Três perguntas: All Folks Festival

por Bruno Capelas

Em um momento que o sertanejo universitário, com seus violões, refrões fáceis e até mesmo arranjos de guitarra pegajosos dominam as rádios brasileiras (11 das 20 músicas mais tocadas no dial do País em 2013 pertenciam ao gênero), pode parecer quase irrisório querer falar em “folk brasileiro” – quanto mais promover um festival dedicado exclusivamente ao gênero. Mas é esse o desafio por trás da sexta edição do All Folks Festival, que acontece em São Paulo nesse sábado (22), no Da Leoni Bar (antigo Studio SP), a partir das 23 horas.

“Pensando em folk brasileiro, a proximidade ao sertanejo atual pode suscitar calafrios em alguns por conta de canções pouco desafiadoras, mas esse mercado musical tem grandes lições a serem aprendidas”, conta Amanda Mont’Alvão, uma das responsáveis pelo evento. Nesta edição, o All Folks terá a presença das bandas O Bardo e o Banjo, Capela e Lestics – as duas últimas testando repertório para seus novos álbuns, com lançamento próximo. “Nossa missão sempre foi ser um ponto de encontro para bandas e artistas que tem no folk o ponto de partida para suas criações”, diz Pedro Gama, que coordena o festival junto com Amanda.

No papo a seguir, os dois falam mais sobre a razão de ser do festival, especialmente um momento que bandas como Mumford and Sons e Bon Iver levantam a bola do gênero ao lado de um filme dos irmãos Coen, comentam as diferenças entre o folk e o sertanejo universitário e explicam os desafios (e os sonhos internacionais) de se fazer um festival de nicho e independente no país de Michel Teló e Renato Teixeira. “No fim, tudo acaba sendo um retorno ao bom e velho hábito de ouvir música e conhecer bandas”, diz Amanda. Prepara a botina e vá em frente, caro leitor.

O All Folks existe desde 2011, e está chegando agora à sua sexta edição. De lá pra cá, vimos bandas como Mumford and Sons, Bon Iver e The Decemberists fazerem crescer a popularidade do gênero lá fora, mais um filme dos irmãos Coen (“Inside Llewyn Davis”, sobre um cantor da cena folk no início dos anos 1960, pré-Dylan, depois de “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”) sobre o assunto e o surgimento de vários grupos aqui no Brasil. Como você vê esse momento, e como o festival faz parte desse movimento?

Pedro Gama: O All Folks sempre foi um agregador dessa cena. Nossa grande missão foi ser um local de encontro para bandas e artistas que de algum modo tinham no folk o ponto de partida para suas criações. Ver o gênero crescer e alcançar proporções globais só tem a acrescentar aos artistas e ao festival. Caminhando para a sexta edição, é sempre bom reconhecer os rostos que estavam ali deste o primeiro momento e os novos que chegam a cada nova festa, talvez impulsionados pela evidência do estilo.

Amanda Mont’Alvão: Acredito que toda sonoridade tem uma ampla produção que acaba vindo à tona com mais facilidade e intensidade quando se tem respaldo de outros produtos culturais, como filmes, livros e até mesmo novelas. Fica muito mais fácil defendermos o lirismo e a simplicidade do folk quando se tem um belíssimo filme dos Coen no cinema, por exemplo, mas o mais bacana é pensar que, há anos, já existiam muitas bandas adeptas do gênero, independentemente de ele ter visibilidade ou não. Então, acho um barato ver isso que o Pedro falou: um público que já estava ali, sendo somado a pessoas que vêm sendo conquistadas diariamente pelo estilo. Para o All Folks, fica a grande responsabilidade de identificar bandas que soem atemporais e que representem o gênero com qualidade.

Uma pergunta-provocação: em vários momentos da história do All Folks, alguns artistas aproximaram o folk de Cash & Dylan da música caipira brasileira, citando Almir Sater e Renato Teixeira em seus shows. Entretanto, não consigo imaginar os mesmos artistas se referindo ao sertanejo universitário com a mesma proximidade – embora ela exista, ainda assim. Existe essa fronteira que divide Pena Branca e Xavantinho de Gusttavo Lima? Ou melhor: o que define o folk brasileiro?

Pedro Gama: Acredito que, para o apreciador do “sertanejo raiz”, exista um abismo entre seu estilo e o universitário, apesar de eu saber que muito desses novos cantores e duplas fazem em seus shows releituras dos grandes clássicos do gênero. O que posso dizer é que cada vez mais podemos ver esses novos sertanejos trazendo diferentes instrumentações e timbres para suas canções. Se antes tínhamos um estilo fechado em violas, violões de aço e sanfonas, hoje já ouvimos banjos, mandolins e guitarras, algo que por mais que possa soar estranho, se aproxima muito do que é feito pelas nossas queridas bandas folk no exterior. Acho que o que mais diferencia o folk brasileiro do sertanejo, hoje, é a temática das letras.

Amanda Mont’Alvão: Caio Corsalette e O Dollar Furado é um exemplo de banda que trouxe o sertanejo sem pudor algum para o palco do All Folks. O público correspondeu muito bem, uma vez que estava diante de uma música bonita, bem arranjada, com temática familiar ou amorosa e que despertava emoção. Pensando em folk brasileiro, pode ser que a proximidade ao sertanejo atual suscite calafrios em alguns por conta de algumas canções pouco desafiadoras que fazem sucesso nas rádios. Mas tem algumas grandes lições a serem aprendidas com o mercado musical sertanejo, como a persistência e a vontade de ser um bom instrumentista. Apropriar-se dessas características é algo que só tem a agregar ao folk brasileiro.

Nessa sexta edição, vocês estão se mudando para uma casa maior e “diferente” dos eventos que realizaram antes, o Da Leoni. Dito isso, quais são as expectativas para essa edição? E como é organizar um festival de nicho e independente no Brasil, sem regularidade temporal? Além disso: pras próximas edições, dá para sonhar com gente de fora (penso num Colin Meloy, num Josh Rouse ou Jeff Mangum, por exemplo) encampando o lineup?

Pedro Gama: Mudanças são sempre bem vindas. O All Folks completou um ciclo na antiga casa [o Centro Cultural Rio Verde] e espera começar uma nova história com o DaLeoni. Estamos investindo num novo formato, arriscando novas ideias… basicamente, o mesmo que já fazíamos nas outras edições, que é nos reinventar. Por sermos independentes, nosso compromisso é apenas com o público e com nós mesmos! Não está do jeito que imaginávamos? A gente muda, transforma ou refaz. Só não podemos ficar inertes, esperando que aquilo não deu certo ou aquilo que podia ser melhor se resolvam com o tempo. Esse é o ponto mais importante de não termos um calendário fixo: podemos trabalhar e inovar a cada edição sem pressões externas ou prazos apertados. E respondendo à sua pergunta sobre o lineup, a vontade de trazer algum artista de fora está rondando a produção já há algumas edições. Será uma questão de tempo, ou talvez na sétima edição, quem sabe… eu penso num Tallest Man On Earth, no Ben Taylor ou no The Deep Dark Woods. Que tal planejarmos juntos?

Amanda Mont’Alvão: Mudar de casa é um desafio bacana, principalmente porque precisamos manter o clima de festa que tomou conta das edições anteriores. Já as premissas são as mesmas: no All Folks, os shows precisam vir em primeiro lugar, mas de uma maneira tão interativa com o público que a impressão que precisa ficar é de uma noite legal com uma trilha sonora absolutamente memorável. Acaba sendo um retorno ao bom e velho hábito de ouvir música e conhecer bandas. Quanto às atrações internacionais… bom, elas sempre estão no nosso caderninho de desejos. Quanto mais público consolidarmos, mais condições teremos para trazer alguém de fora.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

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