Um almanaque do rock português

por Pedro Brandt

Tal qual no Brasil, o rock em Portugal também é um gênero musical um tanto mal compreendido, cuja origem e primeiros passos é conhecida apenas por poucos entusiastas. Dois deles, aliás, são os responsáveis por um recém-lançado livro que se propõe justamente a jogar luz sobre o rock no país, indo do final dos anos 1950 até o punk/new wave do começo da década de 1980.

“Portugal Eléctrico! – Contracultura rock 1955-1982” tem como autores Edgar Raposo e Luis Futre, figuras conhecidas da cena rock portuguesa, ambos incansáveis pesquisadores e vorazes colecionadores de discos. Raposo, também um dos maiores conhecedores do rock feito no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970, está por trás do selo Groovie Records (groovierecords.com), editora musical de álbuns (sempre em vinil) de bandas atuais de garage rock e relançamentos de diversas obras raras.

Publicação pioneira sobre o assunto, o livro é resultado de quase oito anos de pesquisas. As descobertas, conta Edgar Raposo, foram muitas. “Uma delas acabou sendo a prova de que Victor Gomes, o músico na capa do livro, foi o primeiro português a fazer rock n’roll em Portugal, ainda em 1957”, exemplifica o autor.

Ao longo de 162 páginas, “Portugal Eléctrico” apresenta, em ritmo de almanaque, verbetes, pequenos textos (em português e inglês) e uma infinidade de imagens, como fotos de bandas, cartazes e ingressos de shows, trechos de reportagens de jornais e revistas e dezenas de capas de compactos e LPs, tanto de artistas portugueses quanto de outras nacionalidades (em especial, americanos, ingleses e brasileiros) que tiveram lançamento por lá.

Os primeiros grupos a tocar rock em Portugal vieram dos chamados conjuntos ligeiros (interpretes de música de baile) que, influenciados por Elvis e Bill Halley e por filmes como “Blackboard Jungle” (“Sementes da Violência”), de 1955, e “Girl can’t help it” (“Sabes o Que Quero”), de 1956, logo estavam fazendo versões de músicas americanas e, poucos depois, algumas de autoria própria, especialmente a partir de 1960.

Marco da época foram os Sheiks, quarteto fenômeno de popularidade que viveu sua própria beatlemania. O EP de 1967 do Quarteto 1111 marca o começo da psicodelia à portuguesa. A mesma banda, pouco depois, se destacaria com letras anti-bélicas e anti-racistas. O começo dos anos 1970 seria um período difícil para o rock no país, com poucos grupos lançando álbuns, a maioria se limitando a compactos e EPs – situação que mudaria no fim da década, com o novo fôlego trazido pelo punk rock.

Tanto pelo apelo visual, quanto pelo conteúdo das informações contidas nos textos, “Portugal Eléctrico” é um convite irresistível a conhecer o rock feito na terra de Cabral. “Vale a pena conhecer o rock português nem que seja por curiosidade, mas também porque existem muitos músicos bons nestes últimos 50 anos, desde o rock ao pop, prog, intervenção, punk, metal… De Jorge Costa Pinto aos Moonspell, de Joaquim Costa aos Dirty Coal Train”, comenta Edgar Raposo.

“Portugal Eléctrico! – Contracultura rock 1955-1982”
de Edgar Raposo e Luis Futre. Editora Groovie Records. Preço: 20 euros.
À venda na www.groovierecords.com

– Pedro Brandt (www.facebook.com/pedro.brandt.56) é jornalista e vive em Brasília

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