O Brasil no South By Southwest 2014

por Izadora Pimenta

O nome da Boogarins ecoou em diversos países ao redor do globo ao longo de 2013, mas nenhum dos integrantes tinha sequer um carimbo no passaporte. Agora, as faculdades, os trabalhos e a rotina da vida em Goiânia serão deixados para trás para que a vida de banda vire, de fato, prioridade. A revelação da psicodelia brasileira pisa pela primeira vez em solo norte-americano agora em março, no South By Southwest (SXSW), o efervescente festival realizado anualmente em Austin, no Texas (EUA).

Para os goianos, que possuem contrato assinado com o selo americano Other Music Recordings, vale tudo. Mesmo com os altos gastos na ponta do lápis, uma vez que não há nenhuma espécie de cachê, a Boogarins aposta todas as fichas na experiência que irá ganhar com esse cenário. “Sem contar o fato de ser um festival bastante cultuado aqui no Brasil. Há um certo “status” para quem volta ao Brasil depois de tocar nele”, justifica Benke Ferraz, guitarrista da banda. “Tocaremos bastante. Nosso manager, Gordon, não cansa de nos falar o quanto as coisas serão corridas e intensas por lá”. O festival, no entanto, é só um pretexto para dar início a uma turnê que se arrasta para a Europa e vai até maio.

Participar do SXSW é, de fato, tentador para as novas bandas. O multifestival, que reúne cinema, música e tecnologia, é tido como uma espécie de Meca da inovação. Parece até meio assustador imaginar que mais de duas mil bandas se apresentam no ano, em vários cantos espalhados pela cidade, para um público que está interessado em consumir nova música, como se, de repente, as páginas do Bandcamp e do Soundcloud virassem realidade e estivessem apenas há alguns passos. Não gostou? Troca de faixa.

Para cativar novos fãs ou, ao menos, interessados, é importante também que a banda saiba se vender. O jornalista Tiago Agostini cobriu o SXSW em 2013 para o Scream & Yell, e viu que a oferta de shows é imensa. “A cidade de Austin respira música nestes cinco dias. Além das mais de duas mil bandas se apresentando em diversas casas de show espalhadas pelo centro da cidade, uma ao lado da outra, há os diversos músicos que transformam as ruas em palco e mostram desde folk britânico a batucadas em baldes”. Competição árdua.

O festival chega à sua vigésima oitava edição em 2014 e já trouxe visibilidade para artistas como The White Stripes, Alabama Shakes e Norah Jones. Segundo a organização, cerca de 25 mil representantes da indústria musical e 3 mil veículos de imprensa marcam presença anualmente. Em 2013, 55 diferentes países foram representados por suas bandas e artistas.

O sonho norte-americano, no entanto, não é tão fácil quanto se espera. A Cambriana, banda conterrânea da Boogarins, foi selecionada para a edição passada do festival, mas optou por não ir. “A gente fez as contas e viu que a grana preta que gastaríamos na viagem poderia servir para outras coisas na banda, e a chance de qualquer repercussão naquele festival é minúscula, a não ser que você já chegue lá pré-hypado ou dê muita sorte”, justificou o vocalista, Luis Calil.

Edimar Filho, guitarrista da Black Drawing Chalks, acredita que tudo é uma questão de planejamento. “Se a banda se programar com antecedência, dá pra executar um bom plano para financiar a viagem”, explica. A banda, também goiana, iria participar do festival pela segunda vez, mas cancelou a viagem devido à mudança de regras de imigração. Com as novas regras, a banda teria de apresentar um visto de trabalho ao entrar em terras americanas, que não ficaria pronto a tempo.

Os gaúchos da Fresno, que embarcam pela segunda vez para Austin, compartilham de uma visão parecida. A banda procura se organizar antes e buscar por parceiros, patrocinadores, empresas e pessoas interessadas em ajudar a bancar a viagem. “Mas, se a gente tiver que desembolsar, eu não me faço de rogado, pois a gente costuma tratar a viagem para o SXSW como uma pessoa-padrão lida com uma viagem de férias para a Disney. Para nós, aquilo lá é a nossa Disney”, defende o guitarrista e vocalista Lucas Silveira, que também participou uma vez do festival sem a banda, com seu projeto de música eletrônica SIRSir.

Uma das principais motivações que levam as bandas a fazer parte do ambiente instalado no South By Southwest é o mercado underground americano e todas as oportunidades que eles podem encontrar por lá. Os festivais deste porte são vistos como uma grande aula a céu aberto para entender melhor como é fazer parte de uma banda independente e fazê-las funcionar.

“Eles já entenderam lá que se você quer “dar certo” com uma banda, ou com qualquer aspecto de uma carreira artística, você tem que ter dedicação integral e prioritária e trabalhar muito, muito e muito. Desde fazer o booking de seus showcases, imprensa e tudo o mais… Eles funcionam de maneira muito mais profissional do que no Brasil. É uma aula de produção, de empreendedorismo e um sacode bem grande do tipo ‘ACORDA, corre que você tá ficando pra trás!’, defende Edimar.

Nessa toada, a própria banda ganha um balaio de opções para, também, se redescobrir. Lucas Silveira destaca que, sem 1% do prestígio que a banda conquistou no Brasil, a viagem é uma maneira de “voltar às origens” no auge dos 15 anos de carreira.  “É muito legal carregar nosso próprio equipamento, ver a reação das pessoas ao nosso som, puro e simples, sem ideias preconcebidas sobre a gente, sem predicados ditados por outras pessoas. Isso é como um sopro de ‘juventude’ pra gente, e a experiência sempre nos deixa renovados.”

Edimar vê também como vantagem o fato de já conhecer o terreno no qual está pisando e recomenda que as bandas de primeira viagem tenham consigo alguém que já conheça as pessoas e saiba procurar as melhores oportunidades, para que todo esse cenário seja bem aproveitado. Lucas, que já tem o festival como seu velho conhecido, é uma dessas pessoas que abrem a cabeça para absorver as novas ideias. “É um mundo onde a música de verdade fala mais alto, onde o que é novo e inventivo ganha destaque, onde o talento é enxergado sem filtros, por milhares de pessoas que estão lá apenas para ouvir música boa e conhecer gente nova. Tudo acontece ali, na rua, na hora. Eu volto de lá sempre de alma lavada, cheio de ideias. Eu sou um sonhador, e muitos dos meus sonhos eu acabo botando na rua, na base de muita briga e correria. Com certeza, muitas dessas ideias eu tive atravessando alguma rua de Austin”, declara.

Tanto Black Drawing Chalks quanto a Boogarins possuem outros planos após o festival. As duas bandas estão na escalação do festival catalão Primavera Sound, em maio, ao lado de outros nomes como Single Parents, Caetano Veloso, Rodrigo Amarante e Móveis Coloniais de Acaju. A Boogarins também fechou datas na Califórnia e no restante da Europa, onde também irão abrir para o Of Montreal. O Black Drawing também irá aproveitar a viagem para fazer mais shows, mas o guitarrista lembra que fazer mais de 15 shows é raro. “Custa caro e o retorno nem sempre é aquilo que as bandas esperam. Aí, alguns se frustram”.

A Fresno irá esticar as apresentações para o próprio estado do Texas, em cidades próximas a Austin e Houston. De acordo com Lucas, a vantagem de tocar fora do país é “escolher o tipo de banda que eles querem ser”.  “A gente experimentou muitas coisas e a Fresno acaba sendo, para os fãs que nos acompanham há muito tempo, umas cinco bandas dentro de uma só. Mas nesses shows a gente pode focar mais no presente e sermos apenas o que somos agora, sem a obrigação de carregar nossos 15 anos de história nas costas. Somos tão iniciantes quanto as outras bandas do festival, e isso acaba chamando atenção da galera… Um bando de doidos tocando umas paradas doidas em português”.

Hellbenders, Arthur Matos, Roge, Tiê, Zefirina Bomba, Eminence e Regra 4 são outros artistas brasileiros também confirmados para a edição 2014 do SXSW. A parte musical do festival será realizada entre 11 e 16 de março.

As inscrições de bandas e artistas para o SXSW são feitas através do site Sonicbids (http://www.sonicbids.com/find-gigs/sxsw/). As inscrições para a edição de 2015 devem ter início em meados de julho e custam entre $33 a $45 (com base em dados e valores de 2013).

– Izadora Pimenta (@izadorapimenta) é jornalista e escreve sobre cultura e entretenimento. Editou o site Rock ‘n’ Beats;
– Foto de abertura por Tye Truitt, Auditorium Shores durante o SXSW 2013;

Leia também:
– Tiago Agostini: “Se você gosta de música, é obrigatório vir ao South by Southwest” (aqui)
– Boogarins: “Escutamos músicas de qualquer década. Data é uma bobagem” (aqui)
– Fresno: “Hoje, a palavra independente tem um significado pra gente bem literal (aqui)

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