Sub Pop Festival São Paulo, 2014


The Obits por Bruno Capelas
METZ por Juliana Torres
Mudhoney por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari
Vídeos por Rodolfo Yuzo

Vinte e cinco anos depois de trazer à tona algumas das principais bandas da história do rock, a gravadora Sub Pop realizou um festival próprio em São Paulo mostrando porque é adorada por gerações e gerações de fãs da música independente. Misturando velhos conhecidos dos anos 90 e revelações de seu catálogo, o Sub Pop Festival deixou uma noite de quinta-feira na capital paulista um pouco mais barulhenta, sem volume morto nenhum pra botar defeito no Audio Club, casa de shows da Barra Funda que antes se chamava A Seringueira e, recentemente, passou por uma bela reforma.

Coube aos Obits abrir os trabalhos da noite, esperando a chegada do público que demorou a lotar a confortável pista da casa (que diz ter capacidade total para abrigar 3 mil pessoas, incluindo laterais e mezanino) — em boa parte, graças à situação caótica em que se pôs a cidade no último dia 15 de maio. Formados em 2006, em Nova York, o grupo é composto por veteranos da cena de hardcore e punk de Washington e San Diego dos anos 90, e assinou com a gravadora em 2009. No Brasil, a banda dos guitarristas Rick Froberg (ex-Drive Like Jehu e Hot Snakes) e Sohrab Habibion (ex-Edsel), unidos a Greg Simpson (baixo) e Alexis Fleisig (bateria) mostrou canções de seus três álbuns: “I Blame You”, “Moody, Standard and Poor” e “Bed and Bugs”, um grande resumão de algo que você já ouviu em algum lugar antes.

Baterias marcadas, vocais esganiçados e guitarras repetitivas fizeram a distração dos presentes, que tentavam entender o que se passava no palco com o som embolado — a acústica do lugar fazia com que fosse preciso se afastar uns 15 metros do palco para se dar valor à música da banda, deixando a plateia num dilema entre “ver” e “ouvir”. A presença de palco dos tiozões do rock pouco ajudou: Froberg se limitava a ficar em seu canto e duelar com sua guitarra, enquanto Habibion era o famoso ‘cara empolgado’, animando o público entre uma cerveja (o puro creme do milho, Skol, a R$ 8 a latinha) e outra. Foi um bom começo de noite, mas havia mais por vir.

Como as grandes bandas acontecem? Elas seguem cada instinto que as fazem criar a música mais orgânica e sincera que conseguem, certo? A primeira vez que vi um show do METZ, no Sub Pop Silver Jubilee, festival em Seattle que comemorava os 25 anos do selo, fiquei honestamente preocupada com a saúde física da banda e dos fãs, que pulavam do palco em stages dives que eu só tinha visto serem executados, acompanhados de guitarras tão sujas, em alguns vídeos dos primeiros shows do Nirvana. Não muito diferente, a apresentação da banda no Sub Pop Festival São Paulo foi algo parecido com uma colisão entre uma carreta e um airbus. Espaçoso e com um palco generoso, o Audio Club é uma boa casa de shows, mas talvez não fosse o lugar ideal para o Brasil receber os canadenses pela primeira vez. O set intenso de músicas barulhentas pedia um lugar menor que permitisse a completa performance do vocalista Alex Edkins, especialista em ocupar todos os espaços do palco com guitarra e suor.

O disco homônimo, lançado em 2012 pela Sub Pop, ganhou uma atmosfera ainda mais surpreendente – é praticamente impossível não gostar de “METZ” na primeira audição – com a execução ao vivo. O disco curto e intenso se transformou em um aquecimento perfeito para os fãs que estavam aguardando o Mudhoney. Era uma daqueles momentos em que é difícil imaginar como o som do disco vai se traduzir ao vivo, no palco. Essa pergunta foi respondida no primeiro minuto de show. Quem não conhecia a banda comentava com o amigo do lado. Foi unânime a entrega do público enquanto a banda tocava um de seus hits, “Wet Blanket” para os desavisados e para os fãs fieis, que acreditaram quando Mark Arm atestou que o METZ era uma das melhores bandas novas e que a Sub Pop precisava procurá-los. A parcela do público paulistano que está se tornando cada vez mais frígido não teve espaço no meio da imensa roda que se formava de pessoas que queriam expressar que tinham entendido o METZ. Eles estavam participando.

Considerando a quantidade de shows que a banda já fez desde que assinou com o selo, é surpreendente que o trio ainda tenha a energia física para tamanha entrega. Nada mudou desde a primeira vez que os vi, há um ano. Talvez agora saibam que encontraram seu lugar. São uma grande banda. Sabem que estamos todos aguardando o próximo disco, embora em nenhum momento parecesse que eles já tinham tocado esse mesmo álbum aproximadamente 100 vezes desde 2012. Em “Wasted”, já suado e claramente empolgado com o público, Alex e sua guitarra cheia de reverb e todas as demais distorções de todos os pedais já criados encarava a plateia, sorria e acenava com a cabeça. Eles também tinham nos entendido. Quase no fim do show, enquanto tocavam “Headache”, o primeiro single de seu álbum debut, era inevitável não se emocionar com uma banda da Sub Pop que em 2014 conseguia nos fazer reviver 1992. Nós vimos o futuro, e ele é barulhento, sujo e cheio de nostalgia.

Um dos principais ícones de um dos últimos grandes movimentos (barulhentos) do rock em escala mundial, o Mudhoney vive uma relação bastante próxima com o público brasileiro: de 2001 para cá eles se apresentaram nada menos que seis vezes no país, incluindo uma passagem barulhentíssima em 2001 (com um show antológico no finado Olympia, em São Paulo), uma inaudível apresentação abrindo para o Pearl Jam em 2005 no estádio do Pacaembu e, desta vez, apresentando “Vanishing Point”, nono álbum da banda, lançado em abril de 2013 e prova inconteste de que o grupo ainda tem muita lenha para queimar.

Um dia após terem exibido para os fãs em São Paulo o documentário “I’m Now: The Story of Mudhoney” (2012) em uma sessão tão conturbada quanto um show, o vocalista Mark Arm e o guitarrista Steve Turner (acompanhados de Dan Peters na bateria e Guy Maddison no baixo) subiram ao palco do Audio Club com a dura missão de pegar um público ainda chocado com a apresentação ensurdecedora do trio METZ, e a tarefa soou um pouco mais árdua devido ao som embolado e baixo que marcou o início da apresentação com as novas (e ótimas) “Slipping Away” e “I Like It Small” – contraste imenso com um show da banda em maio do ano passado no Music Hall of Williamsburg, no Brooklyn nova-iorquino, em que era impossível ouvir alguém gritando ao seu lado tamanho o volume de barulho que saia do palco.

Do primeiro álbum do quarteto (“Mudhoney”, de 1999) surgiu “You Go It”, ainda abafada pelo som fraco que saia da mesa, e o circo só veio pegar fogo realmente com “Suck You Dry”, do clássico “Piece of Cake” (1992), que fez a roda de pogo ferver enquanto os seguranças tentavam (estranhamente e desajeitadamente) evitar stage-dives. O show seguiu com o público se alternando entre perder a voz ao gritar coisas como “Sweet Young Thing Ain’t Sweet No More” e assistir números novos como a intensa “In This Rubber”. O primeiro momento clássico da noite aconteceu no meio do show, após o trio de frente se reunir na frente do palco e voltar com uma versão empolgante do hino “Touch Me I’m Sick”, sempre histórica.

Seguiram-se canções de quase todos os discos em uma apresentação aparentemente longa demais para uma noite com três bandas, mas que ainda conseguiu animar o público no bis, aberto com “Here Comes Sickness” e trazendo “In ‘N’ Out of Grace”, do obrigatório “Superfuzz Bigmuff” (1989), que, segundo Mark Arm contou ao público, foi escrita pensando na galera fazendo stage-dive (faltou ao guitarrista avisar aos seguranças da casa): o público tentou e alguns conseguiram rendendo vários momentos hilários, como uma garota que subiu ao palco, beijou Mark Arm delicadamente no rosto, desarrumou seu cabelo e desapareceu ao pular na multidão, e outra que, animada com o momento, mostrou os peitos, para surpresa geral.

O trio final de esporros que encerrou a noite (as covers de “The Money Will Roll Right In”, do Fang; “Hate The Police”, do The Dicks; e “Fix Me”, do Black Fag) viu um jogo hilário de gato e rato entre saltadores de camisa de flanela e seguranças desajeitados, que não terminou após o último soar da distorção: com o show encerrado, vários fãs ainda estavam na beira do palco esperando os braços abertos do público numa situação cômica que encerrou a primeira edição brasileira de um festival bem bacana, que poderia ter sido programado para começar mais cedo (às 20h, por exemplo) e, assim, dar aos presentes condições de, após se socar por quatro horas em três ótimos shows, voltar para casa aproveitando o transporte público (o Audio Club fica muito próximo da estação Barra Funda, do metrô). Ainda assim, mesmo com o técnico de som não ajudando, a Sub Pop saiu vencedora de uma noite de guitarras e barulho.

Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.
– Juliana Torres (@jukiddo) é jornalista e assina o http://jukiddo.tumblr.com/
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Entrevista -> The Obits: “O que dura é a música” (aqui)
– Três perguntas -> METZ: “É natural tocar agressivamente alto” (aqui)
– Mudhoney em Nova York, 2013: “O melhor do Mudhoney ao vivo” (aqui)

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