a oportunidade de gravar o disco inteiro no Estúdio Eletrofônico, com a produção do Marcio Tucunduva. E o trabalho do Marcio foi fundamental para o disco soar como soa. Ele é um compositor que eu admiro faz tempo, e, como produtor, é um cara sensível, cuidadoso. A gente misturou as nossas influências, fomos construindo juntos a sonoridade do disco. Não dá pra calcular o número de referências musicais que a gente foi jogando na mesa nesse período. As nossas conversas sobre música duravam horas e horas, é um papo que começa e você não vê o tempo passar… Ainda mais se o Bocato está na roda, porque as histórias dele são insuperáveis.

As suas letras sempre soaram um bocado irônicas e conturbadas, mas nunca com um peso tão romântico quanto aqui. Como foi explorar esse lado exclusivamente em um trabalho?
Nesse disco eu tentei deliberadamente mudar a cara das minhas letras. No fim das contas elas nem mudaram tanto, mas têm uns elementos novos, umas figuras diferentes, recursos que eu não costumava usar. Eu quis fazer letras mais narrativas, como nas músicas caipiras de antigamente, que gosto muito. E menos confessionais. O romantismo torto do disco (porque ele é bem torto) acabou nascendo dessa busca por histórias, ou por imagens sugestivas de uma história.

Vocês já tem ideia de como vão lidar com os arranjos do disco ao vivo? Vai dar pra brincar com tantas sonoridades diferentes ou terá de ser uma coisa mais enxuta?
Sempre que for possível levar a sonoridade do disco para o palco, a gente quer levar. Por exemplo: vamos fazer um show de lançamento no Serralheria no dia 3 de julho, e vai ter cordas, metais, teclados e tal. Mas o mais usual é fazermos shows mais enxutos, adaptando os arranjos. O que não é um problema pra gente. As músicas são bonitas, elas também funcionam bem com arranjos mais simples.

Nas redes sociais, quando vocês divulgaram “Desvario”, teve gente que brincou que agora o Lestics poderia tocar na novela das 7. Falando dessa perspectiva, como vocês sentem a banda em termos de viabilidade comercial? Ou, de uma maneira mais direta: em termos profissionais e de popularidade, aonde vocês acreditam que o Lestics pode chegar?
Eu não faço ideia. Deve ter um jeito de tocar na novela, mas eu não sei qual é. E não conheço alguém que saiba. E se conheço, esse alguém não me contou. Ou esqueci de perguntar.

Ok, ainda pegando carona na pergunta anterior: como foi paga a produção do “Seis”? E como é a perspectiva financeira da banda? É um “hobby”, um “a mais” ou as contas ficam no zero a zero?
A banda não é um hobby, é um trabalho. Que, no caso, não obedece à lógica “trabalho = fonte de renda”. Pra ganhar dinheiro, e pra bancar o trabalho com a música, eu tenho outro trabalho. O trabalho da banda tem um sentido diferente, o sentido de produzir alguma coisa. Uma coisa que tem um valor independente de grana. Meio complicado assimilar essa ideia quando se enxerga o capitalismo como um fato da vida, uma força da natureza (não é; pergunte às abelhas e aos castores). Mas é assim que tem funcionado. Eu costumo dizer que vivo para a música, e não da música.

Como vocês trabalham a divulgação da banda? Existe alguma estratégia para fazer os Lestics aparecerem no meio do “oceano de irrelevância horizontal da internet” (usando aqui uma expressão do Pena Schmidt)?
A gente faz o disco, disponibiliza pra download, faz o release, distribui pra imprensa por meio de uma assessoria, faz shows, faz um clipe, faz postagens no Facebook. E espera flutuar acima da irrelevância horizontal da internet pela, aham, beleza da nossa música.

Na última entrevista que o Lestics deu ao S&Y, em 2012, a grande pauta da vez eram discos bancados por editais e crowdfunding. Hoje, discute-se muito sobre a chegada do streaming e a monetização da música digital. Procurei por Lestics nos principais serviços do País e não encontrei. Como vocês veem o streaming, tanto como artistas quanto como consumidores de música? Ele é a saída pra a crise da indústria fonográfica? Ou é só, como disse o Thom Yorke, “a flatulência de um cadáver”?
As nossas músicas ainda não estão nos serviços de streaming porque, nesse esquema de “faça você mesmo”, de vez em quando tem umas coisas que você não faz. Isso aí a gente ainda não fez, mas vai fazer. Logo, prometo. Agora, se o streaming é a saída pra crise da indústria fonográfica, aí eu já não sei. Não conheço os números. Nem sei se ainda se pode falar em ‘crise’ em relação aos remanescentes da velha indústria. Outras formas de lucrar apareceram. A música por streaming provavelmente começa a se somar a essas novas fontes de lucro.

O disco acabou de sair, sim, mas depois dele, o que pode vir por aí? Lembro que, em 2012, você comentou sobre um disco ao vivo: será que agora vai?
Pois é, o “Seis” acabou de sair… Agora é hora de fazer shows, divulgar o trabalho. E depois, permanece a questão de 2012: dá vontade de fazer o disco ao vivo, mas também dá vontade de fazer músicas novas. A gente sempre quer fazer músicas novas, é por isso que o Lestics já está no sexto disco.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– Entrevista: Lestics (2012) -> “O país precisa investir em cultura” (aqui)
– Quatro vídeos do Lestics ao vivo em São Paulo em 2011 (aqui)
– “Aos Abutres”, quarto disco dos Lestics, é pop da melhor qualidade (aqui)
– “Em faixas como ‘Velho’, o Lestics consegue quase tocar o céu” (aqui)
– “9 Sonhos” e “les tics”, dois discos urgentes para serem baixados agora (aqui)

5 thoughts on “Entrevista: Lestics e o sexto disco

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