Boteco: Brouwerij De Molen (Parte 3)

por Marcelo Costa

O terceiro lote de cervejas da De Molen a passar por este espaço se dividiu entre decepcionar e impressionar: duas das cervejas produzidas em um antigo moinho holandês construído em 1697 não repetiram a surpresa das degustações anteriores, mas, felizmente, as duas seguintes colocaram as coisas em ordem – e ainda há mais quatro para subir para geladeira, o que talvez seja a chave para entender a De Molen: eles produzem tantas cervejas diferentes e tão rapidamente que correm o risco de acertar em cheio numa receita quanto de errar feio em outra. As quatro abaixo foram compradas em empórios brasileiros ao preço de R$ 24 (garrafas de 330 ml). Vamos a elas.

A De Molen Engels é a tentativa dos holandeses de reproduzir o estilo britânico Bitter usando maltes Pale Ale e Cara Malt e lúpulos Sladeck e Amarillo (amargor) e Sladeck no dry hopping. De coloração âmbar e creme levemente alaranjado, de ótima formação e permanência, a De Molen Engels traz um aroma intenso dividido entre levedura e notas cítricas derivadas da lupulagem. Há ainda sugestão floral, adocicado de melaço e caramelo, resina, mamão, pinho e condimentação (pimenta do reino e cravo). Na boca, o primeiro toque sugere acidez e os 30 de IBU fazem uma pequena diferença, mas não agridem. O adocicado não consegue se sobrepor a acidez e o conjunto perde em equilíbrio tornando-se ligeiramente pálido sem repetir as notas deliciosas percebidas no aroma. O final traz caramelo bem suave, terra e resina enquanto o retrogosto reforça a sensação de acidez e de terra.

Já a De Molen Hamer & Sikkel é, segundo o site oficial, a tentativa da casa de produzir uma Porter tradicional, sem ficar testando maltes, adicionando lúpulos cítricos ou envelhecendo a criança no barril. A receita une maltes Munich, Brown Barley e Chocolate enquanto o lúpulo Kent Golding tem a função de aroma e amargor. De coloração preta com fundo marrom e creme bege de boa formação e permanência, a De Molen Hamer & Sikkel, com toda sua devoção a tradição, não poderia deixar de ter o aroma tradicional de uma Porter, com a levedura acrescentando um pequeno diferencial ao conjunto que valoriza o malte torrado em notas que remetem a chocolate, baunilha e café. Os holandeses tropeçam novamente no paladar, mais amargo que o normal (se eles não queriam ser tradicionais, erraram), como chocolate e café lado a lado com o malte e a levedura. O final é seco, achocolato, amargo e levemente azedo. No retrogosto, cappuccino sem muita força.

A terceira De Molen deste passeio é a Molenbier, uma das primeiras receitas geradas pela turma do moinho, “e ainda estamos orgulhosos dela”, eles avisam no site oficial. A Molenbier é uma English Strong Ale que reúne maltes Pilsen e Cara Barley com lúpulos Prremiant e Saaz. De coloração âmbar caramelo com creme bege de alta formação e longa permanência, a Molenbier deixa rendas belgas pelas bordas da taça. No nariz, muito caramelo, mel e cevada surgem encorpados com sugestão de viscosidade e suave percepção de álcool e leve ameixa. Na boca, a textura é suave (menos viscosa do que o aroma faz imaginar) e a combinação entre lúpulos e maltes soa perfeita, com dulçor empolgante (remetendo a caramelo e mel) dividindo a atenção com o amargor moderado, tanto do lúpulo quanto do álcool, com uma leve picancia sugerindo especiarias. O final traz mel, álcool e resina. No retrogosto, caramelo. Delícia.

Fechando este terceiro passeio pelas cervejas do moinho, a De Molen Alive & Kicking é uma American IPA que junta maltes Pale Ale e Caramel Barley com lúpulos Sladek (amargor), Citra, Amarillo e Cascade (dry-hopping). De coloração âmbar caramelada e espuma de alta formação e média permanência, a De Molen Alive & Kicking destaca, como era de se esperar, um aroma deliciosamente cítrico e intenso, com sugestão de laranja, limão, maçã verde, manga e abacaxi mais caramelo, resina, pinheiro, chiclete e mamão. Excelente. Na boca, o conjunto não é tão complexo quanto no aroma, mas ainda assim é extremamente saboroso. Os 54 de IBU não chegam a incomodar e nem atrapalhar a paleta de sabores que inclui manga, caramelo, laranja, abacaxi, pinheiro e chiclete. O final é deliciosamente cítrico com toques de pinheiro, resina e caramelo enquanto o restrogosto traz um leve amargor mais pinho, manga e caramelo. Uma bela cerveja.

Balanço
Sétima De Molen sobre a qual escrevo, a Engels decepcionou. A tentativa dos holandeses de criar uma Bitter aromática convence brilhantemente no aroma e fracassa no paladar, onde parece uma pálida emulação da grande Young’s Special London Ale. Bola fora dos holandeses, e eles continuam chutando para longe do gol com a De Molen Hamer & Sikkel, que era para ser uma Porter simplesinha (tradicional e pouco personal, um pecado), mas acaba sendo uma cerveja de segunda categoria (principalmente para uma cervejaria que tem uma De Molen Tsarina Esra Imperial Porter no catálogo, Top 10 na minha lista pessoal), que não chama a atenção (principalmente pelo desequilíbrio entre amargor e malte). A nona cerveja da turma do moinho coloca as coisas em ordem na casa: a Molenbier é uma English Strong Ale de deixar britânicos sorrindo. Uma das primeiras cervejas dos holandeses, a Molenbier aposta na simplicidade (que não deu certo na Hamer & Sikkel) e o resultado felizmente surpreende. Melaço, caramelo, leve adstringência e álcool resumem essa boa cerveja. Para fechar o passeio, outro rótulo agradável da De Molen: a Alive & Kicking é uma adorável American IPA lotada de lúpulos cítricos, mas com amargor moderado e sabor envolvente. Foi a melhor desse pequeno tour.

De Molen Engels
– Produto: Bitter
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 2,84/5

De Molen Hamer & Sikkel
– Produto: Porter
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 5,1%
– Nota: 2,79/5

Molenbier
– Produto: English Strong Ale
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,42/5

De Molen Alive & Kicking
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 6,2%
– Nota: 3,55/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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