Cinema: Malévola

por Bruno Lisboa

O tom de “Malévola” (“Maleficent”, 2014), novo projeto da Disney, pode ser resumido em uma belíssima cena em que a Princesa Aurora é vista, durante a infância, em um passeio despreocupado pela floresta até o momento em que se depara com Malévola, clássica vilã do mundo infantil. Ao contrário do que o momento poderia sugerir, a tensão e o espanto dão lugar a uma empatia no qual um pedido de colo por parte de Aurora quebra todo gelo inicial.

A trama é baseada no conto da “A Bela Adormecida”, cuja versão mais conhecida é a dos Irmãos Grimm, publicada em 1812, e “Malévola”, com direção assinada pelo estreante Robert Stromberg, tem como proposta a reinvenção do conto, que já havia sido adaptada para as telas em 1959, em forma de animação. Para esta nova empreitada, a produção apostou na total reformulação do mito.

Buscando um novo viés para a famosa história, o roteiro da experiente Linda Woolverton (que assinou, entre outros, as adaptações de “A Bela e a Fera”, de 1991, “O Rei Leão”, de 1994, e a versão de “Alice No País das Maravilhas”, dirigida por Tim Burton em 2010) revela a perspectiva da trama partindo do ponto de vista da bruxa, e mesmo cometendo algumas falhas, vai ao encontro das origens de Malévola.

“Malévola” se inicia em Moors, lar de seres mágicos, local em que a jovem fada alada (interpretada quando criança por Isobelle Molloy, jovem por Ella Purnell e adulta por Angelina Jolie) vive pacificamente às margens do reino humano. Tudo se transforma a partir do momento em que a jovem Malévola conhece Stefan, garoto ambicioso que almeja se membro da corte, e se apaixona. Acometido pela ambição, Stefan se rende as vontades do rei, que deseja a morte de Malévola, retira suas asas e faz com que a fada perca totalmente a fé na raça humana.

Após vários anos, Stefan se torna o novo rei (interpretado por Sharlto Copley), se casa e tem uma filha chamada Aurora (Elle Fanning). Em resposta, Malévola, agora uma poderosa bruxa, põe em prática seu plano de vingança, lançando uma maldição sob a recém-nascida criança: quando a princesa Aurora completasse 15 anos de idade e entrasse em contato com uma roca de fiar, adormeceria eternamente até o momento em que um beijo de amor verdadeiro a despertaria.

Apostando em largo apelo visual, a narrativa de “Malévola” migra para a uma distante floresta onde Aurora é criada por um trio de fadas madrinhas, distante da civilização humana, visando sua proteção ante a maldição que lhe fora destinada. Mas, eis aqui que surge o grande trunfo do filme: a humanização de Malévola baseada em uma forte ligação maternal entre bruxa e princesa. A até então odiada princesa agora cresce sob sua proteção e tutela. A paz é selada até o momento em que a maldição se concretiza de forma acidental e muitas outras surpresas surgem até o final.

Angelina Jolie brilha em cena: sua presença e dedicação são tão grandes que qualquer outro ator em cena se apequena. Colaborando não somente com a uma expressiva atuação, Angelina Jolie também é responsável pela caracterização da personagem, fator que torna inimaginável outra atriz exercendo o papel. A angelical Elle Fanning empresta toda a sua beleza a uma sempre sorridente e encantadora Aurora enquanto Sam Riley (o Ian Curtis de “Control”, filme de 2007 de Anton Corbijn) faz o papel do servil corvo Diaval, parceiro de Malévola.

Ao transformar uma vilã em heroína, capaz de aprender com seus próprios erros, a Disney segue a risca um padrão recente de desconstrução mítica que pode ser visto ainda em filmes como “A Princesa e o Sapo” (2009), “Valente” (2012) e “Frozen” (2013) mostrando que príncipes podem não ser mais mocinhos, princesas podem não ser tão ingênuas e servis, reis nem sempre são bons e bruxas nem sempre são más. Esta reinvenção (uma alternativa que parece dar sobrevida ao estúdio que parecia estar esgotado de fórmulas) tem tudo para se manter a Disney no topo por mais alguns anos.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator e colunista do pignes.com

One thought on “Cinema: Malévola

  1. Acho interessante essa de destruírem o mito de que bondade é só bondade e maldade é só maldade. Somos tudo em um só. Podemos ser cruéis e logo em seguida nos solidarizarmos com um animalzinho ferido. Este é o ser humano.

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