Boteco: Três cervejarias belgas pouco conhecidas

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por Marcelo Costa

A Brasserie Caracole é uma cervejaria inaugurada em 1992 nas mesmas instalações da Brasserie Moussoux (datada de 1766) em Falmignoul, cidade valã da província de Namur, mais próxima da fronteira da França (e da cidade de Rochefort) do que de Bruxelas. Conhecida por ainda aquecer a água em forno a lenha, a Brasserie Caracole é praticamente artesanal, com a rotulagem de seus cinco rótulos sendo feita manualmente. La Caracole Nostradamus é uma Belgian Dark Strong Ale de 9,5% de álcool, coloração entre o avermelhado e o âmbar escuro, e creme de média formação e baixa permanência. No nariz, um dulçor firme que remete a açúcar mascavo, um toque agradável de frutas vermelhas e escuras (ameixa, uva passa, figo e framboesa) e uma leve picância fruto da alta graduação alcoólica. Há ainda leve sugestão de vinho do porto, madeira e licor (a percepção do último aumenta conforme o líquido aquece na taça). Na boca, a potência do álcool toma a frente ao lado do dulçor frutado caramelado liberando notas condimentadas (pimenta do reino) e leve acidez. Repetem-se as notas frutadas antecipadas pelo aroma, mas com certa timidez. O final é quente, maltado (caramelo) e suavemente frutado. No retrogosto, frutas escuras, vermelhas e vinho do porto. Muito boa.

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A cervejaria Alken-Maes surgiu em 1988 com a fusão de duas outras cervejarias belgas: Maes, localizada em Kontich-Waarloos e Cristal-Alken, de Alken. Em 2000, a Alken-Mae foi comprada pela Scottish & Newcastle, e assumida pela Carlsberg e Heineken em 2007. No catálogo da cervejaria, nomes de respeito como Affligem, Grimbergen, Judas, Mort Subite e Brugs, essa da foto, uma witbier fabricada pela primeira vez em 1983 pela Brouwerij De Gouden Boom, que vendeu a receita para a Alken-Maes em 2000 – embora a fabricação inicialmente tenha se mantido em Bruges, após a aquisição (2003) e fechamento (2004) da Brouwerij De Gouden Boom, a produção passou a ser feita em Alken. Cerveja de coloração amarelo palha, quase opaca puxando para o esverdeado – devido a não filtração, a Brugs Biere Blanche exibe uma espuma branca de média formação e curta permanência. No nariz, os aromas cítricos tradicionais do estilo marcam presença, derivados da adição de casca de laranja e coentro. Há, ainda, sugestão bastante perceptível de banana. Na boca, leve acidez, notas cítricas básicas (limão principalmente), leve condimentação e, novamente, banana derivada do malte de trigo. O final é seco, cítrico e refrescante. No retrogosto, limão (em primeiro plano) e banana. Boa.

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Fechando o trio com um rótulo da Brouwerij Boelens, cervejaria surgida em 1850 na pequena cidade de Belsele, província de Sint-Niklaas, na região dos Flanders, próxima de Antuérpia. No site oficial, uma memória interessante: “Em 1779 havia 17 cafés para uma população total de 1.962 almas. Agora, 230 anos mais tarde, a população cresceu para 4 mil almas enquanto o número de pubs caiu para 13”. Após um longo tempo em silêncio – mais precisamente desde 1915, quando a cervejaria foi atingida pela artilharia alemã na Primeira Guerra Mundial –, a Brouwerij Boelens voltou à ativa em agosto de 1993, e um dos primeiros rótulos da casa foi essa Boelens Bieken, uma Belgian Strong Honey Ale de coloração amarela com forte turbidez derivada da não filtração, espuma branca espessa de boa formação e ótima permanência. No nariz, notas florais, frutadas (banana), adocicadas (mel e caramelo) e picantes (derivada da levedura) formam um delicioso bouquet. Na boca, o álcool surge em primeiro plano seguido de perto por uma sugestão de condimentação e, na retaguarda, pelo malte (se desdobrando em notas que remetem a banana, feno e pão). O acabamento é levemente picante, frutado e doce enquanto o retrogosto traz leve acidez, banana, frutas cítricas e pão. Quase um café da manhã completo.

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Balanço
Honrando a deliciosa tradição das Belgian Dark Strong Ale alcoólicas e frutadas, La Caracole Nostradamus surpreende com um conjunto tremendamente saboroso e inebriante, levemente licoroso, bastante frutado e bem caloroso. Perfeita para aconchegar o corpo (e a alma) em noites frias. Me surpreendeu (e vou guardar a outra garrafa por um bom tempo), ainda mais que não bebi os 750 ml de uma sentada só, e o restante que ficou para o outro dia (uma taça) na garrafa rolhada ficou ainda mais frutado – puxando para figo e alcaçuz, e esquentando. Uma delicia. Já a Brugs Biere Blanche é uma witbier interessante, que fica atrás da Hoegaarden (praticamente todas as wits do mundo ficam atrás da Hoegaarden, com exceção, talvez, da St. Bernardus Wit, que é excelente), mas cumpre seu papel de refrescancia em dias de verão. Costuma-se servi-la na Europa com uma rodela de limão na taça, e a primeira vez que a bebi foi em uma viagem de barco de Damme para Bruges (fomos de bike para Damme e voltamos pelo Rio), e ele casou perfeitamente com o momento pós-pedalada. Para fechar o trio, uma deliciosa (e perigosa) cerveja da Brouwerij Boelens, a Bieken, uma Belgian Strong Honey Ale que pode facilmente derrubar desavisados: adição de mel, notas frutadas, sugestão de trigo, pão e feno e 8.5% de álcool. Um carinho pra alma. Fiquei interessado pela cervejaria e vou atrás de outros rótulos deles.

La Caracole Nostradamus
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9,5%
– Nota: 3,69/5

Brugs Biere Blanche
– Produto: Witibier
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 3,06/5

Boelens Bieken
– Produto: Belgian Strong Honey Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8,5%
– Nota: 3,35/5

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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