Discografia comentada: Babasonicos

por Leonardo Vinhas

Falsários, viciados profissionais, foragidos com contrato, românticos perversos: a banda argentina Babasónicos escolheu muitas identidades ao longo de seus 23 anos de existência, e em todas foi provocante, muitas vezes às custas de sua popularidade. Do hype underground à presença massiva em estádios e liderança de festivais, há uma história composta por uma música que pode ir do heavy ao pop radiofônico sem que ambos os extremos descaracterizem a banda formada em Lanús, Buenos Aires, 1991.

Os méritos estão principalmente na química rara que se estabeleceu entre seus integrantes. As letras do vocalista Adrián “Dárgelos” Rodríguez (vocal) não encontram par no idioma espanhol, combinando neologismos, declarações de amor imprevisíveis e referências literárias que podem ir de Robert Musli a Thomas Mann, mas não desprezam roteiros de filmes de baixo orçamento. Dárgelos teve nos companheiros Gabriel “Gabo” Manelli (baixo) e Diego “Panza” Castellano (bateira) os principais arquitetos capazes de traduzir e estruturar suas ideias musicais, mas também coube ao guitarrista Mariano “Roger” Dominguez e ao tecladista Diego “Uma-T” Tuñon os papeis de compositores, cada qual trazendo sua personalidade: Mariano com ecletismo que vai das baladas pastorais à influência do rap, e Tunõn em faixas em que o arranjo e o ritmo são mais importantes que a melodia. Por fim, a figura de Diego “Uma” Rodríguez, irmão caçula da Dárgelos, que entrou na banda como percussionista improvisado e acabaria assumindo a segunda guitarra e o trompete, usando seu aprendizado instintivo de música para trazer soluções nada óbvias a canções aparentemente ordinárias.

Dárgelos, Tuñon e Panza eram colegas de infância. Depois de passarem por pequenas bandas esquecíveis como Rosas del Diluvio e X-Tanz (“Era tudo muito ruim, feio”, recordaria Adrián anos mais tarde), formaram os Babasónicos junto com Diego Rodríguez. O nome havia saído da junção de Sai Baba, guru cujos ensinamentos Tuñon seguia na época, e dos garageiros sessentistas The Sonics. Gabo tocava em outra banda, Juana La Loca, mas acabou se juntando aos Babasónicos e trazendo com ele o guitarrista do Juana, Gabriel Guerrisi. A divisão entre os dois grupos se mostraria impossível, e Guerrisi desistiu após o primeiro show, enquanto Gabo optou por permanecer com os Babas. A entrada de Mariano estabilizaria a banda, e com essa formação os Babasónicos fizeram sua historia.

Arrogantes, já não são mais “os excêntricos do underground”, e sim uma das maiores referências da música pop latino-americana. A estética e o ideário sempre foram únicos, e os formatos (rock pesado, pop romântico, provocações perversas, doçura sexy, revivalismo da eletrônica oitentista etc) eram apenas ferramentas para comunicá-los. Nem sempre os resultados estiveram à altura das pretensões, mas há na obra um legado que persiste apesar dos pequenos passos tortos.

Pasto (1992)
Gênios da autopromoção, os Babasónicos conseguiram o direito de autoproduzir sua estreia, gravada num estúdio montado em uma casa no bairro portenho de Ezeiza. O título faz alusão ao gramado onde os seis integrantes se esparramavam chapados nos intervalos das gravações – gravações, aliás, que se tornaram lendárias, pelo clima de hippismo tardio e inconsequência adolescente que se instalara entre músicos e colaboradores. Essa alegria transparece no resultado final, mas é verdade que “Pasto” é um disco de seu tempo: usa de todos os estilos que estavam em voga no momento, e por isso não envelheceu tão bem. Estão aqui o saco de gatos do funk metal (“D-Generación”), Madchester (“Tripeando”, “Sobre la Hierba”, “Indios”, “La Era del Amor Part 1”, “Chicos en el Pasto”), grunge (“Sol Naranja”, “Natural”), power ballads (“Bien”), com as faixas entrecortadas por pequenas vinhetas. Tudo derivativo, mas feito com sinceridade e esmero. “D-Generación” seria um dos primeiros (e mais bem-sucedidos) clipes da então nascente MTV Latina, chupando a estética dos Beastie Boys e dos Red Hot Chili Peppers.

Sucessos: “D-Generación”, “Sobre la Hierba”, “Margaritas”
Melhores faixas: “Natural”, “Tripeando”
Preferida: “Sol Naranja”
Nota: 4,5

Trance Zomba (1994)
Para os fãs da primeira fase dos Babasónicos, esse é “o” disco. Mesmo continuando preso a alguns clichês dos anos 90, é um grande passo à frente em relação ao álbum de estreia. O rap ocupa bastante espaço, com guitarras heavy (“Desarmáte”, “Poder Ñandu”, “Malón”) ou mais pop (“Patinador Sagrado”), mas já havia muitas faixas onde se podia perceber a identidade particular que a banda desenvolveria, principalmente na psicodelia de “Sheeba Baby”, “Coralcaraza”, “Koyote” e “Árbol Palmera”. Apenas “Ascendiendo” acenava para o disco anterior: no geral, o trabalho era mais conciso e musicalmente mais rico, ainda que prejudicado por gravações e mixagens precárias – a banda optara por gravar o disco em um estúdio portátil. Verdade seja dita: mesmo com deficiências técnicas e com a dificuldade de afirmar as idiossincrasias da banda, “Trance Zomba” é um disco intenso, que revela novos pontos de interesse a cada audição. Marca a estreia de Walter Kleberis (“Peggyn”), então um amigo de Dárgelos que fazia as vezes de figurinista, assumindo a condição de DJ e membro regular.

Sucessos: “Patinador Sagrado”
Melhores faixas: “Montañas de Agua”, “Coralcaraza”, “Desarmáte”
Preferida: “Patinador Sagrado”
Nota: 7,5

Dopadromo (1996)
Finalmente no terceiro disco o agora septeto encontrava sua cara. Não era um encontro tranquilo: “Dopadromo” é complexo, pesado e embalado por toneladas de substâncias ilícitas. Sobressaem os neologismos de Dárgelos, os caminhos musicais imprevisíveis, o exagero. O espírito “paz e amor” dos dois primeiros álbuns é substituído por cinismo, sacanagem e romances amorais. O resultado é que mesmo formatos mais reconhecíveis, como o hard rock “Su Ciervo” e a balada kitsch “Perfume Casino”, ganham forte verniz de estranheza a envolvê-los. Riffs altos e barulhentos, trilhas de western spaghetti, ares de filmes B e uma orquestra desafinada somavam para compor a sonoridade do disco, que encontrava sua expressão máxima em “¡Viva Satana!”, clássico que ajudou a definir o imaginário babasónico, um mundo sexy, inteligente e devasso. A canção revisita o cinema de Russ Meyer (o título é uma homenagem à atriz Tura Satana, estrela de “Faster, Pussycat! Kill! Kill!”) em clima de Tom Jones enguitarrado. Primeira colaboração da banda com o produtor Andrew Weiss (ex-baixista da Rollins Band), que seria um parceiro importante nos dez anos seguintes.

Sucessos: “¡Viva Satana!”, “Perfume Casino”
Melhores faixas: “Su Majestad”, “Zumba”, “Su Ciervo”, “Calmatica”
Preferida: “¡Viva Satana!”
Nota: 7

Babasónica (1998)
Uma tentativa consciente de autossabotagem, do conceito à capa. O que era cheio de nuances em “Dopadromo” fica plano em “Babasónica”, praticamente um disco temático sobre o mal e suas variantes, das mais cafonas às mais sombrias. Aleister Crowley, Charles Manson, demonologia, sexo bizarro: o gosto era duvidoso, e não só nas letras – a sonoridade buscava o heavy metal e o hard rock, com Black Sabbath dando o norte. As duas únicas baladas não ofereciam alívio – “Sharon Tate” era especialmente desconfortável, um amontoado de bobagens cantadas de forma afetada por um Mariano perceptivelmente alterado. Fãs renegaram o disco, a gravadora Sony dispensara a banda. Apesar disso, as turnês de longa duração pelo interior da Argentina e por outros países se tornavam mais frequentes, ajudando a consolidar a aura de culto ao redor do grupo. Rejeição e crescimento andando juntos, e no meio disso tudo, uma grande canção de clipe horroroso (“Seis Virgénes Descalzas”) perigava passar despercebida.

Sucessos: “Egocripta”, “El Adversario”
Melhores faixas: “Egocripta”, “Ester Narcótica”, “Satiro”
Preferida: “Seis Virgenes Descalzas”
Nota: 3

Miami (1999)
Gravado em meio a uma crise política na Argentina, “Miami” não é um disco de canções, e sim de ideias musicais jogadas. “A gravação foi caótica e também sofrida, não sabíamos bem o que fazer, mas definitivamente foi uma boa experiência”, declararia Panza quase dez anos depois. Os integrantes traziam loops, temas ou mesmo pequenas passagens e tudo ia sendo gravado conforme aparecia, sem respeitar o processo habitual do estúdio. Havia, inclusive, faixas em que a bateria foi gravada por último, invertendo a ordem habitual das coisas. As letras também se transformavam, trazendo mais personagens, como “El Playboy” e “El Súmun”. Muita cocaína acompanhou as gravações, e, somada à falta de objetivo definido, fez com que “Miami” fosse mais extenso do que deveria. A própria banda já afirmou que umas seis ou sete canções ali contidas (entre as 18) eram dispensáveis. A prolixidade torna muito difícil a audição do começo ao fim, ainda mais porque a alternância entre o épico, o dançante e o quimicamente etéreo não é bem dosificada. Porém, é um disco fundamental para o amadurecimento do grupo, marcando o fim da experimentação extrema e pontuando a transição para formatos mais pop. E há dois grandes momentos: “El Ringo” é a melhor canção cantada por Mariano, e “4 AM” um exemplo perfeito da arquitetura sonora babasónica, na qual as partes isoladas não fazem sentido, mas juntas criam uma peça irresistível. “Miami” é também a despedida do DJ Peggyn, que deixou o grupo após o lançamento para tentar uma infrutífera carreira solo.

Sucessos: “4 AM”, “Desfachatados”, “El Playboy”
Melhores faixas: “El Ringo”, “Valle de Valium”, “Casualidad”
Preferida: “4 AM”
Nota: 6

Jessico (2001)
Na ressaca do pior momento da história recente na Argentina, em que o descontentamento com a crise econômica provocava manifestações violentas, saques e clima de insegurança generalizada, saía “Jessico”, disco que lançou os Babasónicos ao estrelato. Estourar em plena crise é, de certa forma, adequado à mítica da banda, mas a verdade é que, sem Peggyn e muito bem entrosados como banda e com o produtor Andrew Weiss, os Babasónicos conseguiram canalizar sua estranheza para um pop vibrante, tão acessível quanto sofisticado. O caos de “Miami” encontrava direção e fincava a base na qual os Babasónicos consolidariam sua ascensão rumo ao título de maior banda argentina do novo século. “El Loco” tinha riff de ukelele e solo de trompete, começava com o verso “Sou vítima de um Deus frágil e temperamental”, trazia sexualidade adolescente no clipe, e ainda assim foi a primeira (e estourada) faixa de trabalho, puxando o caminho para muitas outras. “Los Calientes”, um dance pop de guitarras, viraria até jingle de propaganda de cerveja, enquanto “Soy Rock” (com guitarras processadas, clima de estádio e o verso “sou muito puta / mas não trabalho para você”) batizaria uma revista de música. “Rubi” era uma balada delicada cujo clipe, lançado nas versões “ele” e “ela”, era um take único de uma pessoa se masturbando até gozar. “Deléctrico” nasceu de uma brincadeira que Panza e Diego Rodriguez fizeram sobre Gabo (apelidado “deléctrico” por ser técnico em eletrônica, ficando responsável pelas instalações do estúdio da banda). Soava uma tolice incompreensível, mas virou o maior hit do disco após um labuto que durou dias entre gravação e mixagem. “Yoli” era um épico pop, quase um “¡Viva Satana!” desacelerado, sobre uma prostituta ou um travesti (não fica claro qual), e trazia um clima de “decadência orgulhosa” que também dava o tom do rock retrô de “Fizz”. Muitas cores, estilos e ideias num disco verdadeiramente brilhante, que ganhou uma reedição dupla em 2012, com 11 faixas bônus.

Sucessos: “Deléctrico”, “Los Calientes”, “El Loco”, “Fizz”, “Rubi”, “Soy Rock”, “Pendejo”
Melhores faixas: os sucessos, “Yoli”.
Preferida: “El Loco”
Nota: 8,5

Infame (2003)
Há vida depois do sucesso massivo? Com “Infame”, os Babasónicos não só provavam que sim, como mostravam que essa vida poderia ser de um êxito ainda mais retumbante – metade das faixas se tornaria hit. O disco é praticamente uma investigação da canção pop em todas as suas formas, das mais românticas às mais densas, quando não as duas coisas juntas – é o caso de “Putita”, com sua inesquecível introdução de guitarra, a linha de baixo humilhante, as camadas de teclados e as xavecadas implacáveis da letra (“sem piedade deixa para trás um séquito de vã idolatria”) que traz acenos à obra de Rodolfo Fogwill (um dos mais renomados escritores argentinos contemporâneos, falecido em 2010). A burtbacharachiana “Curtis”, a deliciosa “Risa” e a sessentista “Fan de Scorpions” seguem essa estética e estão no mesmo elevado naipe, enquanto “Irresponsables” acelera essa fórmula numa história de amor devassa. A velocidade continua alta no boogie primitivo e drogado “Sin Mi Diablo” e as pistas de dança se abrem com “Suturno”,”¿Y Qué?” e “Pistero” (que faz uma breve referência aos Smiths). “Mareo” faz pensar no que seria o bolero se tivesse surgido na última década. E “Once” é, ao mesmo tempo, uma crítica e uma celebração da mítica do rock’n’roll. Porque, claro, o rock também é pop, e “Infame”, já se disse, é uma investigação do gênero.

Sucessos: “Putita”, “Risa”, “Irresponsables”, “Sin Mi Diablo”, “Estertor”, “Pistero”, “¿Y Qué?
Melhores faixas: “Once”, “Irresponsables”, “Putita”, “Mareo”, “Curtis”
Preferida: “Risa”
Nota: 9,5

Anoche (2005)
“A turnê de ‘Infame’ custou mais do que nossos corpos podiam suportar”, diria Mariano Dominguez em 2007. Para se refugiar do esgotamento e das pressões gerados pela explosão do disco de 2003 – e também porque Gabo Manelli já havia sido diagnosticado como portador do linfoma de Hodgkin, uma forma de câncer do sistema linfático – os Babasónicos se isolaram em uma chácara em Córdoba, sem assistentes, roadies ou família, e passaram duas semanas compondo. Dessas sessões saíram 20 canções, 14 das quais entrariam em “Anoche”. Parecia não haver limite para a capacidade da banda em tecer melodias precisas e arranjá-las de forma desconcertante. A dupla Andrew Weiss (produtor) e Phil Brown (responsável pela mixagem) garante uma qualidade de áudio impressionante, que realça tanto as nuances da suíte pop que é a sequência “Carismatico” / “Yegua” / “Un Flash” (enfileiradas de modo ao começo de uma herdar o final da outra) como valoriza a energia bruta das guitarras furiosas de “Ciegos por el Diezmo” e “Luces”. É difícil, e até injusto, apontar um destaque no disco (“O primeiro a ser feito sob o efeito exclusivo de drogas que estimulam o tato”, declarou Dárgelos à época), mas não há como não citar “Pobre Duende”, comentário agudo sobre conflitos na relação entre artista e público, folk lisérgico que em 1 minuto e 23 segundos diz mais do que as obras completas de muitas bandas.

Sucessos: “Carismatico”, “Yegua”, “El Colmo”, “Puesto”, “Luces”, “Examénes”, “Capricho”, “Pobre Duende”
Melhores faixas: “Carismatico”, “Pobre Duende”, “Muñeco”
Preferida: “Luces”
Nota: 10

Luces (2007)
“Luces” é o único ao vivo dos Babasónicos lançado até o momento, comercializado em um indissociável pacote CD + DVD. Foi gravado ao vivo no Luna Park (Buenos Aires) durante a turnê de “Anoche” e traz apenas canções pós-2000 (o CD tem duas inéditas de estúdio, a fraca “Testigo de Nadie” e a excelente “Confundismo”). Já o vídeo tem mais cara de experimento artístico em vídeo do que registro de show. O diretor Agustín Alberdi filma a banda, tendo como guia e perspectiva as luzes de palco (!). A estranheza dos enquadramentos, a captação de som discutível (problema que se repete no CD) e o fato de não ser uma das melhores performances da banda ajudam a não recomendar uma sessão de “Luces” para quem não for fanático pela banda. É uma das últimas apresentações de Gabo Manelli, o que é uma pena, pois ele merecia um registro mais digno. Mas há de se reconhecer a ousadia de lançar este tipo de filme no auge da popularidade. Como extras, o clipe de “Luces” (última faixa de “Anoche”) e um excelente curta que conta a história da banda a partir de trechos de seus clipes.

Nota: 5

Mucho (2008)
Lançado na tristeza que sucedeu à morte de Gabo Manelli no começo de 2008, “Mucho” é um álbum mais modesto e mais direto que seus antecessores, o que causou certa decepção tanto para críticos como para fãs, mas o distanciamento trazido pelo tempo permite vê-lo como um disco bem-resolvido. Simples, é verdade, mas coeso, inteligente e envolvente. Gabo não gravou – os baixos ficaram sob a responsabilidade de Carca, músico de carreira underground escolhido pelo próprio Manelli – mas chegou a participar de algumas sessões do disco, e ainda co-assinou duas faixas: a lindíssima “Como Eran las Cosas” e a inclassificável “Escamas” – não por acaso, as melhores do disco. Merecem destaque também a garageira “Cuello Rojo”, o nonsense oitentista de “Microdancing” e o country rock “El Ídolo”, no qual é profetizada a morte de um rock star (seria o próprio Dárgelos?) com mordacidade e afeto. Algumas letras já começavam a se aproximar do convencional, em especial as baladinhas “Las Demás” e “Nosotros”, sinalizando a mudança (para pior) que viria nos discos seguintes.

Sucessos: “Pijamas”, “Microdancing”, “Las Demás”, “Estoy Rabioso”, “El Ídolo”
Melhores faixas: “Escamas”, “El Ídolo”, “Cuello Rojo”
Preferida: “Como Eran las Cosas”
Nota: 8

A Proposito (2011)
É o primeiro disco concebido sem a participação de Gabo Manelli (Carca continuava no posto), e a ausência do amigo mais próximo – e parceiro mais frequente de Dárgelos – se faz notar. Apesar de ótimos momentos individuais, o disco carece de força para se manter unido. Metade dele é excelente, e o restante… Em “Barranca Abajo” e “Chisme de Zorro”, por exemplo, a tentativa de obter um pop límpido acaba se aproximando da assepsia total. A demagoga “Fiesta Popular” constrange em sua intenção (fracassada) de ser um boogie popular para as massas. Já em “Muñeco de Haiti” é o convite à dança que não funciona, estendendo-se ao longo de nove minutos em uma cansativa canção em três partes. “Deshoras” é outro equívoco gigante, um sub-Skank de temática clichê. Ainda assim, essas duas foram hits massivos. As coisas mudam sensivelmente de qualidade nas boas baladas (“En Privado”, “El Pupilo”) e vai ficando ainda melhor na dobradinha “Tormento/Púlpito”, uma fantasia de fuga embalada pela percussão obtida tanto nos bongôs como no timbre das guitarras. “Flora y Fauno” é outro grande momento, um sinuoso diálogo (“Ao qual falta uma das partes”, segundo Dárgelos) de tons graves. Mas o melhor é mesmo “Ideas”, pop contundente (“Agora esqueça-se de mim / já não somos amigos / e quero que goste de mim mesmo assim / como tudo na terra tem seu nome / isso se chama: / ‘formas náufragas viajam à deriva / ao encontro do próprio nada’”), com um coral sutil de Mariano segurando o refrão e um final explosivo.

Sucessos: “Deshoras”, “Tormento”, “Ideas”, “El Pupilo”, “Muñeco de Haiti”
Melhores faixas: “Tormento”, “Flora y Fauno”
Preferida: “Ideas”
Nota: 6

Romantisismico (2013)
Contratados pela Sony mexicana com o status de next big thing, os Babasónicos têm em “Romantisismico” a peça principal num plano de dominação do mercado latino, inclusive dentro dos EUA. Infelizmente essa intenção comercial resultou num disco acomodado, que parece beber, sem sede ou vontade, em fontes que a banda já bebeu no passado. “La Lanza” até que faz bem ao recuperar o pop brilhante de “Jessico”, aqui atualizado com precisos apliques eletrônicos e adornado por uma percussão envolvente. E há “Run Run”, uma sequência natural do pop límpido de “A Propósito”. Mas o resto do disco não segura a onda. Tal qual “Microdancing”, “Aduana de Palabras” resgata os anos 80, só que neste caso parece um sub-Human League. “El Baile de Odin” aumenta o volume das guitarras, mas não vai além de refugar o hard rock norte-americano. “Celofán” tenta ser romântica e é apenas brega. “Humo” e “Casi” são esforços acústicos audíveis, porém nada acrescentam – o tipo de música que seria cabível num dos “discos pirata”, mas não em um álbum oficial. Enfim, uma sucessão de “quases” e “por pouco” que forma um conjunto final decepcionante. Os baixos foram todos gravados por Tuta Torres (ex-Illya Kuryaki and The Valderramas), que já exercera a função na turnê de “A Proposito”, e Carca formaliza o papel de multi-instrumentista que vinha desempenhando nos shows. Ambos seguem na condição de músicos contratados.

Sucessos: “La Lanza”
Melhores faixas: “Run Run”, “Uno Tres Dos”, “Casi”
Preferida: “La Lanza”
Nota: 5

Discos “extras”
Em 1998, os Babasónicos abriram seu próprio selo, Bultaco, e por ele começaram a lançar álbuns com sobras de estúdio. Compilados por Panza e vendidos diretamente pela banda às lojas, são conhecidos como os “discos piratas” dos Babasónicos, que foram essenciais para manter a banda durante os dois anos em que ficaram sem contrato. Embora sempre citados pela banda, são discos que não entram na contagem “oficial” da discografia. Condição semelhante têm “Mucho +” e “Carolo”. Ambos foram lançados pelo selo Pop Art, dono do passe dos Babasónicos entre 2001 e 2013, mas são também discos de sobras – o primeiro traz faixas que ficaram de fora de “Mucho” e o segundo faz parte da edição comemorativa de “Jéssico”, e traz as sessões que foram descartadas e não chegaram a merecer acabamento em estúdio.

Vórtice Marxista (1998)
É a “raspa do tacho” dos três primeiros discos da banda. Funciona mais como curiosidade do que como quitute para o fã. São arroubos ainda crus de uma banda que não conseguia traduzir suas ambições de forma eficiente. Os melhores momentos são justamente aqueles mais caretinhas, como o hard rock com suingue setentista de “Antonio Fargas” (uma estranha homennagem ao seriado “Starsky & Hutch”) e o resquício shoegazer de “Forajidos de Siempre”. O restante tem passagens psicodélicas que estão mais perto da bad trip que de uma viagem curtível.

Melhor faixas: “Forajidos de Siempre”
Preferida: “Anotnio Fargas”
Nota: 4

Vedette (1999)
Se algumas faixas contidas aqui tivessem sido aproveitadas em “Babasónica” (1998), ele certamente teria sido um disco menos monocórdico. Se “Babasónica” era pautado por cocaína e anfetamina, “Vedette” tinha mais ares de maconha e estupefacientes. Descartadas porque não tinham a agressividade pretendida para o álbum, as canções de “Vedette” estão cheias de violões, órgãos discretos e percussão. Há certa malemolência, mas também se nota ousadia e uma “épica introspectiva”, se é que tal coisa existe. É o melhor e mais interessante dos “discos piratas”, trazendo elementos dos anos 60 e 70 para o mix final, letras sagazes e poéticas, e uma alternância de climas ditando um ritmo que convida à audição integral do álbum – chega a parecer um disco oficial, e não uma compilação de sobras, de tão bem resolvido. Sobressaem os jogos vocais e o clima sombrio de “La Hiedra Crece”, a empolgação de “Muchacha Magnética” e a sedução de “Bandido”, que tem o refrão “Sei que os maus vivem mais / e desfrutam melhor / que os homens de virtude”, cantado por um Dárgelos em seu auge na capacidade de dar voz própria aos personagens imaginados em sua cabeça.

Melhores faixas: “La Hiedra Crece”, “Muchacha Magnetica”, “Dopamina”
Preferida: “Bandido”
Nota: 7

Groncho (2000)
As sobras de Miami sensivelmente menos anárquicas que o disco “oficial”. As faixas são mais bem-acabadas, e há até composições de estrutura mais convencional, como a balada semi-acústica “Pop Silvia” (cantada e composta por Mariano Dominguez) e o pop hipnótico de “Demasiado”. “Promotora” e “Pavadas”, por sua vez, foram concebidas segundo o conceito de Miami, mas nelas as camadas se sobrepõem de forma mais orgânica. “Pavadas”, em especial, poderia ter sido um hit de vocação dançante, mesmo com a instrumentação esparsa. Apesar da última faixa (“Boogie Bootique”) não fazer nenhum sentido e da angústia de “Drogas Para Qué”, é um disco bem mais interessante e apreciável que o álbum de cujas sessões as canções saíram.

Melhores faixas: “Pavadas”, “Demasiado”, “Clase Gala”, “El Subito”
Preferida: “Promotora”
Nota: 6,5

X (2009)
Assim como “Mirrorball” é um disco em que Pearl Jam “quase” sem Eddie Vedder acompanha Neil Young, “X’ (também conhecido como “Por”) é um disco dos Babasónicos “quase” sem Dárgelos acompanhando Daniel Melero, que estava semi-recluso e seus últimos registros haviam sido dominados por experimentações eletrônicas. Os Babas decidiram aproveitar a fama e a grana obtidas com seus últimos discos para, num gesto de gratidão assumida, resgatar aquele que mais havia lhes apoiado no começo, conseguindo o contrato para a gravação de Pasto e colocando-os para abrir os shows do Soda Stereo, então no auge de seu sucesso. A condição para a generosidade era a de que Melero se concentrasse em sua faceta de compositor pop e deixasse as guitarras e violões darem a cara do disco. O acordo se revelou bom para ambas as partes: produzido por Diego Tuñon e Diego Rodríguez e tendo os instrumentistas babasónicos (mais Felix Cristiani, parceiro de Daniel) como “banda de apoio”, Melero fez um de seus melhores discos. Sua voz grave e entonação narrativa misturadas à essência babasônica resultam num pop classudo e despojado, com influências do folk e dos baladeiros dos anos 60. Dárgelos só aparece dividindo os vocais e a autoria de “Celoso”, curiosamente a melhor faixa do álbum. Tuñon e Diego produziriam o álbum seguinte de Melero, o bom Supernatural (2011), que não contou com os demais Babasónicos.

Melhores faixas: “El Fantasma”, “Nueva Era”
Preferida: “Celoso”
Nota: 8

Mucho + (2009)
Um ano após a primeira edição de “Mucho” chegar às lojas foi lançada uma edição especial chamada “Mucho +”, pacote duplo com o disco original mais um outro de sobras de estúdio. Este tinha sete canções inéditas, mixagens alternativas de “Nosotros” e “Yo Anuncio” e um remix de “Pijamas”. Ainda assim, o disquinho extra tem identidade própria e uma unidade perceptível. O rock mais direto de “Mucho” dá lugar a canções mais calmas, mas não frouxas. O pendor pop se mantém, especialmente na serpenteante “Formidable” (um admirável entrelaçamento de instrumentos que vão se revezando no protagonismo da melodia sem que o ouvinte se dê conta) e na incisiva “Letra Chica” (“Conceda-me / até a mais absurda fantasia (…) contente-me / ria como se fôssemos felizes”). “El Pozo” e “Todo Dicho” aceleram um pouco mais o ritmo e pagam tributo ao U2 dos anos 2000, mas o romance de “Parece”, “Paralelos” e “Mientras Tanto”, conduzidas por guitarras calmas, percussão discreta e trechos acústicos, retomam o clima suave de um disco simples, despretensioso e muito bom.

Melhores faixas: “Formidable”, “Mientras Tanto”, “Todo Dicho”
Preferida: “Letra Chica”
Nota: 7,5

Carolo (2012)
“Carolo” faz parte da edição comemorativa dos 10 anos de “Jessico” – curiosamente lançada em 2012, ou seja, onze anos depois do lançamento. A banda declarou que ele era um souvenir destinado a mostrar ao público os caminhos que um disco percorre até seu final, e não um material a ser considerado como novo – tanto que não foi executado ao vivo. Sabiamente, porque não há nada digno de nota. Parecem rascunhos que não foram desenvolvidos, ou simplesmente composições ruins. Absolutamente dispensável.

Melhores faixas: não há
Preferida: nenhuma
Nota: 1

Trilhas sonoras e coletâneas
Foram três as ocasiões nas quais os Babasónicos se envolveram com trilhas. A mais completa delas foi, sem dúvida, “Las Mantenidas Sin Sueños” feita sob encomenda para o filme homônimo de 2006. Lançada em CD, tem apenas 20 minutos e, a rigor, apenas três canções, sendo que uma delas, “Mantel Bucolico”, aparece em três versões: ao piano, ao teclado e com a banda toda. As outras duas são a balada depressiva “Rapido y Juntos” e a sensual “Las Mantenidas”. O resto do disco é completado por temas incidentais. “Babasónicos vs. El Público” é um experimento musical-literário, assinado pela banda em parceira com o jornalista e escritor espanhol Bruno Galindo. Foi lançado no início de 2013, e traz Galindo declamando textos sobre bases dançantes e vocalises de Dárgelos. São apenas quatro faixas, mas o resultado é bastante interessante. A Sony lançou três compilações quase indistintas entre si, todas renegadas pela banda, reunindo material dos cinco primeiros discos “oficiais” dos Babasónicos. “Lusónica”, de 2002, talvez seja a melhor editada entre elas. O duplo “Obras Cumbres” (também de 2002) sofre com uma masterização feita nas coxas, e o simples “Grandes Éxitos” tem uma seleção de temas um pouco diferente (e menos feliz) que “Lusónica”.

Outros registros
Os Babasónicos têm quatro discos de remixes: “Babasónica Electrónica” (1998), “Jessico Dancemix”, “Jessico Megamix” e “Mezclas Infame” (2004), todos de tiragem limitada. O primeiro só interessa aos completistas mais empedernidos, já que foge completamente da proposta musical da banda, com recriações que em pouco ou nada se referem aos originais. “Jessico Megamix” foi lançado para aproveitar o estouro do disco, e se não compromete, não oferece nada memorável. Já “Jessico Dancemix” e o de “Infame” têm seus pontos instigantes. O primeiro destaca uma interessante versão dançante de “El Loco”, e o segundo traz remixes de bandas e artistas afins aos argentinos, como Vicotira Mil, Plastilina Mosh e Zucker, entre outros, além de um CD bônus com quatro (!) recriações do megahit “Putita”, todas a cargo de Daniel Melero.

A banda também deu as caras em discos de outros artistas. “20 Grandes Exitos”, coletânea de 1998 dos Fabulosos Cadillacs, trazia duas faixas inéditas – uma delas, uma esquisita recriação do hit “Mal Bicho” acompanhados pelos Babasónicos. O ex-Stone Roses Ian Brown ficou fascinado com os primeiros discos do sexteto argentino e chamou-os para colaborar em seu disco solo “Golden Greats”. A delirante faixa que nasceu nesse encontro foi batizada explicitamente de “Babasonicos” (“Porque queria que me perguntassem sobre isso em entrevistas para eu poder falar da banda”, disse o inglês). Dárgelos também é figurinha fácil. Já gravou com Onda Vaga, Kapanga, Litto Nebbia e outros, além de ser co-autor com Julieta Venegas da bela e delicada “Debajo de Mi Lengua”, canção presente em “Otra Cosa”, disco de 2010 da mexicana.

“Arrogante Rock – Conversaciones con Babasónicos” faz parte de uma coleção de livros editada na Espanha pela editora Zona de Obras em parceria com a Fundação Autor. A ideia é repassar a trajetória de um artista de forma cronológica e por entrevistas, focando principalmente no processo de criação musical. Julieta Venegas, Molotov, Ariel Rot, Bersuit Vergarabat e outros estão entre os que mereceram título próprio. A edição babasónica é assinada pelo jornalista argentino Roque Casciero e traz uma visão interna da banda com uma sinceridade que raramente se vê em uma biografia. O capítulo que trata da saída do DJ Peggyn chama especial atenção: é bem pouco frequente uma banda se referir a um episódio de ruptura sem meias-palavras. É um livro para qualquer interessado em música pop, mesmo que não conheça a banda.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yel

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12 thoughts on “Discografia comentada: Babasonicos

  1. mirrorball é um disco do neil young, com composições do neil young.

    pearl jam serve apenas de banda de apoio.

    só faltou falar da vinda deles ao brasil, tocando pra 200 pessoas no evento do SenhoF.

    um abraço!

  2. nenhuma banda sulamericana, incluindo as brasileiras, consegue superar os babasonicos em qualidade de material nos últimos 20 anos.

  3. Texto, discografia e história que aguça a vontade de conhecer. Vi o clip de El loco e fui para o monocromático Babasonica e já estou me divertindo.

  4. /Na verdade, Bruno, o Eddie Vedder divide a composição da letra de “Peace and Love” com Neil, mas entendo o que você quer dizer.

    Porém, discordo porque os arranjos (especialmente a timbragem), a temática e a execução das faixas o tornam muito singular, e quero crer, assim como Neil Young o quer, que o Pearl Jam teve participação nisso.

    Mas você pode dizer que é só uma metáfora infeliz. O que vale mesmo para este texto é que o disco X, mesmo creditado a Daniel Melero, tinha (e tem) muito de Babasónicos.

  5. tragam o babasónicos para o brasil, por favor!
    na minha última viagem a buenos aires, viajei 10 horas de ônibus até uma cidadezinha de santa fé só para vê-los tocar e foi maravilhoso 🙂

  6. Lembro de quando conheci a banda, através de uma resenha que li aqui mesmo, que se não me engano era também do Vinhas. O disco em questão eu não me lembro se era o Anoche ou o Infame, só sei que baixei e não parei de ouvir. Logo em seguida eu baixei o outro e virei fã da banda. Muito obrigado pela discografia comentada!

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