Entrevista: Bestia Bebé

por Leonardo Vinhas

Não é sempre que você escuta uma canção e não consegue associar o seu som a nenhuma outra banda a não ser aquela que está tocando. Desenvolver uma identidade musical leva tempo, e é uma tarefa tão árdua que há bandas com anos nas costas que não logram realiza-la com sucesso. Esse fato raro é possível, e com louvores, quando o álbum em questão é a estreia epônima dos argentinos Bestia Bebé.

Não que não haja referências. Qualquer obra é criada a partir das experiências próprias, rejeições, aspirações. Ou seja: sempre se parte de algum ponto, e o do Bestia Bebé contém Teenage Fanclub, futebol, vivências da adolescência, filmes, videogames, Arctic Monkeys, underground portenho, leituras solitárias no quarto. Mas o resultado final é só deles, pessoal e irrepetível, gentilmente compartilhado com o ouvinte em um disco com ótima capa e disponível para download gratuito (baixe aqui).

Tom Quintans (voz, guitarra e teclados), Chicho Guisolfi (baixo), El Polaco Ocorso (bateria) e Topo Topino (guitarra) são quatro garotos de subúrbios bonaerenses, e essa origem ajuda a conferir a “identidade de bairro” no DNA da banda. Esse espírito de intimidade e camaradagem da vizinhança é traduzido em sua música, um rock simples, forte sem ser pesado; ora rápido, ora cadenciado, que impulsiona letras diretas e encantadoras, desde uma apaixonada declaração de amor a um Fusca (“Wagen del Pueblo”) até a saga de insistir no afeto com quem só pisa na bola (“Lo Quiero Mucho a Esse Muchacho”).

“Sem dúvida, é um disco muito otimista, até as canções mais tristes deixam uma sensação de esperança”, diz Tom Quintans. De fato: você termina a audição do disco desejando ser uma pessoa melhor, simplesmente porque não sê-lo já não faz mais sentido. Não é a “fofura” indie infantilizada: a banda sabe que a vida não é para iludidos. Mas nem por isso é necessário perder a ternura. Abaixo, Tom Quintans conversa com o Scream & Yell sobre o disco, sobre futebol e sobre a paixão por um fusca.

Dá para dizer que “Bestia Bebé”, de 2013, é o primeiro disco da banda? Sei que existe “Bonitas Páginas” (2012), mas vocês mesmo dizem que ele é um “ensaio gravado”. E o registro sonoro dos dois é realmente muito diferente.
Logo que começamos quisemos gravar algo para poder mostrar algumas das canções. Fomos ao estúdio de Peta, onde depois fizemos o disco, e lá gravamos um ensaio. E de fato não o consideramos um disco: é um ensaio gravado naquele momento da banda que foi subido à internet.

A formação é a mesma desde o começo?
Lá pelo ano 2009 comecei a compor algumas canções e as gravei em um disco “solo”, “Fin de Semana de Muertes”, com o nome de Tom y la Bestia Bebé. Chateava-me muito tocar sozinho, e nunca gostei da ideia de ser artista solo, então procurei uns amigos para que se juntassem. No começo de 2012 chegamos à formação atual.

Acho tocante que haja uma canção sobre “nosso” Fusca, um ícone brasileiro. É uma história inventada, ou o carro existe mesmo?
Que massa! Sim, é meu carro, um Fusca de 1980. É uma máquina, mais que dá conta do recado e nunca me largou na mão. Ainda assim requer muito cuidado e dedicação, coisas que às vezes não lhe dou, hehe.

Falando nisso: todas as canções do disco permitem uma identificação quase imediata se o ouvinte é uma pessoa “do bairro”, não importa se de uma cidade pequena ou grande. De onde veio essa vocação paroquial, essa coisa de ser a voz dos amigos do quarteirão?
Eu nasci e me criei em Boedo, um bairro da cidade de Buenos Aires. Esta é a minha realidade, mas neste disco as letras não remetem apenas às minhas vivências, mas também a histórias de amigos, filmes e coisas inventadas também.

As letras são todas em primeira pessoa, no singular ou no plural. Ser sincero é mais fácil que viver um personagem, ou os personagens estão ocultos em uma narração fictícia que se disfarça como pessoal?
A verdade é que eu nunca havia prestado atenção nisso. Mas como disse antes, às vezes as letras contam histórias minhas e outras vezes não, ora reais ora inventadas.

O som é simples, direto e bem pop. Porém há detalhes e elementos que me fazem pensar na influência de bandas noise.
Sempre tento procurar um som particular para os discos, gosto que exista algo que os diferencie. Neste gravamos muitas guitarras ‘criollas’, teclados, percussões, instrumentos que não usamos ao vivo. Me parece que teria sido mais simples gravar a banda e lançar o disco. Só que gostamos muito das bandas que fazem barulhos com as guitarras e com teclados estranhos.

Olha, sei que te perguntam sempre, mas tens que contar aos brasileiros a história por trás da capa do disco
A ideia foi tomada de uma foto que meu amigo Reno me mostro, na qual estava o time de futebol de seu pai, muito semelhante ao da capa. Quisemos reproduzir isso, mas com personagens mais exagerados e particulares, que não parecessem jogadores de futebol. Então buscamos alguns amigos e propusemos que eles saíssem na foto. E aceitaram.

O futebol está presente não só na capa, mas nas letras e talvez no espírito de equipe que parece emanar das apresentações ao vivo. Qual a importância do futebol para o Bestia Bebé?
Gostamos muito de futebol, assim como a maioria das pessoas que conhecemos, porém não é mais que outro componente de todas as coisas das quais gostamos e nos inspiram, nem mais nem menos.

E já que estamos falando de futebol, arrisque suas previsões para as campanhas do Brasil e da Argentina na Copa.
Sabe-se que se o Messi fizer um excelente mundial, a Argentina vai ter muitas chances de conseguir a Copa. Da mesma forma, acho que é fundamental o rendimento do Di María como conector entre os volantes e os atacantes. Também poder conseguir um pouco mais de solidez na defesa, que ultimamente é um flan. O Brasil, por ser da casa, tem tudo para ganhar. Isso pesa muito. Precisamos ver se os jogadores serão motivados ou liquidados por essa pressão. Será um mundial particular para o Brasil, já que em minha opinião vocês têm melhores defensores que atacantes, e vai ser estranho ver vocês jogando no contra-ataque mesmo sendo locais.

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yel

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