Humberto Gessinger ao vivo em SP

Texto e vídeos por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

30 anos se passaram desde que Humberto Gessinger formou os Engenheiros do Hawaii, e desde sempre (mais propriamente a partir do segundo disco da banda, “A Revolta dos Dandis”, de 1987), o mundo se divide em quem acredita que Humberto Gessinger é gênio e naqueles que veem no gaúcho uma das piores coisas surgidas na música brasileira em todos os tempos. Contaminados pela paixão (tanto de amor quanto de ódio), os dois lados estão errados, e a primeira turnê solo de Humberto em 30 anos serve como um ótimo trampolim para analisar uma carreira que, a margem da derrocada da indústria, segue firme e com fãs fieis.

Divulgando “Insular”, seu primeiro disco totalmente solo (o projeto Humberto Gessinger Trio, que lançou um álbum em 1996, foi praticamente um embrião da segunda formação dos Engenheiros, que, desde sempre, teve em Humberto seu líder e porta-voz, mas as coisas agora são diferentes), Humberto Gessinger voltou a São Paulo para romper três anos de silêncio com a cidade (seu último show na capital havia sido em 2011 com o projeto Pouca Vogal) que o recebeu, 28 anos atrás, para três shows minúsculos no Rose Bombom, o terceiro deles neste mesmo 21 de março. Humberto relembra em seu blog oficial:

“Em São Paulo, não éramos ninguém. Nossa história ainda estava por ser escrita. Tive este insight em meio ao primeiro show na Paulicéia desvairada. Não dava pra chamar aquela dúzia de pessoas, por mais animada que estivesse, de São Paulo. Então me limitei a um genérico “valeu, rapaziada!”. (Marcelo) Pitz, grande baixista e figura dulcíssima, deve ter pensado que fora esquecimento meu, chegou ao microfone e tascou: “obrigado, São Paulo!”. Achei engraçado. Hoje, penso que ambos estávamos certos. Era e não era a cidade. Essa São Paulo são tantas cidades…”

De uma dúzia de pessoas em 1986 para cerca de 3 mil e 500 pessoas em 2014, muita coisa aconteceu na carreira de Humberto Gessinger durante esse espaço de tempo, e boa parte dessas histórias surgem estampadas em camisetas variadas (a lojinha caprichada irá abastecer a mitologia nos shows seguintes), que relembram discos e turnês dos Engenheiros numa plateia que traz desde fãs grisalhos (será que algum daquele show do Rose Bombom? Quem sabe) até adolescentes que devem ter descoberto os Engenheiros fuçando os discos do pais ou através do Pouca Vogal.

Acompanhado de Rafael Bisogno na bateria e (o ex-Fresno e atual Esteban) Rodrigo Tavares na guitarra, Humberto entra de baixo em punho apresentando “Sampa no Walkman” (1991), fidelíssima à versão original, e emenda com o primeiro número do disco novo, “Tudo Está Parado”, uma das canções mais cantadas pelo público na noite (outras cinco canções do novo álbum iriam entrar no set list da noite), o que por si só já permite discussões sobre quantos artistas do século passado conseguem agradar seu público ao juntar material novo e antigo, ambos esperados com a mesma atenção pela audiência.

“Toda Forma de Poder” (1986) surge em arranjo cadenciado valorizando a grande letra de Humberto. “Até o Fim” (2003), um dos mantras da carreira do gaúcho, vem na sequencia e já começa a deixar a plateia rouca, que grita a letra: “Não vim até aqui pra desistir agora / Entendo você se você quiser ir embora”. Seguem-se “Armas Químicas e Poemas” (2004), a bonita “Pose” (1992) e a nova “Bora” (2013), com Humberto aliterando “bora/boreal”. A primeira parte da noite resvala em um rock direto, sujo e quase punk, depois se transforma em um classic rock típico de FM, com solos de guitarra encharcados de delay.

“Surfando Karmas e DNA” (2002) e “Eu Que Não Amo Você” (1999), ao lado da nova “Tchau Radar” (2013) rendem o momento mais datado da noite, sonoramente. O público embarca cantando as letras e fechando os olhos durante os solos sonolentos de Tavares, “viajando” no tempo. O show volta a criar ritmo com uma versão fidelíssima de “Ando Só” (1991) e, principalmente, com a ótima “A Revolta dos Dandis” (1987). Inaugurando a terceira parte do show, repleto de baladas, surge em arranjo quase folk “A Ponte Para o Dia”, detentora do prêmio “Parabólica” de pior letra do disco novo pelo refrão “Atravessar a travessia”.

De acordeom em punho, Humberto declama a bonita “Somos Quem Podemos Ser” (de 1986, com Tavares cantando o segundo trecho e, oportunamente, atualizando a segunda parte da letra para “garotos não sabem mais português”) e emenda com uma de suas mais sinceras baladas, “De Fé” (1996). Segue-se o hino “Terra de Gigantes” (de 1987, ainda no formato acordeom) até que Humberto se dirige ao piano para o segundo bloco de baladas, aberto com “Piano Bar” (1991) e seguida por “3×4” (1999), “Tchau Radar” (2013) e “Pra Ser Sincero” (1990). O show termina com “Exercito de Um Homem Só” (1990).

O trio volta ao palco com uma das canções mais queridas pelos fãs, “Dom Quixote” (2003), e emenda “Refrão de Bolero” (1987). Nova pausa, e o segundo bis é aberto com a canção que, talvez, melhor resuma o letrista Humberto Gessinger: “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir”, fiel ao arranjo Rush do disco “O Papa é Pop” (1990), dispara frases certeiras contra a violência do capitalismo (que separa o povo conforme o dinheiro que ele possui) ao mesmo tempo em que escorrega para imagens piegas (“Um cheque sem fundo no fundo do coração?”). Para fechar o show, “Infinita Highway” (1987), com o baterista Gláucio Ayala, da última formação dos Engenheiros, entrando em cena e descendo a porrada no kit.

25 músicas depois, a sensação é de que esta turnê “Insular” é uma das melhores de Humberto Gessinger em muito tempo. O trio está afiado e a boa seleção de repertório valoriza uma carreira solitária, criada a margem do chá dos cinco do rock nacional (é emblemático que este mesmo Citibank Hall verá, em abril, um show conjunto de Biquini Cavadão, RPM e Titãs), e que alterna bons momentos (principalmente quando Humberto exibe seu lado gauchesco) com passagens piegas (os solos de guitarra, a estética datada setentista) de um compositor que ousa errar vergonhosamente e acertar genialmente, muitas vezes numa mesma letra/canção.

Cada pessoa pode até escolher um lado, e isso dirá mais sobre ela do que, necessariamente, sobre Humberto Gessinger, um grande artista com uma carreira admirável marcada por erros e acertos, e que, em meio a um cenário musical vilanizado pela estupidez do capitalismo cego da direção das grandes gravadoras, criou o seu próprio universo, e mantém um grupo fiel de fãs, que acompanha seus passos, compra seus discos, veste suas camisetas e leva pra casa a caneca (de chimarrão) que ele exibe várias vezes durante a noite, e também está à venda na lojinha. Sem se vender ao sistema, Humberto Gessinger segue em frente. Dignamente.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Veja também:
– Humberto Gessinger: “Quero viver esse momento com intensidade” (aqui)
– “Insular”: Gessinger está ficando velho. Mas continua o mesmo (aqui)
– Três CDs dos Engenheiros do Hawaii, por Marcelo Costa (aqui)
– “Acústico MTV Engenheiros do Hawaii”, por Marcelo Costa (aqui)

7 thoughts on “Humberto Gessinger ao vivo em SP

  1. Cara, fui recentemente ao show do Humberto e fiquei impressionado com a sua descrição do evento e da carreira do Humberto. Simplesmente perfeito.
    Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *