Boteco: dos EUA, seis cervejas da Green Flash

por Marcelo Costa

A Green Flash West Coast IPA é uma tradicionalíssima American IPA com “um zoológico de lúpulos”, como avisa o site oficial – a receita inclui os lúpulos Simcoe, Columbus, Centennial e Cascade. De coloração âmbar caramelada e creme levemente alaranjado, a West Coast IPA destaca um aroma intensamente lupulado (eles não estavam brincando na apresentação) com nuances cítricas (toranja) e herbais (pinheiro). Há ainda sensação de resina, caramelo, limão siciliano e um leve toque floral. Na boca, os 95 de IBU da receita dão o recado com uma pancada de amargor que fará lupulomaniacos verem estrelas: em meio a rispidez amarga do lúpulo é possível perceber notas cítricas (mais toranja), herbais (pinheiro) e leve condimentação. O final, como era de se esperar, é amargo e persistente enquanto o retrogosto traz amargor, resina, toranja e limão. Uma India Pale Ale de muito respeito.

Já a Saison Diego é a homenagem da Green Flash para o tradicional estilo belga, e os norte-americanos não economizaram na receita incluindo laranja Seville (azeda), gengibre chinês e Pimenta-da-guiné, esta última conhecida nos Estados Unidos como grãos do paraíso. Não filtrada, a Saison Diego exibe uma coloração amarelo palha com leve turbidez destacando um creme branco de boa formação e permanência. No nariz, tanto as especiarias quanto o delicado azedume da laranja chamam a atenção deixando o bebedor na dúvida se está diante de uma witbier, uma farmhouse ale ou mesmo uma sour ale. É possível ainda sentir damasco, creme de milho, limão galego e leve trigo. Na boca, a opção Saison / Farmhouse se prova correta, com uma acidez cítrica moderada (limão e laranja), picancia clássica das especiarias (com a pimenta pinicando a língua) e um azedume suave refrescando o bebedor – por isso, a Saison Diego é excelente para o verão. Há ainda percepção de trigo, que adocica o trecho final, levemente apimentado. No retrogosto, leve cítrico, trigo, pimenta do reino e refrescância.

A Hop Head Red era para ser uma American Amber Ale, mas o pessoal de San Diego tascou tanto lúpulo na receita (Columbus, Nugget e Amarillo mais dry-hopped de Amarillo) que ela se transformou em uma American IPA com 70 de IBU e 7% de álcool (uma mudança na receita feita em 2011 elevou os números originais de 2007, que eram 54 de IBU e 6.4% de álcool). De coloração âmbar caramelada, a Green Flash Hop Head Red exibe um creme bege de formação excelente e alta permanência. No nariz, uma intensa sugestão de resina dança de rosto coladinho com um universo de notas cítricas (com mais ênfase no maracujá). Há, ainda, notas florais e herbais (pinho). Na boca, o amargor do caminhão de lúpulos é intenso e resinoso, gruda no céu da boca e desce rasgando a garganta. Pelo caminho é possível perceber a sugestão de maracujá, pinho e um leve dulçor caramelado. O final é amargo, floral e resinoso com leve reforço de maracujá. O retrogosto é resina e amargor, mais amargor e um pouco mais de amargor. Intensa.

A Green Flash Double Stout Black Ale é a Imperial Stout da casa, com receita que une toneladas de aveia, malte Dark Crystal e malte torrado com lúpulos norte-americanos. De coloração preta intensa com creme bege de belíssima formação e longa permanência, a Double Stout Black Ale destaca no nariz as notas derivadas da torra do malte valorizando a sugestão de chocolate amargo e café, com suave percepção dos 8.8% de álcool. O conjunto ainda traz sugestão herbal (muito interessante e rara no estilo), baunilha, melaço e leve defumado. Na boca prevalecem as deliciosas notas derivadas da torrefação, com chocolate amargo e café distraindo o bebedor. Se há pouca percepção de aveia no aroma, no paladar sua presença é mais enfática, o que, de certa forma, equilibra o conjunto. O álcool é perceptível, mas não incomoda, aquecendo o céu da boca e o final do gole, que traz chocolate, amargor moderado (tanto de lúpulo quanto do malte torrado) e leve toque herbal. No retrogosto, café, álcool e terra. Muito boa.

A Le Freak é a Belgian Tripel da turma da Green Flash, e, como não poderia deixar de ser, os caras atolam lúpulo na receita (que ainda conta com duas linhagens de levedura belga) alcançando a marca intimidante de 101 de IBU. De coloração âmbar e creme levemente alaranjado de ótima formação e longa permanência, a Green Flash Le Freak traz ao nariz uma paleta de aromas vasta que reúne notas cítricas intensas (maracujá, maçã verde e abacaxi) mais frutado (damasco), resina, caramelo, ervas, calda de pêssego, especiarias (pimenta do reino e canela) e, por fim, álcool (são 9,2%) Na boca, uma sensação de tripel belga surge no primeiro toque e é logo sobreposta pelo amargor cítrico dos lúpulos num conjunto que repete no paladar a complexidade do aroma: é possível perceber maçã verde, damasco, resina, casca de laranja, especiarias e caramelo num conjunto que começa levemente adocicado e termina amargamente maltado, com o álcool aquecendo a garganta. No retrogosto, limão siciliano, resina, damasco e álcool surpreendem. Proposta interessante.

Após tantas radicalizações, a Green Flash Grand Cru surpreende por ser uma Belgian Strong Ale bastante fiel ao estilo, ainda que se possa perceber (devido ao lúpulo) que ela é mais norte-americana do que europeia. De coloração âmbar escura com creme de boa formação e media permanência, a Green Flash Grand Cru traz no aroma as notas clássicas do estilo derivadas tanto do malte levemente tostado quanto dos 9,1% de álcool: caramelo, baunilha, frutas escuras (ameixa) e melaço surgem embebidos em álcool, coçando o nariz que já adianta que o calor será grande. Há, ainda, notas herbais remetendo a pinho. Na boca, uma perfeita sincronia entre o dulçor do malte, o amargor cítrico e herbal dos lúpulos e a picância do álcool criam um conjunto agradabilíssimo, com notas de malte tostado remetendo a caramelo, ameixa e baunilha. O final traz melaço (que aumenta conforme a cerveja aquece na taça), picância (de álcool) e caramelo. No retrogosto, rubor nas faces e muito caramelo.

Balanço
Sediada em San Diego, na Califórnia, a Green Flash Brewing Company nasceu em 2002 sob coordenação do casal Mike e Lisa Hinkley, dois entusiastas de cervejas artesanais. E quando você tiver dúvida sobre o modo norte-americano de produzir cervejas, pode pegar uma Green Flash West Coast IPA que ela irá resumir o intento dos yankees: amargor extremo, mas com leve aceno cítrico e herbal. Lógico, há exceções, mas boa parte das cervejarias norte-americanas começou exagerando tudo aquilo que os europeus seguiam a risco durante séculos (o interessante é que esse exagero norte-americano está influenciando os novos cervejeiros europeus). Muito boa, mas eu, pessoalmente, prefiro algo mais puxado para o cítrico, como a Anderson Valley Heelch O’Hops. Já a Saison Diego é uma daquelas cervejas altamente refrescantes indicadas tanto para o verão como para abertura de refeições, acompanhando uma salada ou mesmo um peixe. No caso dessa versão da Green Flash, as pimentas adicionadas na receita assim com a laranja azeda dão um tom particular e caprichado para a cerveja da casa, que consegue ser fiel ao estilo belga ao mesmo tempo em que demonstra personalidade. Palmas. O caso da Hop Head Red é quase uma pegadinha: eles dizem que estão vendendo para você uma American Amber Ale, mas na verdade você está levando uma American IPA, ou melhor, uma American India Red Ale. O caminhão de lúpulos colocado na receita explode em amargor na boca, e a única coisa que o malte de caramelo acrescenta no pacote é uma intensa percepção resinosa (ok, há ainda um leve dulçor, quase imperceptível, mas que se não estivesse ali, provavelmente tornaria essa cerveja um enorme desafio). Belo exemplar de IPA indicada para lupulomaniacos, e só para eles. Já a Double Stout Black Ale parece agregar mais bebedores, com sua fidelidade europeia, que valoriza malte, aveia e álcool numa cerveja equilibrada e deliciosa. É uma bela Imperial Stout, mas há boas rivais no mercado. Assim como o pessoal de San Diego quis colocar lúpulos (exagerados) num Amber Ale, acontece o mesmo com a Le Freak, uma Belgian Tripel que recebe um caminhão de lúpulos na receita. O resultado é uma cerveja mais interessante que boa: mesmo com o amargor excessivo é possível sentir a levedura belga, e a todo momento uma característica de um dos estilos brilha mais, mostrando que, na verdade, a junção das duas não crio um terceiro estilo novo, apenas valorizou detalhes de cada estilo na mesma taça. É boa, mas pede moderação. Já a Green Flash Grand Cru é um atestado de moderação do pessoal de San Diego, que sossega no lúpulo e cria uma receita devota de Belgian Strong Ale, que soa como uma das melhores deles (ou, ao menos, uma das minhas preferidas). Perde em comparação com as tradicionais (principalmente trapistas), mas ainda assim é uma bela cerveja.

Green Flash West Coast IPA
Produto: India Pale Ale
Nacionalidade: Estados Unidos
Graduação alcoólica: 7,3%
Nota: 3,70/5

Green Flash Saison Diego
Produto: Saison
Nacionalidade: Estados Unidos
Graduação alcoólica: 4,5%
Nota: 3,48/5

Green Flash Hop Head Red
Produto: Amber IPA
Nacionalidade: Estados Unidos
Graduação alcoólica: 7%
Nota: 3,72/5

Green Flash Double Stout Black Ale
Produto: Imperial Stout
Nacionalidade: Estados Unidos
Graduação alcoólica: 8,8%
Nota: 3,79/5

Green Flash Le Freak
Produto: Belgian Triple
Nacionalidade: Estados Unidos
Graduação alcoólica: 9,2%
Nota: 3,72/5

Green Flash Grand Cru
Produto: Belgian Strong Ale
Nacionalidade: Estados Unidos
Graduação alcoólica: 9,1%
Nota: 3,75/5

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