Cinema: A Culpa é das Estrelas

por Bruno Lisboa

“The Fault in Our Stars” é o quarto romance de John Green. Publicado em janeiro de 2012, o livro atingiu o número 1 na lista de bestsellers da Amazon e Barnes & Noble no julho seguinte, mesmo mês que ganhou uma edição nacional, via Intrínseca, com o título traduzido para “A Culpa é das Estrelas”. Agora é a vez do sucesso se repetir nos cinemas, e o resultado alcançado é digno de nota e apreciação.

Dirigido por Josh Boone (do bom “Ligados pelos Amor”, 2012), “A Culpa é das Estrelas” (2014) traz à tona a história do jovem casal Hazel e Augustus, ambos vivendo momentos cruciais em suas vidas: o fato de estarem com câncer em estado avançado (Gus Van Sant tocou nessa tema no delicado “Os Inquietos”, de 2011). Para abordar este tema tão complicado, o roteiro escrito pela dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber (responsável pelo ótimo “500 Dias com Ela”, 2009) aborda com maturidade o dilema.

Fugindo da pieguice e dosando de maneira equilibrada os habituais clichês dos filmes românticos adolescentes, “A Culpa é das Estrelas” traz à tona, desde o início, um texto reluzente e didático, sem a pretensão de trazer falsas esperanças ao espectador, que, ao longo de 126 minutos de projeção, se desidrata aos prantos a cada nova guinada na história, que segue basicamente à risca a obra original.

Somado ao ótimo texto, há de se vangloriar a força motriz do filme: as atuações da dupla Shailene Woodley (garota prodígio de “Os Descendentes”, de Alexander Payne, 2011) e Ansel Elgort (ator presente no remake de “Carrie – A Estranha”, 2013): ambos conseguem transpor de forma sincera toda a carga de emoções que são destinadas aos seus personagens protagonistas. Empatia e sintonia, intercalando momentos hilários em situações delicadas, são executadas de tal forma que nos faz esquecer por vezes que ambos estão rumando de encontro à morte.

Não bastasse o acerto com a dupla principal, o elenco ainda conta com coadjuvantes de luxo emprestando sua vasta experiência e entregando interpretações ricas e memoráveis, como a magnífica Laura Dern (da trilogia “Jurassic Park”, para os menos aficionados em sua vasta carreira, que ainda conta com diversos trabalhos comandados por David Lynch) e Sam Trammell (da série “True Blood”) interpretando os pais da jovem Hazel, respectivamente, e o grande Willem Dafoe (de “A Vida Marinha com Steve Zissou”, 2004, “Manderlay”, 2005, e “Anticristo”, 2009, para ficar em três apenas deste século) dando luz a um escritor decadente e alcoólatra.

Permeado por referências pop – principalmente cinematográficas –, o longa tem como trunfo o recurso visual de trazer à tona os diálogos realizados via celular pelos protagonistas em forma de balões oriundos dos quadrinhos. Para criar ambiência, a trilha sonora organizada por Nate Walcott e Mike Mogis, ambos membros da grupo Bright Eyes, é composta por faixas de Birdy, Ed Sheeran, Jake Bugg e Likke Ly, entre outros artistas da cena indie pop, que mantém o tom adocicado da obra resultando em algo agradável aos ouvidos.

Em tempos onde o vazio das relações amorosas e o imediatismo imperam no mundo real, a doçura impressa em “A Culpa é das Estrelas” nos faz lembrar, inicialmente, dos dias em que fomos mais ingênuos e acreditávamos veemente que o amor inocente era algo tangível e a principal razão para se viver. De certo modo, livro e filme ainda vão além e cumprem o papel de levar as massas um ideia hoje quase ignorada: viver cada dia como se fosse o último.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator e colunista do pignes.com

Leia também:
– “Inquietos”: Gus Van Sant conduz de forma lenta sem tornar a história enfadonha (aqui)
– “500 Dias com Ela”: Botton e Webb acertam no tom de tragicidade realista (aqui)
– “Os Descendentes”:  por duas horas, Alexander Payne enleva o espectador (aqui)
– “Manderlay”: Lars von Trier continua aquele cínico de sempre (aqui)

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