Festival We Love Green, Paris, 2014

por Danilo Lovisi

Tudo começa numa festinha particular de Maria Antonieta. Ela receberia alguns convidados reais na sua corte, mas julgou os domínios pouco preparados para a festa que queria oferecer. Impõe, então, um desafio: a construção de um pequeno castelo rodeado por um vasto jardim repleto de plantas exóticas. Nasce aí o Parc de Bagatelle, construído em menos de 100 dias, para que a jovem Marie pudesse dar sua festinha pros mais íntimos. Menina Copolla was not wrong.

Foi nesse bucólico cenário parisiense onde aconteceu o último eco-festival We Love Green. O conceito está já implícito no nome: um evento que procura mesclar música, comida orgânica e conscientização ecológica através de mini-conferências feitas antes e depois dos shows, em ocas espalhadas pelo parque. Com uma curadoria artística que soube escolher um line-up, digamos, bem orgânico, e que soube também se integrar com o contexto e os momentos de cada show, acompanhados por sol até às 22h (c’est le printemps!) do sábado e um mormaço agradável durante todo o domingo.

Na escalação, London Grammar, Cat Power, Lorde, Foals e SBTKRT dividiram esses dois dias com novatos que chamaram a atenção, como o duo norte-americano de soul-jazz-rock-funk Jungle, o grupo de pop-rock-psicodélico francês Moodoïd e o jovem rapper Earl Sweatshirt.


Embora faça parte dos domínios parisienses, o parque se encontra um pouco afastado do centro. A organização, porém, ofereceu ônibus gratuitos saindo da estação de metrô mais próxima para que os festivaliers pudessem chegar tranquilamente no Château de Marie-Antoinnette. Mas era também possível ir de bicicleta (há uma estação de bicicletas públicas a quase cada esquina de Paris) ou de carona, através de um aplicativo desenvolvido pela própria organização do We Love Green.

Logo chegando, o espectador podia se servir de protetores de ouvido (é um costume bem francês, o de usá-los em shows) e de mini cinzeiros em latinhas provavelmente recicláveis. Dando um tour pelo gramado você encontrava vários stands instalados em grandes ocas de lona. A maioria das barraquinhas de comida ofereciam pratos bio, equivalente à orgânico em português. Preços salgados e filas enormes no primeiro dia.

Você também podia comprar umas bijuterias, assistir uma palestra do Greenpeace…

…recarregar seu celular e aproveitar pra exercitar um pouquinho. 15 minutos de bike igual a 2% de bateria de um iPhone. O suficiente pra postar aquela foto do pôr do sol ouvindo London Grammar no final do dia…

…ou plantar suas próprias mudas de frutas & legumes…

…e recuperá-las no final do dia!

Conhecer o stand do Comptoir Géneral, um bar-museu-biblioteca e centro cultural africano e gueto, que é um dos lugares mais hype e interessantes de Paris atualmente.

E, lá, tirar uma foto entrando no seu próximo voo pra algum país africano.

Encarar alguns minutos de fila pra ter sua coroa de flores customizada – o preço, aliás, nada se distancia da coroa da nossa hostess Antoiniette: 12 euros por galhinhos e florzinhas, mas tudo bem.

Dentre os vários artistas escalados para o início da tarde de sábado (31/05), destaca-se o show de Cat Power que, sozinha com sua guitarra acústica e um piano, conseguiu chamar a atenção d’um público embaixo d’um sol de 23 graus (isso aqui é calor, ok?). Porém, visivelmente inquieta e incomodada com a própria performance, Marshall negava os aplausos num gesto de modéstia pois, segundo ela mesma, “it’s so boring, I’m sorry”. É compreensível, dada a vibe completamente destoante do seu último trabalho, “Sun”, no qual encontramos beats eletrônicos, percussões marcadas e vocais por vezes raivosos (mas sempre domados por sua voz instigante). Ela emendava uma canção na outra – a maioria dos primeiros discos – fazendo com que seu show formasse, na verdade, uma só canção de uma hora. E isso foi confirmado por ela mesma, no meio da performance: “I’m tired. Same songs, different words. Different words, same songs. I’m sorry”.

Assisti-la de perto era perceber a angustia de uma artista vulnerável (ela bebia água tremendo, e pautava cada pausa por um “fuck” a cada leve falha de acorde). Se fosse ao menos noite e num café, o show neste formato poderia funcionar melhor. Nos resta o testemunho da sinceridade artística de Cat Power que, incomodada com a própria performance, repetia: “Same songs, different words. That’s what I do, that’s my ticket. I’m sorry”, enquanto emendava no refrão de “Brave Liar”. Auto-indiretas à parte, ela se despede já atrasando o próximo show (a equipe já havia entrado no palco pra preparar os outros instrumentos) e joga flores brancas já mornas do sol pr’um público levemente decepcionado por não ouvir nem um eco de “Sea of Love”, que caberia perfeitamente nesse formato voz, guitarra acústica e uma cantora sinceramente incomodada consigo mesma. Vai ver é melhor do que mentir o contrário.

Aproveitando a pausa, as barraquinhas de produtos orgânicos nos aguardavam. O problema é que elas eram de fato pequenas, como que numa quermesse, mas com um publico de mais de 10 mil pessoas. Filas de uma hora para comer, filas de uma hora para ir ao banheiro (caso você fosse uma pessoa indisposta a se arriscar atrás dos cercados do painel de energia solar). O show da banda sueca Little Dragon já havia começado bem – ouvia-se de longe – tirando o publico da atmosfera reflexiva e passional deixada pela voz de Power. Os aplausos ecoavam pelo parque a cada novo hit, como “Klapp Klapp” e “Little Girl”. E a fila do prato africano à base de peito de frango, repolho e toques de curry avançava lentamente. Ao menos um gelado copo de Secousse, drink de maracujá, flor de hibiscus, vodka e melancia estava em mãos pra refrescar.

Já é tempo para o início de um dos headliners da noite, London Grammar. 21h30 e o sol começa a querer se deitar. Os rapazes do trio entram no palco, acompanhados por um quarteto de cordas – pelo visto uma novidade da turnê dos ingleses. As camadas sintéticas, os beats delicados e as notas precisas de guitarra começam a elaborar a atmosfera minimalista – e em constante tensão – que é a característica do som do grupo. Hannah Reid entra em cena, calma e sóbria. Olhando em direção ao sol que se deita, ela o chama. Sua voz ecoa por todo o parque numa improvisação potente e arrepiante do início do hit “Hey Now”. O chamado sendo feito, o público já é pego nas primeiras canções. Tocando praticamente todo o primeiro e único álbum do grupo, “If You Wait” (2013), o show se dá nessa constante tensão entre a voz clássica de Hannah envolvida por uma roupagem contemporânea e, hm, sexy. Um sexy plástico, construído. “Shyer”, “Flickrs” e o outro single “Wasting My Young Years” são tocadas numa sintonia visível entre os integrantes. O desenho de luzes do palco é também personagem importante, visto que num dado momento Hannah “sumia” da nossa visão e o que restava era sua voz. Isto que foi a marca da faixa que fechou o show num êxtase eletrônico emaranhado pelo vocal potente de Hannah, em “Metal & Dust”. Sem hesitações, eles sabem o que estão fazendo e estudar um pouco mais essa gramática nos próximos anos será necessário.

Quem fecha a noite é SBTRKT, projeto do multi-instrumentista Aaron Jerome (é assim que chamam, hoje, àqueles que conseguem tocar mais de um aparelho eletrônico ao mesmo tempo – uma questão a refletir). No palco, um grande cão com os mesmos traços da máscaras que Jerome usa em seus shows, para afirmar sua identidade de SBTRKT. Definitivamente um dos shows mais esperados pelo público do dia, seus pontos altos se deram durante as participações ao vivo de Sampha e Denai Moore (que cantaria no festival no dia seguinte). Uma pena que Yunikimi Nagano, do Little Dragon, não apareceu para dar cor ao hit “Wildfire”, mesmo que ela estivesse no festival mais cedo. O show não economizou nos efeitos e lasers dos mais diversos foram utilizados enquanto o corpo eletrônico emplacava composições do seu novo álbum, “Transitions”. Uma transição que soube bem resumir o dia, mesclando o orgânico da voz dos cantores com os bem compostos beats eletrônicos. Nos resta então seguir em direção ao metrô mais próximo (os ônibus gratuitos estavam já muito lotados), guiados pelas luzes quentes – mas econômicas – das barraquinhas e de uma lua crescente.

O segundo dia começa mais tranquilo, o sol se mostra tímido e temos um domingo acompanhado por um mormaço que se prolonga até a noite num clima agradável. Os parisienses, irritados com os problemas organizativos do dia anterior, venderam vários de seus ingressos do domingo ou simplesmente não vieram, deixando o Parc de Bagatelle livre àqueles que queriam aproveitar os shows de Lorde (em data exclusiva na França), Foals e de novos e ótimos nomes como Jungle, Modooid e Earl Sweetshirt.

Começando pelos franceses do Moodoïd, o pop-rock-indie-psicodélico do grupo é visivelmente influenciado pelas décadas anteriores, seja pelo figurino flamboyant à la David Bowie, ou pelos vocais prolongados, as guitarras etéreas estilo Marc DeMarco (mega hype no meio cool parisiense). Em “Je Suis La Montagne”, podemos até sentir alguns traços d’Os Mutantes, o que talvez possa também se dizer pelos vocais do colorido single “De Folie Pure” (da pura loucura), que de fato mistura loucamente beats tropicais, orientais e um groovy que convida a dançar bebendo um drink de vodka ao molho pardo. Breve, o grupo foi uma boa escolha pro final de tarde, preaquecendo o público para o que viria a seguir com os angleses de Jungle.

Porém, no entreato chega Earl, integrante do hypado coletivo hip-hop Odd Future, dessa vez num cenário, digamos, minimalista: um dj, próprio Earl usando um moletom amarelo, e sua música. O público demora pra entrar no clima, mas depois de várias chamadas raivosas do rapper, plenas de “fucks” and “dammnts” , eles são pegos pelas batidas graves do dj que o acompanhava.

Uma das maiores surpresas do dia são os ingleses da Jungle, grupo que ainda não lançou nem EP nem CD, mas que já vem causando certo frisson nas interwebs graça aos seus clipes e o incontrolável groovy funk-soul oitentista remodelados pros dias de hoje. É com “Busy Earnin’”, acompanhada de coreografias à la época das camisas lantejoladas que o parque se vê em dúvida de que década se encontra. “The Heat”, cheia de marra e de batuques à la Metronomy faz a francesada dançar, seguida de músicas ainda desconhecidas. Uma banda pra se seguir nos próximos anos. O que sairá de lá não sabemos, mas que já possuem um ao vivo de fazer remexer mesmo o mais blasé dos parisienses, isso é inegável. Assistir ao clipe de “Platoon” e ver essa menina de menos de 10 anos dançando é uma ordem.

Com 18 anos de idade, alguns milhões de álbuns vendidos pelo mundo, e hits emplacados na web em apenas alguns meses, a néo-zeolandesa Lorde é a primeira headliner da noite e, julgando pela ansiedade do público antes do início do show, um dos nomes mais esperados do festival. O que é compreensível, vide que a curadoria do We Love Green conseguiu fechar um contrato de exclusividade na França com a jovem promessa do pop soturno, sintético e passio-gutural da menina. Com inegável presença de palco, interpretações à flor do mais fino dos fino dos seus cachos, Lorde construiu um show conciso mesmo que acompanhada de poucos ornamentos: teclados e bateria eletrônicos. Embora sua voz tenha que ter sido socorrida várias vezes por bases pré-gravadas dos backing vocals originais, sua capacidade de se dar completamente a cada música é aplaudível. O hit “Royals” chega, claro, pro final do show, e o cenário instalado se faz presente: três enormes molduras douradas sob um fundo de cortina vermelha, junto de um lustre no meio do palco. Todos esses elementos acendem, dourando palco e público numa vibe da realeza do pop contemporâneo. Vai ver essa seria uma das convidadas de Marie Antoinette pra sua festinha na grama fresca da primavera parisiense.

Fechando o dia em preto e roxo, Lorde dá o aval para que grande parte do público parta, fazendo com que restem apenas àqueles preparados pro último show da noite, o dos ingleses do Foals. E não foram poucos. Embora com quase 30 minutos de atraso, somando aí uma queda de energia no segundo exato da entrada da banda (os geradores movidos a dejetos orgânicos não suportaram tanta carga ao final do dia), eles abrem com a animada “My Number”, antes pontuando a importância de um festival que se preocupe com o meio-ambiente, “porque isso será o futuro”, afirma Yannis Philippakis , vocalista.

Com tempo curto, lhes restou fazer um show denso e sem pausas pra reflexões com o festivalier do lado. “Spanish Sahara”, “Late Night” e a catártica “Inhaler” foram gritadas por banda e público até a última faísca que ainda restava dos geradores desse festival que tentou mesclar consciência ambiental (salgada por preços um pouco abusivos), boa música (a curadoria foi de fato afinada e, digamos, orgânica no que diz respeito a escolha dos artistas) e um público eclético, disposto a se repousar na grama com suas coroas de flores (alo, Marie!), saber qual o melhor destino para os restos do jantar de domingo, ao mesmo tempo que descarrega suas necessidades de assistir um belo espetáculo de música num dos parques mais bucólicos da capital francesa. Se Marie-Antoniette ficou contente com sua festinha há alguns séculos atrás nós não sabemos, mas que seu legado serviu para um final de semana peculiar, c’est vrai!

– Danilo Lovisi (@danilovisi) assina o blog Chaleira Muda e coedita a revista de literatura @um_conto. Fotos de Danilo Lovisi, Yulya Shadrinsky, Cyril Gourdin, Chad Wilson e Thomas Lavelle. Confira o álbum de fotos oficial no Facebook do festival.

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