A nova fase dos Raimundos

por Marcos Paulino

Demorou, mas enfim o Raimundos apresenta um disco de inéditas. “Cantigas de Roda”, o oitavo trabalho de estúdio dos brasilienses, é o primeiro com músicas novas desde “Kavookavala”, de 2002. Porém, o guitarrista Marco Aurélio Mesquita, o Marquim, garante que nesses 12 anos não faltou trabalho, mesmo que entre altos e baixos. Integrantes saíram, alguns voltaram, mas a banda que já arrastou multidões nos anos 90 conseguiu sobreviver, de um jeito ou de outro.

Para fazer o novo disco, Marquim, Digão (vocal e guitarra), Canisso (baixo) e Caio (bateria) revisitaram o passado. Voltaram a se encontrar na casa do pai de Digão e correram atrás de grana. Tiveram a ideia de fazer um crowdfunding para financiar o disco, que deu tão certo que as contribuições dos fãs renderam R$ 120 mil. Assim, puderam até chamar Billy Graziadei, vocalista e guitarrista do Biohazard, para produzir o CD.

No dia 5 de fevereiro, os 1.699 fãs que participaram do crowdfunding receberam em primeira mão o link para baixar “Cantigas de Roda”. Eles puderam constatar que o velho Raimundos estava de volta, em 12 faixas nas quais o hardcore temperado com ritmos nordestinos encontra letras às vezes raivosas, em outras sacanas. Demorô! Nesta entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell, Marquim faz um resumo dessa história toda.

Foram 12 anos sem que o Raimundos gravasse um disco de inéditas. Vocês estavam meio enferrujados já?
(Risos) Na verdade, foi assim. Lançamos um disco em 2002, o “Kavookavala”, depois um EP virtual com a MTV, que tinha quatro músicas. Em 2007, o Caio entrou junto com o Canisso, que voltou, então não poderíamos lançar um disco de jeito nenhum, pois tínhamos que nos acostumar com eles, a banda tinha que funcionar direito ao vivo. Em 2011, lançamos um DVD ao vivo e, agora, o novo de inéditas. Então o hiato teve bastante coisa. (Risos) A gente não estava parado totalmente.

Não foram férias nem aposentadoria.
Não! De jeito nenhum. Estávamos fazendo show, o que dava. O período de 2002 a 2008 foi bem chato, porque o Canisso saiu, depois foi o Fred que saiu, daí o Canisso voltou, então a banda não estabilizava nunca. A gente não conseguia fazer muita coisa, só tocava ao vivo mesmo. Aí o Caio entrou, e voltou aquela força de querer fazer música nova. Tem música nesse disco novo que é de 2007, 2008. Foi um processo longo e lento, mas que valeu a pena.

Sem dúvida, foram muitos altos e baixos. Vocês inclusive voltaram a gravar na casa do pai do Digão, como no começo da banda. Mas, depois desses últimos anos, como você classifica o atual momento?
A banda está num momento de ascensão cautelosa. (Risos) Uma ascensão consciente, um momento maduro. Todo mundo já tem mais de 40, menos o Caio, que é moleque. A gente tem consciência total do que está fazendo e tem controle da situação. Não estamos em gravadora, então a empresa é toda nossa. Tanto que pudemos fazer esse disco com cuidado, com calma. Foram três, quatro meses pra terminar as músicas e mais dois planejando o crowdfunding, que rolou direitinho, pra nossa alegria e pra constatação de que estamos num momento bom. Aí fomos gravar em Los Angeles com tudo pronto. Foi uma preparação muito longa. Pra se ter uma ideia, o Caio passou um ano estudando todas as letras do Raimundos pra aprender a compor.

Não é exagero dizer que o Raimundos foi uma das principais bandas brasileiras dos anos 90, tanto que vendeu 3 milhões de cópias. Como é ter sido mainstream e depois recomeçar de baixo?
Quando entrei, em 2001, eles eram reconhecidos na rua por todo mundo. Aí rolou aquela merda, quando eles saíram da Warner e os shows começaram a diminuir. Mas o engraçado é que nunca vi em nenhum deles, nem no Digão, nem no Canisso, nem no Fred (ex-baterista da banda), essa sensação de “Ai que droga, estamos por baixo”. Eu, no lugar deles, ficaria deprimido de ter sido a maior banda do Brasil e depois fazer dois shows por mês. Eles nunca pensaram assim, mas sim que era legal estar na estrada começando de novo. Como se fosse uma banda iniciante, tendo que conquistar os fãs do zero. Acho isso uma atitude muito bacana. Acho que o momento por baixo foi em 2005, mas depois da entrada do Caio e da volta do Canisso, a gente começou a fazer show pra caramba e a tocar em programas de televisão importantes, como o “BBB”, e em festivais como o SWU. De lá pra cá, a gente vem crescendo sempre.

O disco novo tem músicas que são a cara do velho Raimundos. Isso aconteceu naturalmente ou foi planejado?
A gente se reuniu na casa do Digão e cada um chegou com ideias mais ou menos prontas, com riffs, com pedaços. A gente trabalha sempre assim, os quatro em conjunto. Foram dois meses fazendo letras e músicas, trabalhando 10, 12 horas por dia, lapidando as ideias até as músicas ficarem prontas. Mas não rolou um lance de “Vamos fazer um som com gosto de antigamente”? Não! Com exceção do cover do Zenilton, que ficou igual ao do primeiro disco, porque afinal é o Zenilton, e não tem o que fazer. (Risos) Essa música a gente quis deixar a cara do primeiro disco. As outras foram saindo naturalmente.

Até que ponto tem o dedo do Billy Graziadei no disco?
Quando chamamos o Billy, as músicas estavam 90% prontas. Mandamos as músicas pra ele, que nos devolveu muitas ideias. Algumas aceitamos, outras não. Mas, por exemplo, a introdução de “Baculejo” com bateria tribal foi ideia dele. Na gravação, ele também deu muitas ideias. Ele que insistiu na participação do Sem Dog (rapper do Cypress Hill) em “Dubmundos” e chamou um baixista que fez um arranjo maneiríssimo.

Que lição vocês tiram da história do crowdfunding?
A de que, se as gravadoras não inventarem um jeito novo de trabalhar, as bandas já têm uma alternativa muito boa. As gravadoras têm um esquema de canibalismo muito forte, elas querem, por exemplo, 80% do CD e 20% do show. Hoje podemos falar não pras gravadoras e dizer pros fãs que eles têm a escolha de fazermos um disco com gravadora e ficar uma bosta ou fazer com eles e eles serem donos do projeto. Os fãs viram parte da banda, se tornam sócios.

– Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira.

Leia também:
– Digão: “Continuamos com esse jeito simples de falar das coisas que a gente vive” (aqui)

9 thoughts on “A nova fase dos Raimundos

  1. Incrível a falta de carisma do Digão e essa insistente necessidade de afirmar que “o Raimundos não morreu”, “ainda fazemos rock’n’roll”, e blablabla…esse “novo” Raimundos soa como um pastiche do que já foi umas das maiores bandas de rock do Brasil…infelizmente, tudo que começa tem um fim.

  2. Baita de um álbum. Com certeza entre os melhores do ano no MUNDO. Rafael já tá entre as melhores músicas dos caras na história. Mas não adianta, sempre tem uma viúva do Rodolfo…

  3. Se dizem independentes de td, de gravadoras, mas ainda são dependentes do próprio nome, da história. Cada disco novo sempre vai ser comparado com o da fase “áurea”, sempre vai ter gente dizendo q “com Rodolfo era melhor”, etc. Me pergunto se não teria sido melhor escolherem um nome novo, começar uma nova discografia. Se é pra começar do zero que comecem pra valer, e não como uma extensão de algo q existiu no passado.

  4. Lembra bastante o antigo Raimundos, mas não faz mais sentido. Raimundos é uma banda com prazo de validade, foi até onde tinha que ir.

  5. Eu gostei do novo disco,tiveram que se reinventar e está valendo!Digão se esforçou muito para compor tudo ao estilo dos Raimundos e deu certo nesse disco,é o que importa.Foda seria se não desse,porque o risco deles não voltarem era muito grande.Por isso os shows e tudo mais.Confesso que fiquei com medo de que não fizessem um disco decente de novo,tipo o Kavookavala.Mas deu felizmente.

  6. O melhor disco de rock nacional do ano com toda certeza! Fazia tempo que não escutava direto um disco de rock brazuca! Parabéns pelo excelente trabalho e vida longa aos Raimundos!

  7. Ozzy saiu do Black Sabbath e a banda continuou (com o mesmo nome) com vários vocalistas.como: Dio, Ian Gillan, Tony Martin, etc… por que Raimundos haveria de mudar de nome só pela saída de Rodolfo?

  8. Para o Álvaro, o Luis, o Daniel e outros tantos: Se a banda se chamasse “The-qualquer-coisa” e cantasse em inglês, vocês gostariam? se a banda chamasse “The Beatles” e cantasse em português vocês gostariam? ouçam o disco, amigos, e só gostem ou não do que tá ali… deu um trabalho fudido pra fazer, e é gostar ou não, sem esse julgamento todo nas costas do senso estético…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.