Sobre três discos de bandas portuga

por Bruno Capelas

“Puro”, Xutos & Pontapés (Sony Music)
O que pode se esperar de uma banda de rock aos seus 35 anos de idade? É difícil dizer, afinal, 35 anos de serviço é o tempo máximo que um trabalhador precisa contribuir para conseguir sua aposentadoria no Brasil. Entretanto, quando um país está em crise e até o seguro social se põe em dúvida, é hora de arregaçar as mangas. É o que fazem os veteranos portugueses do Xutos & Pontapés no seu mais recente disco, “Puro”, lançado em janeiro. Não espere nenhum arroubo de novidade: os Xutos (como seus “irmãos” Titãs) há muito primam pelo bom e velho rock’n’roll (ou “rock barriga”). Entretanto, munidos de solos clichês, porém eficientes, criados pelo guitarrista João Cabeleira, a banda têm momentos interessantes como nas políticas “Tu Também” e “Ligações Directas”, na tocante “Da Nação” e na tragicômica “A Voz do Dono” (que fala sobre a emigração pós-crise em Portugal). Há ainda espaço para o amor, na pegajosa “De Madrugada (Tu & Eu)”, verdadeiro teletransporte para os anos 80. Entretanto, as engrenagens mostram ferrugem na banda em protestos bobos como “Salve-se Quem Puder” e nas anti-católicas “Um Deus” e “O Milagre de Fátima” – esta última o equivalente do chute na santa à padroeira de Portugal. Entretanto, “Puro” compensa por mostrar sangue correndo nas veias. O pulso… ainda pulsa.

Preço em média:
Nota 6,5

“As Viúvas Não Temem A Morte”, Ciclo Preparatório (Optimus Discos)
Um dos projetos mais bacanas saídos de Portugal recentemente, o Ciclo Preparatório (nome que faz referência aos anos intermediários na educação portuguesa, entre os 10 e os 12 anos) é um sexteto lisboeta (quatro rapazes e duas moças) que pega o ouvinte pela mão para levá-lo por uma ciranda pop rural, com forte sabor oitentista. “As Viúvas Não Temem a Morte”, seu primeiro trabalho, lançado em 2013 (download gratuito na Optimus Discos), tem menos de trinta minutos, mas é difícil não querer apertar o play de novo ao seu final. Nas primeiras escutadas, o ouvido é facilmente fisgado pelos chicletes de “Lena del Rey” e “A Volta ao Mundo Com a Lena D’Água” (as duas em referência a uma cantora portuguesa famosa dos anos 80, além de você-sabe-quem), mas não se engane, ouvinte: há mais além. “Viúvas” é um disco cheio de camadas (interpretativas e musicais, com destaque para as harmonias vocais do grupo), feito para ser descoberto com calma e tranquilidade, como uma memória (ingênua) de um dia bom de infância (não à toa no nome do grupo e em faixas como “Casa da Lamarosa” e “Deixem-nos Brincar em Paz”, ou versos como “tracei o horizonte a carvão”). Mal-humorados acusariam o grupo de ser fofo de propósito, ou um projeto de “crianças mimadas”. Bobagem: como diz a banda, “o céu só vai alcançar quem souber dormir e sonhar”. Boa noite, amor.

Nota: 7,5

“Turbo Lento”, Linda Martini (Universal)
Com seu título paradoxal, “Turbo Lento” é um disco pulsante. Em seu terceiro trabalho, o grupo português Linda Martini ainda presta tributo às suas raízes punk, noise e hardcore (uma dica: seu último álbum, “Casa Ocupada”, de 2010, tinha canções como “Juventude Sónica” e “Ameaça Menor”), mas reduz a força das guitarras barulhentas para dar lugar a maior apuro lírico, típico de quem tem algo a dizer em um país em ruínas, preso no passado e com necessidade de seguir, mesmo frente às dúvidas. É o que se vê na iconoclasta “Panteão” (“que se foda o panteão / dou os ossos a um cão”), na caótica “Ratos” (“não esperes o Czar/ hoje há levante /gasto as mãos/ peneiro merda e ouro”) e também na raivosa “Juárez” (“bom vivant / guronsan / deixo tudo para amanhã / terapia de divã”). Isso para não falar no ótimo jogo proposto ao se samplear Chico Buarque na climática “Febril (Tanto Mar)”. A voz de Chico evoca a festa da Revolução dos Cravos, mas a voz de André Henriques pede lastimosa: “chama alguém, que eu não estou bem”, em retrato único de uma nação que, depois de celebrar, vive à mercê da palavra austeridade. No fim, em “Volta”, a solução parece ser se voltar ao mar (mais uma vez?), ao longe (emigrar?) ou se deixar levar (“o fado agora quer ser samba/soltar o corpo, perna bamba”), mas estes rapazes não são de desistir facilmente.

Nota: 8,5

Leia também:
– Linda Martini: “Para nós, “Turbo Lento” superou “Casa Ocupada (aqui)

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

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