Três perguntas: Érika Martins

por Marcelo Costa
Introdução por Bruno Capelas

Ela já namorou no portão, pediu por favor ao seu locutor e trouxe caixas de bombom aos seus ouvintes. Agora, é a vez de Érika Martins inventar moda. Não que a cantora, revelada na virada dos anos 90 para os 00 com a banda Penélope, esteja lançando uma nova tendência nem nada. Em seu segundo disco solo, “Modinhas”, Érika decidiu fazer uma viagem pelo tempo e ir em busca das modinhas, um dos primeiros gêneros musicais surgidos no Brasil.

“A moda chegou aqui com a corte portuguesa, no século XIX, e nas ruas foi se transformando em modinha. Agora, que todo mundo fala como o Brasil influi na cultura portuguesa, achei bacana pensar no início”, explica ela em entrevista ao Scream & Yell. Entretanto, apesar de visitar grandes canções do estilo, como a “Modinha” de Villa-Lobos e Manuel bandeira, a cantora aproveitou também para repaginar músicas atuais que se encaixam no gênero, como “Dar-te-ei”, de Marcelo Jeneci, e convidar compositores contemporâneos para compor para ela, como Pedro Veríssimo (da Tom Bloch), MoMo e Botika Botikay.

Mas não é só nas composições que o disco tem roupagem moderna: além do marido Gabriel Thomaz (dos Autoramas), “Modinhas” ainda contém a participação do trio Nevilton e do cantor Otto. Além disso, o trabalho conta com uma nova canção de Tom Zé, “A Curi”, que deu trabalho para ser escutada. “Ele compôs para eu gravar e me deu a música em uma fita K7 – mas eu não tinha nenhum aparelho que pudesse tocar. Só consegui ouvir a música quando encontrei na casa da minha mãe um aparelho e consegui ouvir. Gravei no celular e trouxe pro estúdio”, conta a cantora. Com a palavra, Érika Martins.

Como e quando surgiu para você o conceito de resgatar modinhas? Houve pesquisa ou se tratam de canções que, por algum motivo, frequentaram algum período da sua vida?
Eu comecei a compor para um disco novo, “Memorabília” foi a primeira a aparecer e era a ideia de uma linha condutora. Conversando com a Constança (ex-tecladista do Penélope e atual diretora artística do selo Toca Discos), ela disse que havia lido sobre modinhas e achou o termo muito a minha cara. Fomos pesquisar (o que foi dificílimo, porque quase não existe material sobre o assunto. Para escutar, só encontramos versões rebuscadas, arcaicas…) e me apaixonei pelo estilo, que estava super esquecido. O disco é também uma volta as minhas origens portuguesas, uma homenagem ao meu pai. Toda a arte foi baseada nos bordados da região em ele nasceu, norte de Portugal, na tradição dos “Lenços dos Namorados”.

Apesar do conceito de modinhas ter vindo para o Brasil junto com a corte portuguesa, você escolheu nomes interessantíssimos da nova geração, atualizando o estilo. Como funcionou essa escolha de canções de gente como Pedro Veríssimo, Marcelo Jeneci, Momo e Botika Botikay, entre outros?
A modinha é considerada por muitos historiadores como a primeira música genuína civilizada brasileira. A Moda chegou com a corte e aqui, nas ruas, foi se transformando e virou Modinha. Agora todo mundo só fala da influência da música brasileira na cultura portuguesa, achei bacana pensar no início, na volta disso… Percebi a influência imensa das melodias e letras no meu próprio trabalho e comecei a visualizar no de outros compositores contemporâneos. O Pedro já havia feito uma nova música para eu gravar (sou muito fã! No meu primeiro disco solo ele compôs “Sacarina”, que considero um hino para as garotas!). Felipe Rodarte, produtor do disco, pediu uma música para o Botika e ele fez “Fundidos”, que abre o disco! E tem também “Dar-te-ei” do Jeneci, que considero a mais modinha de todas, e a do Momo tem uma pegada super anos 70.

Otto faz um dueto com você em uma canção, o trio Nevilton lhe acompanha em outras duas músicas além do Gabriel (e do Autoramas): como foi trabalhar com esse pessoal? E “A Curi”, do Tom Zé, como chegou à você?
“A Curi” tem uma história bem divertida. Tom Zé compôs para eu gravar, em parceria com Elifas Andreato, e me mandou numa fita K7! (risos!). Apesar de ser uma apaixonada e quase colecionadora de coisas antiguinhas, não tinha nenhum aparelho em casa que desse pra escutar. Fui para a Chapada Diamantina fazer uma imersão, uma pré-produção do disco, e levei a fita. Encontrei na casa da minha mãe um aparelho e consegui ouvir, gravei no celular e trouxe para o estúdio. A letra é sobre evolução, curiosidade e perda da inocência…Tem a participação linda do Humberto Barros no acordeon e no teclado Fender Rhodes. Foi a primeira vez também, depois de uns 20 anos, que Fred e Gabriel gravaram juntos, momento bem emocionante e divertido! O Otto fez um dueto na “Modinha” de Villa Lobos e Manuel Bandeira, fizemos um climinha “Je T’aime”, bem Serge Gainsbourg. Sempre que nos encontrávamos nas festinhas, shows…ele dizia que tínhamos que fazer algo juntos…pensei nele na hora pra essa música.

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